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O desafio (e o risco) de comprovar o plástico reciclado na embalagem

A lei exige a incorporação real de material reciclado na massa dos produtos ao invés de reciclagem futura

greenwashing
Foto: Brian Yurasits | Unsplash

O mercado de embalagens plásticas no Brasil está passando por uma virada de chave silenciosa, mas gigante. Durante muito tempo, a pegada de sustentabilidade das empresas girou em torno da compensação: bastava investir na ponta da cadeia, apoiar cooperativas ou comprar créditos de reciclagem para achar que o dever de casa estava feito. Embora essas ações continuem superimportantes, o jogo ganhou uma nova camada. Hoje, a legislação foi além e exige algo bem mais prático: a incorporação real de material reciclado na massa do produto.

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Não dá mais para só garantir que a sua embalagem pode ser reciclada no futuro; agora precisa provar que o resíduo já foi recuperado e voltou para dentro do seu processo produtivo.

A questão é que, embora a lei já esteja valendo, a grande verdade é que pouca gente sabe como comprovar esse ciclo. A cadeia de reciclagem no Brasil é muito fragmentada, vai da informalidade na coleta até a ponta da extrusão, o que cria uma insegurança jurídica enorme. O erro mais comum que vejo por aí é confundir o conceito de embalagem “reciclável” (aquela que tem potencial técnico) com o de embalagem “reciclada” de fato. E na hora que a fiscalização bate à porta, essa confusão custa caro.

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reciclagem potes iogurte
Foto: Danone Brasil

O risco para o negócio

Esse ponto cego não é só um problema burocrático; ele mexe direto com o caixa e com a reputação da marca. As punições para quem descumpre as regras são pesadas, com multas que vão de R$ 50 mil a R$ 50 milhões, além do risco de travar a renovação da licença de operação da fábrica. Sem contar o fantasma do greenwashing. Recentemente, uma grande empresa aérea foi multada em R$ 5 milhões por promessas ambientais vagas. No mundo das embalagens, marcas que vendem discursos superficiais ou usam termos genéricos como “eco-friendly” e “amigos do planeta”, estão a um passo de uma crise de imagem e da perda de valor de mercado. Empresas sérias se diferenciam mostrando dados: percentuais exatos de conteúdo reciclado e fontes que dá para rastrear.

Para sair dessa inércia e blindar a operação, as companhias precisam parar de esperar o problema estourar para tomar uma atitude. A postura tem que ser proativa, começando por um raio-X de 100% do portfólio. E detalhe: esse não é um trabalho só do time de sustentabilidade. É preciso um envolvimento de 360 graus, chamando compras, jurídico e marketing para a mesa. É um dever de casa minucioso, que vai desde checar as regras da Anvisa para materiais que tocam alimentos até entender se aquela estrutura de plástico realmente é reciclada no cenário nacional.

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A matemática da fiscalização: o que realmente fecha a conta?

A grande virada para navegar bem nesse cenário é a coerência dos documentos. Em uma auditoria, relatório de sustentabilidade bonito com foto de árvore tem valor zero. O fiscal quer ver a trilha de evidências que garante que a conta fecha. Estamos falando de notas fiscais de compra e venda de resíduos, Manifestos de Transporte de Resíduos (MTR) e certificados de destinação final. A regra de ouro é simples: o volume de material reciclado que você comprou precisa bater certinho, na matemática, com a quantidade de embalagens que você colocou na rua.

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Repor, material fabricado a partir do isopor reciclado. Foto: Termotécnica

Nessa busca por cumprir metas, tentar cortar caminho com a informalidade para baratear o custo do material é uma armadilha perigosa. A cadeia informal, que muitas vezes sonega impostos ou não garante condições dignas de trabalho, entrega um preço menor agora, mas gera um passivo gigantesco ali na frente, já que não tem como comprovar a origem de nada. Com o mercado de reciclados lidando com um risco cada vez maior de fraudes, apostar em conformidade e parceiros homologados é o único caminho seguro a longo prazo.

No mundo corporativo, o voluntarismo ecológico puro é raro; as empresas se movem para mitigar riscos e proteger o negócio. Por isso, as novas regras não devem ser vistas como um peso, mas como uma boa oportunidade de se destacar. Quem se antecipar e estruturar seus fornecedores com transparência não vai apenas evitar prejuízos milionários, vai garantir seu espaço nas prateleiras do futuro, onde o erro mais caro que uma marca pode cometer é não conseguir provar o que promete.

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colunista Luiz Grilo
Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.