Casa em SP integra mata nativa ao brutalismo paulista
Com bosque ao redor, residência em Cotia tem árvore Jacarandá no centro do projeto
Com bosque ao redor, residência em Cotia tem árvore Jacarandá no centro do projeto
Em Cotia (SP), na região da Granja Viana, a residência Casa Bosque foi projetada pelo arquiteto Raphael Wittmann, da Rawi Arquitetura. Com um jacarandá preservado no centro do terreno, o projeto é um exercício de integração entre arquitetura contemporânea e mata nativa.
A casa foi concebida para uma família de três irmãos e o pai, unindo afetividade, conforto e respeito ao terreno original. O projeto, com 350 m², se organiza a partir de um pátio central arborizado, que estrutura toda a circulação e os usos da residência.
No coração da Casa Bosque, um jacarandá preservado define a organização espacial da residência, funcionando como elemento estruturador do pátio central e da implantação arquitetônica.
“O nome Casa Bosque faz referência direta à área de mata preservada nos fundos do lote e, principalmente, à árvore que preservamos no pátio central da casa, que também inspirou a implantação e a materialidade do projeto”, conta o arquiteto Raphael Wittmann.

A proposta reforça o diálogo entre arquitetura e natureza, em que os espaços sociais, íntimos e de serviço se articulam ao redor do vazio central.
“Desenvolvemos uma casa em ‘C’ que foi organizada numa composição minimalista e escultural plenamente integrada com a paisagem e há três elementos que merecem destaques: o volume suspenso no fundo, que flutua sobre a área de lazer e reforça o conceito do olhar para o bosque; o pátio central, com viga e banco em concreto que emoldura o Jacarandá preservado; e uma caixa de concreto na fachada, que garante privacidade e identidade expressiva”, pontua o profissional.
A fachada da Casa Bosque combina referências do brutalismo paulista com uma leitura contemporânea marcada por volumes puros, concreto aparente e paleta terrosa.
Blocos brancos minimalistas contrastam com uma caixa de concreto pigmentado em tom avermelhado, que abriga a garagem e direciona o olhar para a rua.

“Inspirada na linguagem brutalista paulista, reinterpretamos o concreto aparente com pigmentação quente, conferindo um aspecto terroso à composição”, diz.
O acesso à residência evidencia a linguagem do projeto, baseada em materiais naturais, texturas brutas e estrutura aparente.
O piso de tijolos cerâmicos e a laje de concreto exposta reforçam a estética de autenticidade construtiva.

“Não planejamos essa laje aparente, mas durante a finalização dos acabamentos, deixá-la natural fez muito mais sentido para o projeto”, revela o profissional.

Mais adiante, o generoso corredor que liga o hall ao restante da casa é um eixo de luz e ventilação cruzada marcado pelo pé-direito de quase seis metros e por amplas aberturas laterais. O espaço mantém-se constantemente iluminado e ventilado, com uma atmosfera que se transforma ao longo do dia. A escada escultural, feita em cimento queimado e guarda-corpo em aço conecta os dois pavimentos com leveza.

No lavabo da área social, o piso e o forro em tom terracota, assim como a prateleira em concreto pigmentado embaixo da bancada se conectam com o partido arquitetônico da casa. A bancada de concreto revestida com pastilhas cerâmicas foscas ganha a cena ao lado de um espelho flutuante, apoiado em estrutura metálica oculta, e de uma arandela artesanal produzida por um artista local.
O pátio central é o elemento organizador da residência, conectando todos os ambientes em torno do jacarandá preservado. O espaço conecta os ambientes sociais, íntimos e de serviço, como sala, quartos, hall e cozinha. Um banco e uma viga moldados in loco, em concreto pigmentado, delimitam o contorno da árvore, enquanto o piso fulget antiderrapante garante segurança e conforto no uso cotidiano, especialmente para os moradores idosos.

Além de função estrutural, o espaço atua como área de convivência e elemento de iluminação natural e ventilação cruzada.
“No jardim, o paisagismo é formado por plantas nativas originárias da mata atlântica e britas para reforçar o caráter rústico e minimalista do projeto”, diz Raphael.
A sala de estar se abre completamente para o exterior, conectando o interior ao deck, ao pátio central e à luz natural filtrada pela vegetação. O projeto privilegia ventilação cruzada e iluminação natural.

“A sala, orientada no eixo norte-sul, recebe ventilação cruzada e insolação equilibrada ao longo do dia. Como os fundos da casa, voltados para o bosque, estão na face sul, a entrada de luz foi compensada pelo pátio a norte, onde a claridade chega filtrada pela copa do jacarandá, criando uma atmosfera confortável e equilibrada”, diz Raphael.

Na sala de estar, a curadoria do mobiliário traz nomes como Sérgio Rodrigues, Lina Bo Bardi (produzidos pela marcenaria Baraúna), Alessandra Delgado e Fernando Prado. As peças de linhas puras e tons neutros, equilibram o vigor do cimento queimado e o calor da madeira. A marcenaria sob medida que se estende de ponta a ponta com rack suspenso e prateleiras embutidas de acabamento chanfrado, reforçando a sensação de amplitude, leveza e horizontalidade.

Os grandes vãos e o pé-direito duplo recebem a entrada de luz e permitem que o exterior invada o interior, um traço característico da arquitetura paulistana.

A sala de jantar e a cozinha seguem o conceito de integração espacial, reforçando o uso de materiais naturais e referências do design brasileiro. A mesa Volpi, desenhada por Alessandra Delgado, interpreta sua geometria em madeira natural e pés modulares angulados, em uma homenagem ao artista Alfredo Volpi.

Já a cozinha dispõe de uma ilha robusta em concreto aparente acompanhada pelas banquetas Girafa, de Lina Bo Bardi, em tauari maciço. A bancada principal em quartzo cinza, se volta para a janela alinhada com a vista para o bosque, enquanto o cobogó esconde a área da geladeira e um espaço para o café.



A face sul voltada para o bosque sintetiza o conceito do projeto de uma arquitetura leve que flutua sobre o terreno, criando um diálogo através do olhar para o bosque. O guarda-corpo em chapa terracota e cabos de aço preserva a vista livre e reforça o vínculo com a natureza.
Sob o volume suspenso dos quartos, a varanda possui uma sala de almoço e uma área gourmet voltadas ao convívio e ao lazer. Com revestimento em cerâmica esmaltada e uma bancada em granito São Gabriel escovado, tem como grande destaque um fogão a lenha.

“Diferente dos pedidos que geralmente recebemos no escritório, aqui nos pediram um fogão a lenha em vez da tradicional churrasqueira, como forma de resgatar o sabor das lembranças familiares nas refeições de fim de tarde”, revela Raphael Wittmann.
A suíte principal foi projetada no térreo para garantir acessibilidade e integração direta com o pátio central, sobretudo para o pai da família. O jacarandá preservado influencia diretamente a atmosfera do espaço, filtrando luz e sombra através das esquadrias e muxarabis.

Os materiais naturais reforçam a sensação de conforto e tranquilidade, com uso de madeira, linho e tons neutros.

Por fim, na outra suíte, a parede que lembra um chapisco rústico, mas de textura proposital, combina com tecidos claros e iluminação pontual. O armário planejado é composto também por nichos verticais, tornando a lateral funcional e decorativa.