Brechó em Paraisópolis financia projeto de leitura para crianças
Na segunda maior comunidade de São Paulo, uma iniciativa inspiradora ajuda as crianças a lerem 100 livros por ano
Na segunda maior comunidade de São Paulo, uma iniciativa inspiradora ajuda as crianças a lerem 100 livros por ano
Em quatro anos, o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores. Dos entrevistados da 6ª edição da “Retratos da Leitura no Brasil”, 53% não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores à pesquisa. Pela primeira vez, o levantamento constata que a maioria dos brasileiros não leem livros. Diante destes dados preocupantes, um projeto social em Paraisópolis traz alento: a venda de peças de roupas usadas de um brechó ajuda a financiar uma iniciativa de leitura voltada para crianças.
Segunda maior comunidade de São Paulo, em uma calçada de Paraisópolis é possível encontrar uma arara de camisetas por apenas R$5,00. Na parte interna do espaço, calças, saias, sapatos e acessórios para homens, mulheres e diversos tamanhos e idades. Esse é o bazar do Pró-Saber, cujos valores obtidos são revertidos em materiais e infraestrutura para o Instituto Pró-Saber SP, uma organização sem fins lucrativos responsável por uma biblioteca infantojuvenil totalmente gratuita para a comunidade. O espaço soma mais de 20 mil títulos.

Desde a sua abertura, mais de 140 mil livros foram emprestados. O estímulo à leitura também auxilia no processo de alfabetização. Cerca de 93% das crianças que participaram do projeto se alfabetizaram na idade correta, um índice que é maior do que a média de alfabetização nacional.

Mas, não basta só emprestar. Em meio às distrações do mundo digital, cada vez mais é preciso desenvolver estratégias para manter as crianças interessadas pelo universo dos livros e é isso também que a organização faz. Contação de histórias, rodas de conversa e atividades lúdicas com personagens e interações estão entre as ações realizadas. Dessa forma, educadores leem em conjunto com as crianças mais de 100 livros no ano. A centésima leitura do ano é marcada pela Festa dos 100 livros com presença dos familiares, da comunidade de nomes do universo literário, como ilustradores e autores.
Todo esse trabalho socioeducacional é financiado pelo bazar do Pró-Saber, que pratica valores justos para que todos possam usufruir do espaço. Segundo o Instituto, com menos de R$30,00 é possível sair com a roupa completa para várias ocasiões, inclusive uma entrevista de emprego. Isso porque é comum o local receber doações de blazers, calças e roupas adequadas para o trabalho. As roupas de crianças e bebês também fazem sucesso.

“Nós poderíamos fazer esse bazar em um bairro de classe média alta e cobrar altos valores pelas peças para ter mais caixa, mas essa não é nossa intenção. Nosso projeto é em Paraisópolis, portanto, nós queremos que a própria comunidade ajude a financiar o que fazemos aqui e sejam parte dessa transformação que estamos causando. Também estamos incentivando a economia circular do bairro, incentivando que elas tenham acesso a produtos de qualidade”, conta Maria Cecilia Lins, fundadora do Pró.
O bazar é abastecido por doações oriundas de fontes diversas. É possível encontrar produtos doados pela Rihappy, Johnson & Johson, Cura e Amazon, por exemplo.

“No bazar eu já comprei muitas coisas. Desde mesa de madeira massiva até tênis e brinquedos. Eu trabalho no hospital e estou sempre comprando alguma coisinha para levar para as crianças. O bazar também é uma oportunidade de encontrar roupas legais e únicas, por um preço que não se encontra em outros lugares”, afirma Mateus Almeida, Educador Social, de Paraisópolis.
Os brechós e bazares também são formas de adquirir peças sem impactar o meio ambiente, uma vez que cada roupa nova representa mais recursos que foram extraídos da natureza para aquela criação. Adquirir peças usadas é uma forma de prolongar a vida útil do tecido, além de ser uma forma econômica e ecologicamente consciente de consumir.

No caso de Paraisópolis, as roupas são separadas, catalogadas e ainda vendidas por pessoas da comunidade contratadas pela organização social, o que também gera emprego e faz o dinheiro circular internamente.
Quem quiser conhecer o brechó, o espaço está localizado na rua Manoel Antônio Pinto, 974, Paraisópolis, São Paulo (SP), ao lado da biblioteca Pró-Saber SP, e funciona de segunda à sexta das 9h às 17h.
Para quem não mora em São Paulo e quer começar a garimpar brechós e bazares em sua cidade, Náchila Oliveira, fundadora da marca de moda circular ReUs Club, traz algumas dicas, confira abaixo:
Ter em mente quais tipos de peça podem se encaixar melhor em seu estilo te ajudará a focar e não se perder entre as opções. Muitas vezes, uma peça que parece simples pode se transformar em algo incrível com um toque de criatividade. Pense em como você pode customizar ou adaptar a peça ao seu estilo.
Ao experimentar as peças, preste atenção aos detalhes: costuras, zíperes, botões, manchas e qualquer outro sinal de desgaste.

Acompanhe as redes sociais e o site do brechó para ficar por dentro das novidades e promoções. Muitos brechós fazem curadorias especiais e podem ter peças que te interessam.
Acessórios como bolsas, cintos e bijuterias podem transformar um look básico em algo mais elaborado.
Cada peça de brechó tem uma história para contar. Ao adquirir uma peça, você está levando para casa um pedacinho da história da roupa.