Ciência planetária ganha protagonismo histórico na COP30
Primeiro Pavilhão da Ciência coloca a ciência no centro das negociações climáticas em Belém e reforça a meta global de 1,5°C
Primeiro Pavilhão da Ciência coloca a ciência no centro das negociações climáticas em Belém e reforça a meta global de 1,5°C
Pela primeira vez desde a criação das Conferências do Clima da ONU, em 1995, a ciência planetária assume papel central nas negociações. Instalado na Zona Azul da COP30, em Belém (PA), o Pavilhão de Ciência Planetária, mandatado pela presidência da conferência, simboliza um marco histórico: é o primeiro espaço oficialmente dedicado à ciência como eixo que integra clima, natureza e sociedade.
Sob a co-presidência de Johan Rockström, diretor do Instituto de Pesquisa sobre o Impacto Climático de Potsdam, e do climatologista e Planetary Guardian Carlos Nobre, o pavilhão reúne cientistas, autoridades políticas e representantes indígenas em uma intensa programação de painéis, mesas-redondas e lançamentos de relatórios. A proposta é clara: aproximar o conhecimento científico das decisões e garantir que políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas sejam guiadas por dados.
A presidência do evento define o espaço como a pedra angular da chamada “COP da Verdade”, conceito inspirado no apelo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por uma ação global conduzida com seriedade. “A ciência deve guiar nosso caminho para um planeta habitável. A COP30 será a COP da verdade, onde evidência, integridade e cooperação moldarão cada decisão que tomamos pelo futuro da humanidade”, afirma Ana Toni, CEO da conferência.

Planetary Health Check 2025: do ultrapassamento à recuperação
Entre os destaques da programação do Pavilhão está o Planetary Health Check 2025, que analisa a saúde dos sistemas vitais do planeta e traduz os achados em recomendações políticas. Endossado pelos Planetary Guardians, o relatório aponta que sete das nove fronteiras planetárias já foram ultrapassadas e propõe caminhos de recuperação com base em intervenções mensuráveis.
O espaço também será palco de lançamentos de relatórios como o Global Carbon Budget 2025 e o 10 New Insights in Climate Change, além de abrigar diálogos sobre financiamento climático, adaptação, mitigação e justiça social. Um dos momentos mais esperados é o dia dedicado à Amazônia — reconhecida como peça-chave para estabilizar o clima global.
Segundo Carlos Nobre, “a Amazônia é o coração do sistema climático do planeta. O que acontece aqui determinará se a humanidade será capaz de restaurar o equilíbrio ou desencadear uma mudança irreversível”. Para ele, o pavilhão inaugura “um novo modelo em que cientistas, líderes indígenas e formuladores de políticas co-criam soluções para um futuro habitável”.

O espaço também funcionará como hub de imprensa e conhecimento, oferecendo briefings diários e uma “Linha Direta da Ciência” para negociadores que necessitem de esclarecimentos em tempo real. Com cerca de 150 m², o ambiente foi concebido como um playground científico imersivo, reunindo dados em tempo real, experiências interativas e narrativas indígenas.
Ciência no centro das decisões
Johan Rockström já mapeou 16 pontos de limites planetários — zonas de não retorno que, se ultrapassadas, podem colapsar os sistemas que sustentam a vida. “A morte dos corais tropicais já ultrapassou um desses limites, ameaçando um abrigo de vida marinha do qual 200 milhões de pessoas dependem. Acima de 1,5°C podem colapsar a Amazônia, o degelo da Groenlândia e da Antártica, e as correntes marinhas que regulam o clima”, alerta.
Na manhã de 11 de novembro, a presidência brasileira recebeu oficialmente o primeiro documento científico encomendado para orientar as negociações climáticas — um gesto simbólico que, segundo especialistas, pode inaugurar um novo padrão para as próximas COPs.
Como afirma António Guterres, secretário-geral da ONU, ultrapassar temporariamente o limite é inevitável, “mas manter essa meta ao alcance até o fim do século é o verdadeiro teste de integridade, ambição e esperança global”.