Cerrado perdeu quase 30 milhões de hectares em 35 anos

Área de vegetação nativa equivalente ao estado do Rio Grande do Sul já não existe mais.

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MATOPIBA | Foto: Greenpeace

O Cerrado perdeu 28 milhões de hectares de vegetação nativa, uma área equivalente ao estado do Rio Grande do Sul, entre 1985 e 2019. Foi um terço de toda a vegetação nativa que o Brasil perdeu no período. Essa área representa, em 35 anos, uma redução líquida de 21%, que é a diferença entre perda da vegetação original e ganho da vegetação recuperada.

Hoje o segundo maior bioma do país tem 53,2% de cobertura de vegetação nativa, ou 19% do que existe nesta categoria em todo o Brasil.

Os dados são da Coleção 5 do MapBiomas, iniciativa multi-institucional que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, e foram recém-divulgados em um evento para pesquisadores e público em geral no Dia do Cerrado – celebrado no último dia 11.

O MapBiomas também mostra que atualmente 44% da área do Cerrado é ocupada por atividades agropecuárias, com um incremento de 25 milhões de hectares em 35 anos: 72% desse aumento foi para a agricultura, especialmente de grãos.

“É possível perceber visualmente a mudança, em áreas no sul do Cerrado e no Matopiba (área de Cerrado que engloba os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia)”, disse a diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Ane Alencar. No MapBiomas, o instituto é responsável pelo mapeamento da vegetação nativa do bioma.

Fotos: Fabio Rodrigues Pozzebom | Agência Brasil

Nesta conversão de vegetação nativa para outros usos, as formações florestais sofreram mais, por estarem em áreas com solos mais férteis, enquanto as formações savânicas têm visto o desmatamento aumentar, por causa da topografia.

“Precisamos mudar nossa realidade para que o restante do Cerrado não tenha o mesmo destino do que foi destruído”, disse o professor da Universidade de Brasília Ricardo Machado, especialista em Cerrado, que participou do evento. “Não podemos deixar que o processo simplesmente continue para mostrar para os nossos netos quando determinado pixel foi desmatado, mas devemos provocar mais estudos e políticas públicas.”

Nesse sentido, Machado afirma que o conhecimento hoje produzido sobre a conversão de outros tipos de vegetação nativa além das florestais é suficiente para que se amplie também a proteção do Cerrado. Na mesma direção, o coordenador de monitoramento da TNC Brasil, Mario Barroso, destaca a importância do MapBiomas na busca por soluções.

“Antigamente, porque os dados oficiais olhavam somente para as formações florestais, parecia que o desmatamento só acontecia neste tipo de vegetação. O MapBiomas mudou essa percepção. O que importa é o que está acontecendo no campo de forma explícita”, afirma Barroso. “Para problemas complexos, as soluções também são complexas. Há de se discutir o papel das empresas, mas também a questão da grilagem e da titulação de terra, por exemplo.”

Todos os dados do MapBiomas podem ser vistos e baixados gratuitamente na plataforma mapbiomas.org.