Noronha terá Índice de Felicidade para medir desenvolvimento
Fernando de Noronha será a primeira região do Brasil a adotar Índice de Felicidade Interna Bruta – palestra e filme explicam a metodologia
Fernando de Noronha será a primeira região do Brasil a adotar Índice de Felicidade Interna Bruta – palestra e filme explicam a metodologia
Após vários meses de conversas, visitas e trocas de informações, o Índice de Felicidade Interna Bruta (FIB) chega ao Brasil, por meio de um acordo selado recentemente entre a Aguama Ambiental, empresa brasileira especializada em sustentabilidade e turismo regenerativo, e o governo do Butão. O arquipélago de Fernando de Noronha, pertencente a Pernambuco, será o primeiro território do país a aplicar oficialmente a metodologia.
As tratativas começaram no ano passado, quando Dasho Karma Ura, ministro do Butão, veio ao Brasil participar de um evento sobre sustentabilidade e turismo promovido na região. “Durante a vinda dele ao Brasil, surgiu a ideia de implementar o FIB em Fernando de Noronha, uma região tão importante para o mundo sob o ponto de vista ambiental e sustentável e que precisa de várias melhorias para exercer com excelência sua vocação para o turismo. E nada como a felicidade para alcançar essa finalidade”, ressalta Caio Queiroz, CEO da Aguama, empresa pioneira a trabalhar o FIB no Brasil.
A iniciativa visa não apenas gerar um diagnóstico profundo sobre o bem-estar da população local, mas também oferecer um modelo inspirador para outras cidades brasileiras e latino-americanas que desejam alinhar suas políticas públicas a indicadores de felicidade, sustentabilidade e saúde integral.

A Aguama Ambiental viabiliza a implementação em Fernando de Noronha e conta também com a parceria da Renata Rocha, fundadora do YOUniversality, plataforma que há mais de dez anos promove jornadas de conhecimento entre o Brasil e o Butão. Renata mantém uma relação estreita com o governo butanês e tem atuado como ponte para trocas institucionais, culturais e espirituais entre os dois países.
“O Butão tem muito a ensinar ao mundo sobre bem-estar coletivo, propósito de vida e equilíbrio com a natureza. Trazer esse conhecimento para o Brasil, começando por Noronha, é um passo histórico na construção de um novo paradigma de desenvolvimento”, afirma Renata.
Em contrapartida, a Aguama Ambiental vai desenvolver um aplicativo dessa metodologia com Inteligência Artificial para facilitar o trabalho de operacionalização do FIB no Butão. “Eles estão trabalhando vários projetos por lá, como a Mindfulness City, por exemplo, uma cidade que funcionará sob os preceitos do FIB. A ideia é ajudá-los no desenvolvimento sustentável por meio do aplicativo”, explica Caio.

Para analisar essa parceria, Karma Ura cita o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade: ‘Tenho apenas duas mãos, e o sentimento do mundo’. Para o ministro do Butão, “o FIB é um exemplo de como segurar em uma única mão o Butão e o Brasil, unidos por uma ideia amplamente compartilhada pela humanidade. Ele será reconhecido como um anseio coletivo – dos brasileiros ou butaneses – porque fala à verdadeira aspiração dos seres humanos em sua breve existência”.
Na visão de Karma Ura, “qualquer ideia e prática que nos liberte gradualmente das crises ecológicas, das condições materiais de vida desiguais, da falta de realização interior e da divisão social é intrinsecamente valiosa, pois essas coisas desviam e dissipam as energias e a consciência humanas, em vez de nos levar ao bem-estar e à felicidade”.
Karma Ura evita nutrir grandes expectativas – é uma de suas filosofias de vida – mas tem boas esperanças sobre o caminho positivo desse projeto. “Espero seguirmos juntos por um caminho criativo e sábio, aprendendo uns com os outros ao longo do trajeto. A equipe de pesquisa do Centre of Bhutan & GNH Studies (CBS) certamente aprenderá coisas fascinantes com a terra e o povo incríveis do Brasil”, afirma.

