plataforma botos amazônicos
Foto: WWF-Brasil

Um grupo de pesquisadores de cinco países da América do Sul lança, em outubro de 2020, a plataforma Botos Amazônicos. Esta ferramenta tem o objetivo de disseminar informações sobre os “golfinhos de rio” da região amazônica– e traz diversos dados sobre as espécies como distribuição geográfica, estimativas populacionais, ameaças e barreiras naturais.

O objetivo é que a plataforma ajude nos processos de tomada de decisão e no planejamento de ações para a conservação destes mamíferos. 

A plataforma tem acesso gratuito e, no momento está disponível em inglês, com as versões em espanhol e português em produção.

Reprodução Plataforma Botos Amazônicos

Para quem quer conhecer tudo sobre estes animais, foi lançado também um storymap com informações resumidas em português, que está disponível para consulta pública.

A iniciativa é fruto do trabalho de um colegiado de cientistas chamado SARDI – South American River Dolphins Initiative, ou “Iniciativa Golfinhos de Rio da América do Sul” – que reúne pesquisadores de cinco países (Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia e Equador) para gerar novos conhecimentos sobre esses animais. O WWF-Brasil é um dos facilitadores deste coletivo desde o seu surgimento, em 2017.

Pesquisa

Nos últimos anos, os cientistas de SARDI têm feito diversas expedições às bacias dos rios Amazonas e Tocantins-Araguaia, no Brasil; e Orinoco, na Colômbia. Eles compilaram resultados de expedições que percorreram cerca de 47 mil quilômetros de rios amazônicos, com 42 esforços de estimativas populacionais feitos em 45 rios, tributários e lagos. 

Foto: Fernando Trujillo | Fundação Omacha

Botos Amazônicos está estruturado na forma de um mapa que traz diversas camadas (layers) de informação. Assim, é possível combinar essas camadas para fazer leituras mais detalhadas dos dados constantes na plataforma.

Entre as camadas disponíveis, há uma que mostra todas as expedições feitas a campo para estudar botos na América do Sul; a localização de hidrelétricas previstas na Amazônia; a localização das Terras Indígenas dentro deste bioma; os locais onde já foram feitas colheitas de material genético dos botos; e onde esses animais têm sido contaminados com mercúrio.

É possível fazer também buscas específicas pelas populações de botos existentes no continente: o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis); o boto-tucuxi (Sotalia fluviatilis); o boto-boliviano (Inia boliviensis) e o boto-do-Araguaia (Inia araguaiaensis).

Compilação

Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá, estuda os mamíferos aquáticos há quase 30 anos. Ela contou que a riqueza de informação na plataforma é o grande diferencial deste produto. 

“Sob esse ponto de vista, ela é uma plataforma poderosíssima. Ela compila tudo que sabemos sobre os botos amazônicos como distribuição, amostras de material genético, os conflitos, e as interações desta espécie com a pesca. Podemos analisar de diversas formas e tomar decisões mais embasadas para buscar a conservação destes animais”, descreveu.

Miriam contou ainda que as informações disponíveis na plataforma são fruto de um sério e dedicado trabalho de pesquisa, que podem ser usadas com critério, segurança e respaldo científico: “É bacana e surpreendente que um grupo grande de cientistas tenha resolvido compartilhar seus dados, para montamos esse cenário amplo sobre a situação de conservação dos botos da América do Sul. Nosso objetivo, no final das contas, é que as pessoas entendam quais são os problemas que as espécies estão enfrentando e quais questões precisamos endereçar para garantir a conservação delas”.

Foto: WWF-Brasil

Analista de conservação do WWF-Brasil, Marcelo Oliveira explicou o porquê de Botos Amazônicos estar disponível inicialmente em inglês.

“Nosso objetivo foi de que o maior número de pessoas, no mundo todo, pudesse ter acesso às valiosas informações que foram reunidas nesta ferramenta. Mas para não deixar o público latino-americano sem acesso a essas informações, produzimos também o storymap”.

Decisões de conservação

A doutora em Ecologia e pesquisadora do Instituto Aqualie Mariana Frias foi a responsável por compilar os dados e disponibilizá-los na plataforma. Ela contou que o trabalho envolveu muitas entrevistas com cientistas e levou cerca de seis meses.

“O primeiro aspecto interessante dessa plataforma é que ela é muito visual. Com isso esperamos que ela leve informações ao público de maneira clara, didática e objetiva”, explicou Mariana – que também é vinculada a Universidade Federal de Juiz de Fora.

Mariana declarou ainda que a quantidade de informações disponíveis em Botos Amazônicos permite que sejam tomadas decisões de conservação muito mais embasadas e consistentes do ponto de vista científico.

“Conseguimos ver, por exemplo, onde estão os maiores grupos populacionais e onde estão as Unidades de Conservação. Com isso, temos uma ferramenta de manejo muito eficiente que pode servir para influenciar e pressionar autoridades”.

Diretor-executivo da Fundação Omacha, da Colômbia, Fernando Trujillo contou que os botos dependem de um ambiente equilibrado, que tenha boa qualidade de água e disponibilidade de alimento.

“Garantir a qualidade das águas dos rios e o equilíbrio dos estoques pesqueiros não é vital apenas para os botos, mas também para os quase 34 milhões de habitantes da Amazônia”, disse o pesquisador.

Sobre os botos

Os botos estão presentes por toda a Amazônia, assim como em rios da Ásia. Eles estão no topo da cadeia alimentar dos ambientes em que se encontram e também são considerados precisos “bioindicadores”: ou seja, se as populações deles apresentam sinais de que são populações íntegras e saudáveis, isso significa que o ambiente ao redor – rios, lagos, encostas, florestas – também é. 

Boto Rosa, Inia geoffrensis, Rio Tapajós, região de Santarem. Foto: WWF-Brasil

Hoje as maiores ameaças a esses animais são o garimpo ilegal, que contamina os botos com mercúrio; e a pesca da piracatinga (Calophysus macropterus). Os pescadores usam a carne dos botos como isca e por isso eles são muito caçados por toda a Amazônia. O bycatch, a pesca acidental ou incidental, feita quando o animal não é o alvo principal da pescaria, também é outro grave problema para a conservação dos botos amazônicos.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) reconhece apenas duas espécies de botos na América do Sul: o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis); e o boto-tucuxi (Sotalia fluviatilis).

A iniciativa SARDI advoga pelo reconhecimento de outras duas espécies – o boto-boliviano (Inia boliviensis) e o boto-do-Araguaia (Inia araguaiaensis). Parte do trabalho do grupo é gerar informações para reforçar os argumentos em favor deste reconhecimento.