Por que ler por prazer é importante
Mais do que ensinar a decodificar palavras, alfabetizar exige despertar o desejo de ler
Mais do que ensinar a decodificar palavras, alfabetizar exige despertar o desejo de ler
Em meio à crescente preocupação com os baixos níveis de alfabetização infantil na Nova Zelândia, a professora Anne Goulding, da Victoria University of Wellington, chama atenção para um fator frequentemente ignorado nas políticas educacionais: a leitura por prazer. A reflexão proposta pela educadora confronta o país com iniciativas adotadas no Reino Unido. Apesar da distância geográfica, o tema dialoga diretamente com a realidade brasileira, confira abaixo.
“Não é segredo que a Nova Zelândia enfrenta uma crise de alfabetização. A Ministra da Educação, Erica Stanford, expressou sérias preocupações com as habilidades de leitura e escrita de nossas crianças, observando que muitas não estão atingindo os níveis esperados e carecem das habilidades de alfabetização necessárias para ter sucesso no ensino médio.
Para solucionar o problema, abordagens como a alfabetização estruturada têm sido priorizadas. Embora garantir que as crianças consigam decodificar textos escritos e ler com proficiência seja fundamental, igualmente importante é cultivar um amor genuíno pela leitura para sustentar e fortalecer suas habilidades e seu envolvimento.
Resumindo, além de ensinar as crianças a ler, precisamos garantir que elas queiram ler.

No entanto, em todos os anúncios do governo sobre ações para combater o declínio da alfabetização, o papel da leitura por prazer foi negligenciado. Não se falou sobre como a leitura contribui para o desenvolvimento da alfabetização ou como o incentivo ao gosto pela leitura apoia resultados educacionais mais amplos.
Esse silêncio é preocupante porque, se as crianças não gostam de ler, não continuarão a fazê-lo. Ler por prazer não é um “luxo”, algo secundário em relação à alfabetização.
Pesquisas mostram que, quando as crianças são incentivadas a ler por prazer, suas habilidades de leitura e escrita se fortalecem e suas chances de sucesso, durante a vida escolar e além, aumentam. Estudos de grande escala constatam repetidamente que crianças que gostam de ler e leem diariamente tendem a ter notas mais altas em leitura e melhores resultados educacionais e de vida a longo prazo.
Ao focarmos apenas na decodificação do texto e na mecânica da leitura, corremos o risco de esvaziar a alegria dos livros e perder todos os benefícios que advêm da leitura infantil por vontade própria, e não por obrigação. É aí que as bibliotecas escolares podem ajudar.
Uma biblioteca bem abastecida e acolhedora, com um bibliotecário qualificado, pode abrir as portas da leitura até mesmo para os leitores mais relutantes. Para muitas crianças, especialmente aquelas com poucos ou nenhum livro em casa, a biblioteca oferece uma porta de entrada para a escolha e a identidade, transformando a leitura em um prazer em vez de uma tarefa escolar.

Uma boa biblioteca oferece aos alunos a oportunidade de explorar histórias e ideias, e descobrir livros que despertam seu interesse e curiosidade, acendendo uma paixão pela leitura que durará a vida toda.
Mas eis a questão: as escolas na Nova Zelândia não são obrigadas a fornecer uma biblioteca ou a contratar um bibliotecário. O investimento em uma biblioteca fica a critério de cada conselho escolar e diretor. O financiamento precisa vir da verba operacional da escola — e pode ser facilmente cortado ou desviado em tempos de dificuldades financeiras.
Pesquisas recentes revelaram que muitos diretores valorizam as bibliotecas, mas não conseguem providenciá-las devido à falta de verbas e a outras prioridades. Como resultado, milhares de alunos perdem o acesso a materiais de leitura de qualidade e à expertise de bibliotecários capacitados — fatores que comprovadamente aumentam a alfabetização, além de contribuírem para melhores resultados de aprendizagem e bem-estar em geral.
Considerando o papel que desempenham, as bibliotecas escolares e os bibliotecários não devem ser vistos como extras opcionais, mas sim como essenciais para a aprendizagem. Podem ser aliados inestimáveis nos esforços do governo para elevar os níveis de alfabetização, embora isso exija uma compreensão e um reconhecimento claros do seu papel, bem como investimentos significativos.
A Nova Zelândia poderia seguir o exemplo do Reino Unido. O governo britânico prometeu recentemente garantir que todas as escolas primárias da Inglaterra tenham uma biblioteca escolar até o final da legislatura de 2029. A medida criará 1.700 novas bibliotecas em escolas que atualmente não possuem uma.
A mensagem transmitida é clara: as bibliotecas escolares são importantes e desempenham um papel vital no apoio à alfabetização e à aprendizagem das crianças. Uma biblioteca dinâmica também pode transformar a leitura de uma atividade solitária em uma experiência compartilhada, construindo comunidades de leitores confiantes e engajados.

Tão importante quanto isso é a experiência dos bibliotecários, que são o coração de uma boa biblioteca. Eles desenvolvem acervos que refletem as necessidades de suas comunidades estudantis e os orientam na descoberta de livros. Com seu profundo conhecimento sobre livros, os bibliotecários sabem como encontrar o livro certo para cada criança.
O anúncio do governo do Reino Unido deve nos levar, em Aotearoa (nome maori para Nova Zelândia), a questionar o que estamos fazendo para garantir que nossas crianças tenham os recursos e espaços necessários para se tornarem leitores confiantes, fluentes e engajados. Se queremos leitores proficientes, precisamos de uma biblioteca robusta em cada escola”.
Por Anne Goulding | Universidade Victoria de Wellington