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Por que insistimos em viver contra a lógica da natureza?

Tatiana Perim explica que as crises individuais e coletivas da humanidade podem ter origem na mesma ruptura

Published 21/07/2026
Tatiana Perim

Tatiana Perim estuda como os princípios que sustentam os sistemas vivos podem inspirar novas abordagens para liderança, inovação e regeneração. Foto: Divulgação | Ekôa Park

Nos últimos anos, temas como burnout, crise climática, perda de biodiversidade e saúde mental passaram a ocupar espaço crescente no debate público. Embora geralmente tratados como desafios independentes, cresce a percepção de que esses fenômenos podem estar mais conectados do que parecem.

O Brasil, por exemplo, figura entre os países com maiores índices de ansiedade do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), e registra crescimento contínuo dos afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais.

Em 2024, os afastamentos por ansiedade e depressão atingiram os maiores patamares da série histórica do INSS. Ao mesmo tempo, a humanidade enfrenta o avanço das mudanças climáticas, aceleração da perda de biodiversidade e crescente pressão sobre os recursos naturais.

Para Tatiana Perim, fundadora e CEO do Ekôa Park, parque de experiências ecológicas, esses fenômenos podem ter mais em comum do que imaginamos.

Tatiana Perim, fundadora e CEO do Ekôa Park. Foto: Divulgação

Formada em Comunicação e Marketing pela University of Miami, com MBA pelo Insper e especialização em Gestão Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Tatiana construiu sua trajetória entre o mundo corporativo, a gestão pública e a conservação da natureza.

O Ekôa Park, localizado na Mata Atlântica paranaense, no território da Grande Reserva Mata Atlântica, inspira as atividades que promove nos princípios da biomimética, área em que sua fundadora é mestranda pela Arizona State University (ASU), nos Estados Unidos.

Tatiana pesquisa justamente como os princípios que sustentam os sistemas vivos podem inspirar novas abordagens para liderança, inovação e regeneração. Sua atuação busca aproximar conhecimentos da natureza de desafios contemporâneos enfrentados por empresas, instituições e territórios.

Estudiosa dos sistemas vivos e de suas aplicações na inovação e na regeneração, ela defende que muitas das crises contemporâneas refletem uma mesma ruptura: o afastamento progressivo dos princípios que sustentam a vida na Terra há bilhões de anos.

Imersão na natureza. Foto: Ekôa Park

A raiz da ruptura

Nessa entrevista exclusiva, Tatiana propõe uma reflexão sobre como a lógica do crescimento ilimitado, da hiper produtividade e da separação entre ser humano e natureza influencia não apenas a crise ambiental, mas também a forma como organizamos empresas, cidades, instituições e nossa própria compreensão sobre prosperidade, desenvolvimento e futuro.

Você costuma afirmar que muitos dos problemas contemporâneos têm uma origem comum. Que origem é essa?

Acredito que estamos vivendo as consequências de uma ruptura profunda: passamos a nos perceber separados da natureza. Durante muito tempo, construímos a ideia de que seres humanos estavam acima ou fora dos sistemas vivos, como se pudéssemos explorar recursos, acelerar processos e crescer indefinidamente sem consequências. Mas continuamos sendo natureza. Quando ignoramos isso, criamos sistemas que entram em conflito com os próprios princípios que sustentam a vida.

Existe alguma relação direta entre burnout, crise climática e perda de biodiversidade?

São escalas diferentes, mas vejo uma conexão importante na lógica que os produz. Em todos esses casos existe uma mesma estrutura: extração sem regeneração. Extraímos recursos dos ecossistemas sem permitir sua recuperação. Extraímos energia das pessoas sem respeitar seus limites. Extraímos valor dos territórios sem considerar sua capacidade de suporte. São manifestações distintas de uma mesma mentalidade: a de que é possível retirar indefinidamente de um sistema sem que ele eventualmente colapse.

Foto: Ekôa Park

O que a natureza entende sobre prosperidade que nós parecemos ter esquecido?

Que prosperidade não é acumulação infinita. Na natureza, prosperidade significa continuidade da vida: manter condições para que diferentes organismos possam existir, adaptar-se e evoluir ao longo do tempo. É uma visão muito diferente da ideia de crescimento permanente que domina boa parte da nossa cultura econômica e organizacional.

Por que a ideia de crescimento ilimitado entra em conflito com a lógica dos sistemas vivos?

Porque nenhum sistema vivo cresce indefinidamente. Tudo na natureza opera em ciclos: expansão e recolhimento, abundância e escassez, atividade e repouso. Quando um sistema tenta crescer continuamente sem respeitar seus próprios limites, ele perde equilíbrio e se torna vulnerável ao colapso. Isso vale para uma floresta, para um corpo e, eu diria, também para uma empresa.

