Centenas de agricultores norte-americanos peregrinaram nesta semana para o estado do Arkansas para protestar contra a nova fórmula do Dicamba, um clássico herbicida produzido pela Monsanto. O Conselho de Agricultura do estado decidiu, após sua maior audiência pública da história, banir o uso do herbicida em 2018. A proibição oficial pode causar um efeito dominó no mercado mundial da soja.

Desde seu lançamento, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, o Dicamba danificou 3.6 milhões de acres de plantações de soja no país, causando prejuízos gigantescos para fazendeiros, um pesadelo de relações públicas para a Monsanto e escrutínio regulatório. O dano é causado à vegetação que não foi geneticamente modificada para tolerar o produto químico.

Fazendeiros americanos plantaram 25 milhões de acres com sementes de soja e algodão geneticamente modificadas para resistir ao herbicida só neste ano. Mas esta não é apenas uma questão doméstica: depois de investir mais de um bilhão de dólares no desenvolvimento do produto, a Monsanto pretende exportar o Dicamba para o mundo todo. A decisão tomada no Arkansas deve influenciar a regulação em todo o território americano e será um importante precedente para os maiores mercados mundiais da soja, como Brasil, Argentina, China e Índia.

Histórico

O Dicamba é um herbicida usado há décadas, mas que recentemente foi colocado à venda em formato de spray para matar ervas daninhas em lavouras de soja e algodão transgênicos da Monsanto. Cada vez mais, agricultores afirmam – e cientistas comprovam – que o Dicamba é volátil e pode se espalhar por quilômetros até plantações vizinhas. Isso danifica a vegetação que não foi geneticamente modificada para resistir ao Dicamba. Agricultores que não usaram sementes transgênicas da Monsanto tiveram suas safras danificadas porque seus vizinhos aplicaram o produto. O estado do Arkansas, um dos primeiros estados a tentar regular o produto, viu essa controvérsia chegar a um ponto de ebulição.

Cientistas da Universidade do Arkansas apresentaram evidências inegáveis de que o herbicida pode evaporar em climas quentes e ser carregado para longe, danificando plantas não transgênicas. O estudo também encontrou evidências de danos ao meio ambiente, como o declínio de produção de mel pelas abelhas da região.

“O Arkansas acaba de dar um grande exemplo para o mundo. A Monsanto está intimidando fazendeiros que se atrevem a falar contra o Dicamba. Eles reprimem cientistas críticos. Agora, estão até processando governos para impedir que regulem o uso do produto, sem se importar com os danos que ele causa a pessoas e plantas. Mas hoje, eles perderam a batalha”, afirma Dalia Hashad, diretora de campanhas da Avaaz.

A polêmica no Arkansas alcançou seu ápice em outubro, quando o fazendeiro Mike Wallace foi assassinado a tiros por outro agricultor depois de reclamar dos prejuízos causados pelo Dicamba. Em todo os EUA, os estados abriram 2.708 investigações sobre o impacto do herbicida, de acordo com a Universidade do Missouri. Somente neste ano, estados que são grandes produtores de soja como Missouri, Illinois e Arkansas receberam o equivalente a quatro anos de reclamações relacionadas ao Dicamba. Arkansas recebeu 985 denúncias; Missouri, 310; Illinois, 421 (um recorde desde 1989). Tennessee, Minnesota e Iowa também receberam denúncias.

O Arkansas, que recebeu cerca de 1.000 reclamações, está entre os primeiros governos a considerar a proibição do herbicida. No mês passado, o Conselho de Agricultura do estado recebeu um número recorde de mais de 27 mil comentários a favor da proibição do dicamba. Agora, está nas mãos da Câmara Legislativa aprovar a proibição de forma definitiva. Se os legisladores de Arkansas votarem a favor do banimento durante verão e primavera, poderão criar um precedente para os agricultores em todo os EUA e em países como o Brasil e a Índia, onde o polêmico herbicida também está sendo usado.