Ícone do site

Caminhadas substituem punição em escola dos EUA

Caminhadas em meio à natureza substituem a detenção tradicional e ajudam alunos a refletir sobre atitudes e reconexão com a escola

Published 11/08/2025
museu energia

Artes, cultura e natureza se encontram na programação de abril dos museus da Fundação de Energia e Saneamento em São Paulo e Salesópolis. | Foto: Divulgação

Na Morse High School, em Bath, Maine, detenção nem sempre significa ficar sob luzes fluorescentes e em salas silenciosas. Graças à visão criativa de uma orientadora escolar, pode significar calçar as botas e sair para caminhadas na floresta.

“Nós meio que pegamos um desvio aqui, então fazemos um circuito, mas voltamos pelo rio”, explicou Leslie Trundy, orientadora da escola, enquanto guiava um grupo de sete alunos pela Trilha Whiskeag, apontando para um mapa. “Devemos estar de volta às quatro. Certo? Alguém tem alguma pergunta?”

Os estudantes presentes haviam sido detidos por diversos motivos — desde faltar às aulas até responder de forma grosseira a professores. Ainda assim, aquela não era uma detenção comum.

“Gritei com um professor grosseiramente porque não estava com vontade de fazer algo”, contou Nicholas Tanguay, aluno do primeiro ano. “Quando tentaram me obrigar a fazer, fiquei bravo e gritei com eles.” “Matava aula… acumulava atrasos. Nunca me meti em encrenca”, disse Elsie Nelson-Walling, do segundo ano. Já Wyatt Wells, também do primeiro ano, admitiu: “Joguei videogame na aula.”

Em vez das punições tradicionais, eles foram convidados a uma caminhada de duas horas na floresta após o horário escolar.

Foto: PNW Production | Pexels

A ideia surgiu quando Trundy participou de uma conferência sobre educação ao ar livre no outono passado. Inspirada pelo potencial da natureza como espaço de escuta e crescimento, decidiu transformar a detenção em uma experiência de reflexão — e lançou o experimento da caminhada como alternativa disciplinar. “Minha esperança era que, com o tempo na floresta, eu pudesse ouvi-los”, explicou.

A proposta, no entanto, encontrou resistência. Alguns pais não autorizaram a participação dos filhos, e houve críticas de que caminhar na floresta não parecia um castigo. Ainda assim, Trundy já percebe sinais de sucesso.

“Acho que ainda não tenho dados suficientes que sejam estatisticamente relevantes”, ponderou. “Mas já tive crianças que se juntaram ao clube por causa da caminhada — e isso me deixa muito feliz.”

O clube ao qual ela se refere é o grupo de passeios ao ar livre da escola, também organizado com seu apoio.

Wyatt Wells, o aluno que trocou o videogame pela trilha, já havia acumulado seis ou sete detenções neste ano letivo. Mas a mais recente foi diferente — e voluntária. “Faz três meses que não pego detenção, desde o ano novo”, contou. “Eu disse à minha mãe que não pegaria mais detenções.”

Sona Kipoy, aluna do segundo ano, nunca teve problemas disciplinares, mas participa regularmente das caminhadas. Recém-chegada ao Maine, vinda da República Democrática do Congo, ela acredita que os passeios ajudaram em sua adaptação. “Acho que se encontrar em uma floresta é mais fácil do que na cidade”, refletiu.

Foto: Kris Møklebust | Pexels

Cerca de metade da trilha, o grupo para para um lanche. Trundy lê um poema em voz alta, convidando os estudantes a observarem as transformações ao redor: “Os brotos inchados e as pequenas flores criam uma nova suavidade na luz que é visível até aqui… as árvores, as colinas que eram áridas no frio antigo agora se tornam tenras, e o tempo muda.”

Para Nicholas Tanguay, a caminhada oferece mais do que uma pausa na rotina escolar. “Talvez também seja bom para a saúde mental das pessoas. Se você teve um dia ruim, a opção de fazer isso significa que você precisa temer menos a detenção.”

Trundy pretende continuar com o programa e está animada para acompanhar o crescimento dos alunos no próximo ano letivo.“Estou muito curiosa para saber se alguns dos calouros com quem comecei a caminhar este ano estarão comigo quando forem veteranos.” No mínimo, a trilha tornou-se um espaço onde os alunos — e suas histórias — podem seguir seu próprio ritmo.

Sair da versão mobile