jardim sensorial em casa
Foto: Markus Spiske | Unsplash

A experiência do plantio doméstico pode ser potencializada com a adoção do paisagismo funcional, que privilegie o contato com a natureza e estímulo dos cinco sentidos: visão, tato, olfato, paladar, audição. A engenheira agrônoma Maria Cláudia Silva, integrante da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) do estado de São Paulo, dá algumas dicas para montar um jardim sensorial em casa, confira abaixo:

• visão ‒ plantas floridas, folhagens de formatos diferentes, plantas com cores e tamanhos diversificados, formando um conjunto harmonioso. Podem compor esse conjunto as camélias, azaleias, primaveras, calêndulas, cavalinhas, os filodendros, hibiscos. Um bloco com plantas típicas de regiões áridas como as cactáceas, como o mandacaru; as suculentas, como babosa; e, ainda, outras cercadas de seixos ou pedregulhos completando a ambientação.

• tato ‒ plantas com vários formatos e texturas e que possam ser tocadas, como carqueja, espada ou lança de São Jorge, boldo, peixinho, malvarisco, tuias, entre outras.

• olfato ‒ plantas aromáticas como alecrim, tomilho, cidreiras, arruda, gerânio aromático e plantas com flores perfumadas como jasmim, orquídeas, lavandas e gardênias.

• paladar ‒ plantas que podem ser degustadas como os temperos, manjericão, orégano, cebolinha, salsa, sálvia, manjerona, hortelãs. E as flores comestíveis, como capuchinha e amor-perfeito. Entre os frutos, podem ser cultivados tomatinhos-cereja, morangos e laranja kinkan.

• audição ‒ para este sentido não são usadas plantas, mas instrumentos e recursos que emitem som como os sinos de vento feitos com vários materiais como bambu, metal e outros, que proporcionam diferentes sons. As minifontes e minicascatas de jardim proporcionam o som tranquilizante da água corrente.

Maria Cláudia afirma que “o principal em um jardim sensorial é a participação do visitante que tem que se permitir experimentar, percorrer, tocar, cheirar e se encantar com as maravilhas da natureza”.

Benefícios

Os jardins sensoriais têm funções como desenvolver os sentidos em pessoas com limitações sensoriais ou pessoas que querem se conectar com a natureza e estimular seus sentidos. Isso porque as sensações experimentadas promovem bem-estar e avivam os sistemas sensorial e emocional.

A engenheira agrônoma salienta que nem todo jardim necessita estimular a totalidade dos sentidos. “É muito comum a realização, por exemplo, de jardins de ervas que priorizam os sentidos do olfato e do paladar, além de ser um jardim também funcional, uma vez que as plantas são colhidas e podem ser utilizadas na culinária como aromatizantes, corantes e temperos”.

Espaço

Um jardim sensorial não precisa de um grande espaço, pode ser implantado em quintais e jardins residenciais, em varandas de apartamentos com plantas sendo cultivadas em vaso, bem como em áreas públicas como praças, incentivando o convívio social e a troca de informações.

Maria Cláudia sugere que em espaços externos seja construído em formatos que possibilitem ao visitante fazer um percurso. No caso de a finalidade ser para pessoas com limitações, como cadeirantes e idosos, os canteiros podem ser suspensos, com 50cm a 60cm de altura.

“Colocar placas com nome da planta em braile também é interessante para o caso de o público ter limitações visuais; geralmente, outros sentidos podem ser aguçados quando há limitação em um deles”, incentiva a extensionista. Já quando a opção ou a possibilidade for fazer um jardim em vasos, o ideal é utilizar um para cada sentido.

Cultivo em canteiros

Foto: Pille-Riin Priske | Unsplash

Para o cultivo em canteiros, a sugestão é elaborar um croqui da área com a distribuição das plantas por sentido e desenhando um percurso. Só depois disso, iniciar a preparação dos canteiros realizando uma calagem na dose de 100g/m2 e adubação orgânica com três a 5kg/m2 de composto orgânico. As mudas devem ser adquiridas de fornecedor idôneo, garantindo sua identificação botânica e sanidade.

Cultivo em recipientes e vasos

Utilizar uma mistura de terra, composto orgânico/húmus ou torta de mamona nas seguintes proporções: terra :húmus = 1 : 1; ou terra :torta de mamona = 3 : 1; ou ainda terra : areia : húmus = 1 : 1 : 1, quando a terra for muito argilosa.

Foto: Benjamin Combs | Unsplash

Ao montar os vasos, colocar no fundo pedriscos, cacos ou argila expandida para drenar o excesso de água. Após colocar a mistura de terra, fazer a semeadura, que deve ser realizada na profundidade exigida; quanto menor a semente, mais superficial deve ser a semeadura.

No caso de mudas, retirar do recipiente e colocá-las em buracos na terra, apertando levemente com as mãos ao seu redor. Para completar, regar bem, sem encharcar, e cobrir o solo do canteiro ou do vaso com seixos, pedras calcárias, capim seco, casca de arroz ou outra cobertura, evitando a erosão e os respingos de terra nas plantas quando forem ser regadas.

Manutenção

Adubar com composto orgânico ou torta de mamona a cada dois ou três meses, para o bom desenvolvimento das plantas.

Espécies medicinais

Ao programar um jardim sensorial, pode-se considerar que além dessa função as plantas escolhidas sejam espécies medicinais para que, afora todos os outros benefícios já citados, possam ser usadas em preparações medicinais como chás e sucos eficazes em combater vários males corriqueiros do dia a dia. Algumas são classificadas como PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais), cujas recomendações são:

• folha da fortuna (Bryophylium pinnatum) – PANC considerada antialérgica, antiúlceras e imunossupressiva. Pode ser consumida fresca, sem contra-indicações.

Capuchinha / Foto: Stella de Smit | Unsplash

• boldo (Plectranthus barbatus Andrews) – o sabor é amargo, mas produz belas flores roxas visitadas por borboletas e beija-flores.

• capuchinha (Tropaeolum majus) – também uma PANC, seus frutos e flores são nutritivos e podem ser consumidos. Em relação às qualidades medicinais é expectorante, antisséptica das vias urinárias, tendo ações diurética, antiinflamatória e hipotensiva. Pela beleza e colorido das flores também é apreciada como planta ornamental.

• cavalinha (Equisetum hyemale) – É bastante empregada na medicina caseira e na agricultura orgânica como protetora de plantas contra doenças.

• alecrim (Rosmarinus officinalis) – muito utilizada na culinária e na preparação de óleos essenciais.

• colônia (Alpinia zerumbet) – costuma ser cultivada como planta ornamental devido à beleza de suas flores, mas apenas as suas folhas são utilizáveis.para fins terapêuticos.

Para finalizar, a melhor das dicas é: aproveite o seu jardim sensorial, utilize as ervas e faça experiências gastronômicas em sua cozinha ou, simplesmente, observe as cores, os sons, os cheiros e pegue, sinta aquelas que podem ser tocadas. O encontro com a natureza certamente trará benefícios.

Sobre a engenheira agrônoma

Maria Cláudia é responsável, na Divisão de Extensão Rural, por vários cursos e palestras incentivando o cultivo e o uso de ervas medicinais e aromáticas, seja para aumentar a renda do pequeno produtor, como alternativa de renda, seja para agregar valor a um produto, ou mesmo para uso da família visando a uma vida saudável.