Falar de dinheiro com meninas fortalece a autonomia feminina
“Uma mulher que entende de dinheiro e constrói sua própria segurança tem mais condições de decidir sobre a própria vida.”
“Uma mulher que entende de dinheiro e constrói sua própria segurança tem mais condições de decidir sobre a própria vida.”
O Mês da Mulher é uma oportunidade para olharmos com mais atenção para a luta em busca de equidade de gênero e pelo fim da violência, que se torna cada vez mais evidente. E, nesse sentido, olhar as origens e as causas deste cenário desigual e absurdo é um caminho importante para encontrar soluções reais. Entre essas raízes está o dinheiro: a dependência financeira leva muitas mulheres e meninas a situações de extrema vulnerabilidade.
O debate sobre igualdade de gênero passa, inevitavelmente, pela relação das mulheres com o dinheiro. Dados de uma pesquisa realizada pelo Serasa em parceria com a Opinion Box revelam que 93% das mulheres contribuem financeiramente em suas casas. Entre elas, 33% assumem sozinhas todas as despesas do lar, realidade que atinge principalmente mulheres de baixa renda. Apenas 7% afirmam não participar das contas familiares.
Os números evidenciam que o dinheiro faz parte da vida feminina de forma direta e, muitas vezes, precoce. Ainda assim, a educação financeira formal nem sempre é uma realidade. Para Ana Leoni, especialista em comportamento financeiro e cofundadora da Bem Educação, essa lacuna pode perpetuar desigualdades. “Se as meninas não aprendem desde cedo como o dinheiro funciona, elas entram na vida adulta tomando decisões financeiras sem preparo.”

Segundo dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio em parceria com o Serasa, o percentual de mulheres endividadas é de 76,9%, levemente superior ao dos homens, que é de 76%. Embora a diferença percentual seja pequena, o impacto social pode ser maior entre mulheres, especialmente para aquelas que concentram a responsabilidade financeira da casa.
Ana Leoni destaca que muitas mulheres acumulam responsabilidades financeiras e familiares, o que torna ainda mais urgente a preparação desde a infância. “Quando falamos de meninas, estamos falando de futuras chefes de família, empreendedoras, profissionais e investidoras.”

A independência econômica é um dos fatores que contribuem para a redução de vulnerabilidades, inclusive em situações de violência doméstica. A especialista afirma que ensinar meninas sobre dinheiro é também uma estratégia de proteção. “Autonomia financeira amplia escolhas. Uma mulher que entende de dinheiro e constrói sua própria segurança tem mais condições de decidir sobre a própria vida.”
O impacto é coletivo. Mulheres financeiramente preparadas tendem a influenciar positivamente suas famílias, comunidades e outras mulheres, criando ciclos mais sustentáveis de educação, planejamento e proteção. A dependência financeira é um fator que pode dificultar o rompimento de relações abusivas.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto de Pesquisa DataSenado, revelou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025. A pesquisa anterior do mesmo Instituto já havia apontado que as mulheres com menor renda são as que mais sofrem violência física e que mais da metade das agredidas sofreram violência praticada pelo marido ou companheiro.
“Muitas mulheres ainda delegam a vida financeira ao homem mais próximo: pai, marido, irmão. Neste processo, deixam de lado a oportunidade de aprender a cuidar do próprio dinheiro e podem acabar ‘presas’ em relações tóxicas por medo ou impossibilidade de não conseguir se sustentar ou sustentar os filhos”, explica Ana.

A inclusão da educação financeira no currículo escolar representa um avanço importante. No entanto, a especialista ressalta que o aprendizado precisa ser contínuo e complementado em casa.
Entre as orientações práticas estão:
“A Educação financeira nas escolas contribui diretamente para reduzir desigualdades entre homens e mulheres. Mas as conversas em casa são essenciais para consolidar esse aprendizado e nós, mães, temos a responsabilidade de incentivar, principalmente, a autonomia e a independência financeira das nossas filhas.”, afirma Ana.

Ao longo da vida, decisões financeiras influenciam carreira, maternidade, empreendedorismo e aposentadoria. Quando o tema é introduzido ainda na infância, meninas passam a compreender o dinheiro como ferramenta de realização e independência, não apenas como obrigação ou fonte de preocupação.
Para Ana Leoni, o Dia da Mulher é um momento simbólico para reforçar essa pauta. “Falar de dinheiro com meninas é falar de futuro. É preparar para que elas tenham independência, segurança e capacidade de decisão, para que, no futuro, não deleguem os cuidados com suas finanças.”
Ela conclui que a educação financeira feminina não deve ser pontual, mas estruturada. “Quanto mais cedo começarmos, menores serão as desigualdades no futuro. Autonomia financeira é parte fundamental da igualdade de gênero.”
