O esporte é uma ferramenta social e de saúde pública muito importante. A prática esportiva é valorizada e recomendada e os eventos esportivos, além de movimentaram a economia, são responsáveis por momentos inesquecíveis da história humana.

Mas, a pegada de carbono produzida pelo mundo dos esportes também é imensa e pode ser comparada às emissões de países como a Bolívia ou a Espenha. É isso que afirma o estudoPlaying against the clock: Global sport, the climate emergency and the case for rapid change” (Jogando contra o relógio: esporte mundial, emergência climática e mudanças urgentes), escrito pelo jornalista britânico David Goldblatt para a Rapid Transition Alliance (RTA).   

Em contrapartida, as mudanças climáticas também podem gerar um impacto negativo enorme para o mundo esportivo. De acordo com o mesmo estudo, até 2050, ¼ dos campos de futebol da Inglaterra poderão sofrer com inundações anuais e em cada 3 campos de golfe será afetado pelo aumento do nível dos oceanos. Além disso, metade dos países que já sediaram as Olimpíadas de Inverno não poderão mais receber o evento com as mudanças climáticas.

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O estudo alerta ainda que os danos para esportes individuais vão ser ainda maiores. “Talvez a conclusão mais importante seja a de que o Mercado esportivo precisa rever suas prioridades de base, e colocar o esporte regional acima do esporte profissional e mundial”, analisa David.

Impactos já acontecem

As mudanças climáticas vão afetar a vida humana em todos os aspectos e isso não poderia excluir a parte esportiva, tão presente em nossa sociedade. Em 2019, a Copa do Mundo de Rugby foi interrompida por furacões sem precedentes, no início de 2020 o Australian Open de tênis foi interrompido pela fumaça das queimadas que devastaram o país.

Outro exemplo foi o deslocamento das provas de corrida de longa distância previstas para os Jogos Olímpicos de Tóquio – as provas não poderiam mais ser realizadas na capital uma vez que as temperaturas no verão de Tóquio aumentaram consideravelmente.

As consequências para os atletas podem ser severas. “Atingir a temperatura de 33ºC ou 35ºC no meio de uma competição é uma má notícia para os esportistas”, diz o relatório. “E a perspectiva é de que tenhamos muitos mais dias com esta média de temperaturas nas próximas décadas”. Importante ressaltar que um aumento na umidade relativa do ar também é previsto.

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Poucos esportes podem ser considerados imunes às mudanças climáticas. O estudo lista como algumas modalidades vão ser impactadas, como futebol, críquete, tênis, atletismo, automobilismo, e traz ainda as consequências para os fãs e expectadores que muitas vezes fazem longas viagens para ver seus ídolos em ação.

Já estamos na prorrogação

O estudo sugere mudanças radicais para a descarbonização do mundo dos esportes, da realização de eventos neutros em carbono até 2030, ao fim de patrocínios ligados ao uso de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo que traz práticas inovadoras para a governança esportiva, o estudo se depara com um retrato de inércia deste mercado.  

esporte carbono
Foto: Braden Collum | Unsplash

Na linguagem esportiva, pode-se dizer que já estamos na prorrogação desta  competição. O Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas) já alertou sobre a necessidade de se reduzir as emissões de gases do efeito estufa para evitar as piores consequências das mudanças climáticas. David Goldblatt afirma acreditar que o mundo esportivo pode oferecer exemplos visionários de liderança neste cenário.

“O mundo dos esportes pode ser do tamanho de uma pequena nação quando se trata de emissões de carbono, ou talvez uma grande cidade, sendo que os resultados seriam apenas uma fração do necessário globalmente”, diz David. “Mas poucas esferas da atividade humana possuem uma influência mundial em termos sociais, econômicos e políticos, quanto à esportiva”.

Fonte de esperança

“Assumir a meta de zerar as emissões de carbono globalmente, seria uma contribuição enorme do mundo esportivo para que este objetivo se torne uma prioridade em diferentes políticas. O esporte, do amador ao profissional, tem o poder de trazer esperanças e restaurar a confiança na humanidade”, diz o estudo. “Se o mercado esportivo assumir o compromisso de combater as mudanças climáticas, ele pode ser mais uma vez um exemplo a ser seguido… nunca se sabe”.

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Andrew Simms, coordenador da Rapid Transition Alliance (RTA) afirma que o mundo esportivo tem sido fonte dos mais diferentes exemplos positivos. “Acredito que se o mercado esportivo pode mudar a maneira como opera e acelerar a ação de combate às mudanças climáticas, mais uma vez, ele será inspiração para a sociedade”.

“Assim como se os ídolos do esporte se manifestarem e afirmarem que o ar puro e a estabilidade climática são importantes, eles têm o poder de influenciar milhões de pessoas, que vão passar a cobrar as mudanças necessárias. E isso não é apenas uma mensagem para o mundo, mas um caminho para garantir que o mundo continue sendo um lugar seguro para o esporte”, finaliza Andrew.