A implementação do FIB em Fernando de Noronha terá início ainda neste ano e contará com diversas fases que durarão vários anos, com a implementação de projetos contínuos com foco em felicidade.
O primeiro momento envolverá a “tropicalização” do questionário do FIB, adequando-o para a realidade brasileira. “Uma equipe do Butão passará 15 dias em Fernando de Noronha para trocar informações e dar início ao trabalho junto com a Aguama. Acredito que não haverá grandes dificuldades, pois o Butão já está trabalhando com a implementação do FIB em Portugal”, ressalta o CEO.
Após essa adaptação, o questionário será aplicado com cerca de mil moradores do arquipélago para entender um pouco mais sobre seu modo de vida e o que precisa ser melhorado. “Ele conta com nove categorias, que contemplam áreas como serviço público, saúde, moradia, meio ambiente, acessibilidade, custo de vida, entre outros”, descreve Caio.
O resultado dessa pesquisa de campo, que deve durar em torno de três meses, deve ser apresentado em setembro, durante o Festival de Sustentabilidade e Turismo que acontecerá em Noronha. “Vamos construir uma base de dados importante, com informações confiáveis, que irá ajudar na gestão pública e na elaboração de projetos, tanto públicos quanto da iniciativa privada, para sanar os gargalos”, reforça.

Para Caio, a aplicação do FIB é fundamental nos dias atuais. “Hoje em dia vivemos em um mundo no qual a maioria dos países só se preocupa em controlar o PIB, que envolve a riqueza que eles produzem. No entanto, em paralelo a isso, a humanidade está adoecendo, com problemas como depressão, ansiedade e outras mazelas que foram aceleradas depois da pandemia, que levou muita gente a refletir sobre a vida e reavaliar seus hábitos”.
O CEO da Aguama ressalta ainda que o ser humano precisa resgatar sua humanidade em um momento no qual a tecnologia orquestra grandes avanços. “É preciso cuidar de nós, do próximo, do meio ambiente. Tudo isso engloba a felicidade, que tem a sustentabilidade – econômica, social ou ambiental – como principal meio. Precisamos inserir valores como respeito, além de nutrir um capitalismo consciente, de volta à sociedade”, conclui.

Quem quiser entender melhor e tirar suas dúvidas sobre o Índice de Felicidade Bruta (FIB) pode se inscrever em uma palestra presencial e onine que acontece em São Paulo, na próxima quinta-feira, dia 7 de agosto. Especialistas vão debater o potencial da metodologia para transformar políticas públicas e promover bem-estar por meio da sustentabilidade.
O evento contará com o painel ‘Como felicidade e sustentabilidade andam juntos’, com apresentação de Caio Queiroz, CEO da Aguama Ambienta, e Lívia Azevedo, Diretora de Felicidade da Heineken, com mediação de Andréa Cruz, alumni da FIA Business School e CEO da Serh1 Gestão de Carreiras e pesquisadora do tema, que trarão detalhes de como a sustentabilidade pode trazer felicidade.
Ainda discutirão ações que já estão sendo implementadas e o que ainda pode ser feito no Brasil para conquistar mais bem-estar, qualidade de vida e, consequentemente, mais felicidade à população.
Outro painel em destaque será ‘FIB: conceito, história e como será a implementação em Fernando de Noronha’, mediado por Renata Rocha, fundadora do YOUniversality, plataforma que há mais de dez anos promove jornadas de conhecimento entre o Brasil e o Butão – país no qual surge o índice de felicidade.

Quem quiser saber mais sobre o Índice de Felicidade Interna Bruta pode acompanhar o trabalho das pessoas que aplicam o questionário da pesquisa que alimenta o FIB no Butão no documentário Fiscal da Felicidade, de 2023.
Confira o trailer abaixo:
O Índice de Felicidade Interna Bruta pode ser aplicado em outras cidades ou comunidades brasileiras. Depois da primeira implementação no Brasil, em Fernando de Noronha, seria muito interessante que esta nova abordagem sobre o desenvolvimento sustentável ampliasse seu alcance. O ritmo acelerado das grandes cidades, como São Paulo, pode trazer problemas que afetam a saúde mental e qualidade de vida.
Dados do Ministério da Previdência Social revelam que em 2024, os afastamentos do trabalho por questões de saúde mental somaram mais de 470 mil, sendo a maioria quadros de ansiedade e de depressão. Ações que promovem bem-estar e sustentabilidade podem mudar esse cenário, trazendo um dia a dia mais equilibrado e feliz.