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Vaporizar água do mar, pulverizar ferro nos oceanos, injetar gás carbônico em rochas profundas. Medidas como essas estão sendo pesquisadas por especialistas em mudanças climáticas como forma de amenizar os efeitos da emissão cada vez maior de gás carbônico na atmosfera.  As consequências, entretanto, ainda são desconhecidas. Uma delas pode colocar em risco o futuro da Amazônia, diz o físico Paulo Artaxo, especialista em mudanças climáticas da Universidade de São Paulo (USP) e membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). 

Em conferência realizada pelo projeto Repórter do Futuro, o professor enumerou algumas das experiências para conter o aquecimento global do planeta. Mesmo no cenário mais otimista divulgado pelo IPCC, a temperatura do planeta subirá 2°C até 2100. A Amazônia, por exemplo, terá uma redução de cerca de 10% das precipitações nessa perspectiva. 

Essas são algumas das razões usadas pelas empresas privadas para iniciar os estudos na área, chamada de geoengenharia. “Os principais investidores são as indústrias do petróleo. Há claramente um interesse por trás”, afirma Artaxo. 

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Dentre essas pesquisas, a mais avançada é a que estuda enviar às regiões tropicais aviões desenhados especialmente para injetar aerossóis, uma mistura de gás e partículas sólidas, que formariam nuvens espessas na estratosfera. Segundo o professor, essa nebulosidade aumentaria a reflexão da luz, diminuindo a quantidade de energia luminosa que entra na atmosfera do planeta e, por consequência, tornando  a temperatura da Terra mais amena. 

Além de diminuir a temperatura do planeta, a medida é relativamente barata perto dos investimentos feitos. Segundo o professor Artaxo, um orçamento de cerca de um a cinco bilhões de dólares por ano já seria suficiente para enviar a quantidade de aerossóis na estratosfera para compensar as emissões de carbono no planeta.   

A vaporização da água marinha, que seria feita por navios em oceanos, também aumentaria a nebulosidade do planeta e teria o mesmo efeito, mas seria um pouco mais caro. Outras medidas, como a dispersão de ferro no mar, teria a função de aumentar o número de algas nos oceanos e, assim, aumentando o número de espécies que absorvem gás carbônico. 

Riscos – Apesar desses avanços no estudo da geoengenharia, pouco se pesquisa sobre as suas consequências para regiões como a Amazônia, informa Artaxo. Como a incidência solar diminuiria sensivelmente na área, a vegetação pode mudar completamente. “É um jogo perigoso que deve ser pensado com muito cuidado. Haveria uma diminuição das chuvas nas áreas continentais, incluindo a Amazônia”. 

Apesar de achar que o assunto entrará inevitavelmente na pauta das discussões climáticas daqui a cinco anos, o pesquisador pensa que a solução ainda está na redução de emissões de carbono por parte dos países em desenvolvimento e também dos emergentes, inclusive o Brasil. “Em dez anos, não terá acordo climático em vista. Será inevitável discutir o assunto, para mitigar os efeitos do aquecimento global”. 

Ele também alerta para o risco de crises diplomáticas devido a esse processo. “Quem decide o que se pode fazer? Será que a ONU teria condições políticas de tomar uma decisão como essa?”, finaliza ele. 

Por Carlos Arthur França – "Descobrir a Amazônia, Descobrir-se Repórter"

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