Burnout como sintoma sistêmico

Atividades na natureza promovem reconexão com ciclos que a vida “moderna” ignora. Foto: Ekôa Park

O burnout seria um exemplo concreto disso, então?

Sem dúvida. Tratamos o burnout, com frequência, como uma falha individual. Como se a pessoa simplesmente não tivesse dado conta. Mas ele pode, e acredito que deva, ser lido como um indicador sistêmico. Nenhum organismo saudável funciona em aceleração permanente. A natureza trabalha com ciclos de recuperação e regeneração. Construímos culturas organizacionais que ignoram essa dinâmica básica e depois nos surpreendemos com o adoecimento em massa.

Lições da floresta: resiliência e inteligência distribuída

Foto: Ekôa Park

O que uma floresta pode ensinar sobre resiliência?

Uma floresta mostra que resiliência não é resistência rígida, é capacidade de adaptação. Ela enfrenta secas, tempestades, incêndios, mudanças climáticas e, ainda assim, encontra formas de reorganizar seus fluxos e relações. Sua força está na diversidade, na cooperação e numa inteligência distribuída entre inúmeros organismos, não em um centro de comando único.

Você fala bastante em inteligência distribuída. O que isso significa, na prática?

Significa reconhecer que a inteligência não está concentrada em um único ponto do sistema. Em uma área natural, não existe uma árvore ou espécie comandando as demais. O sistema funciona porque milhares de organismos trocam informações continuamente, em rede. Quando observamos isso, percebemos que muitas estruturas humanas ainda operam de forma excessivamente centralizada para lidar com um mundo cada vez mais complexo e imprevisível.

A natureza funciona mais pela competição ou pela cooperação? É uma dicotomia clássica, mas vale revisitar.

As duas dinâmicas existem, não vou negar isso. Mas a cooperação costuma receber muito menos atenção do que merece. Redes micorrízicas conectam raízes de árvores diferentes e permitem a troca de nutrientes e até de sinais de alerta entre elas; polinizadores sustentam ecossistemas inteiros; organismos diferentes criam relações simbióticas para sobreviver. A cooperação não é uma exceção romântica na natureza. Ela é uma estratégia evolutiva extremamente eficiente, testada por milhões de anos.

Biomimética: além da inovação de produto

Foto: Ekôa Park

O que a biomimética pode oferecer além da inovação tecnológica, que é como ela costuma ser apresentada?

A principal contribuição da biomimética talvez não esteja nos produtos, mas na forma de pensar. Ela nos convida a fazer uma pergunta simples: como a natureza resolveria este desafio? Quando começamos a fazer essa pergunta com seriedade, passamos a enxergar problemas e soluções de maneira muito diferente. É uma mudança de paradigma, não apenas uma fonte de inspiração estética ou de design.

A coerência que falta ao discurso corporativo

Foto: Ekôa Park

Muitas empresas já adotaram o discurso da sustentabilidade. O que ainda falta, na sua visão?

Falta coerência. Vejo muitas organizações incorporando a linguagem da sustentabilidade sem necessariamente revisar os pressupostos que orientam suas decisões de fundo. A natureza não é sustentável porque comunica sustentabilidade: ela é sustentável porque seus fluxos e relações criam, de fato, condições favoráveis à continuidade da vida. Essa é uma distinção importante, e acho que ainda pouco discutida fora do campo ambiental.

Você acredita que vivemos uma crise ambiental ou uma crise de percepção?

Acho que as duas coisas estão profundamente conectadas. A crise ambiental é real, mensurável e urgente. Mas ela também revela uma crise de percepção: a forma como enxergamos o mundo influencia diretamente a forma como agimos nele. Se continuarmos nos percebendo separados da natureza, dificilmente vamos construir soluções duradouras — porque continuaremos tratando os sintomas, e não a causa.

Foto: Ekôa Park

A pergunta final: qual seria, hoje, a principal pergunta que deveríamos fazer à natureza?

Talvez a pergunta seja: o que torna a vida possível? Porque, no fundo, todas as outras questões derivam dessa. Quando compreendemos os princípios que sustentam a vida — cooperação, diversidade, adaptação, regeneração — começamos também a repensar a maneira como organizamos nossas empresas, nossas cidades, nossa economia e nossas relações. E entendo essa seja uma das conversas mais importantes do nosso tempo.

Experiência guiada de conexão com a natureza. Foto: Ekôa Park

 

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