Dieta vegana reduz quase pela metade emissões de CO2
Estudo inédito avaliou quatro dietas equilibradas e apontou qual tem o menor impacto ambiental
Estudo inédito avaliou quatro dietas equilibradas e apontou qual tem o menor impacto ambiental
Apenas 1,1% da população mundial é vegana, mas esse número está em ascensão. Na Alemanha, o total de veganos praticamente dobrou entre 2016 e 2020, alcançando 2% da população, enquanto no Reino Unido o aumento foi de 2,4 vezes entre 2023 e 2025, atingindo 4,7% da população. No Brasil, uma pesquisa encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) aponta que 7% da população se considera vegana, o que representa cerca de 14,7 milhões de pessoas. Entre as principais motivações estão os benefícios à saúde, mas um aspecto relevante e ainda pouco mencionado é o impacto ambiental.
Um estudo recente publicado na revista Frontiers in Nutrition reforça a conexão entre alimentação e sustentabilidade, mostrando que refeições à base de plantas reduzem drasticamente as emissões de gases de efeito estufa e uso de recursos naturais, além de fornecer praticamente todos os nutrientes essenciais.

“Comparamos dietas com a mesma quantidade de calorias e descobrimos que a transição de uma dieta mediterrânea para uma dieta vegana gerou 46% menos CO₂, utilizando 33% menos terra e 7% menos água, além de reduzir outros poluentes ligados ao aquecimento global”, afirmou a Dra. Noelia Rodriguez-Martín, pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de la Grasa do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha, atualmente vinculada à Universidade de Granada, e autora principal do novo estudo.
A pesquisa chama atenção ao comparar a dieta vegana com a dieta mediterrânea, sempre associada a longevidade e saúde. E vai além. A equipe de Noelia desenvolveu quatro cardápios diários nutricionalmente balanceados, com duração de uma semana, incluindo café da manhã, lanche, almoço e jantar. Cada dieta foi projetada para fornecer 2 mil quilocalorias por dia, conforme as diretrizes da Sociedade Espanhola de Nutrição Comunitária, da União Vegetariana Espanhola, da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos e da Academia Nacional de Medicina dos EUA.
A dieta de referência era a mediterrânea onívora, rica em frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas magras. Outras duas variações – pesco-vegetariana e ovo-lacto-vegetariana – incluíam peixe, frutos do mar, ovos e laticínios, mas excluíam carne. Já a dieta vegana substituiu todos os alimentos de origem animal por alternativas vegetais como tofu, proteína texturizada de soja, tempeh, iogurte vegetal, sementes e leguminosas.
Os pesquisadores utilizaram bases de dados públicos da Espanha e dos EUA para calcular o conteúdo nutricional e comparar os valores com recomendações internacionais. Em seguida, estimaram a pegada ecológica total de cada dieta avaliando desde mudanças climáticas e depleção da camada de ozônio até ecotoxicidade e eutrofização da água.
Os resultados foram:
Além disso, a dieta vegana apresentou reduções superiores a 50% em indicadores-chave de impacto no ecossistema em comparação com a dieta onívora e mais de 55% de queda na incidência de doenças.
“Nossas análises mostraram que todos os três cardápios à base de plantas eram nutricionalmente equilibrados, com apenas as vitaminas D, iodo e B12 precisando de um pouco mais de atenção. No geral, os indicadores destacam claramente as vantagens ambientais e de saúde das dietas à base de plantas em comparação com a dieta onívora padrão”, explicou Noelia.

A pesquisadora ressalta que na comparação entre quatro dietas (onívora, pesco-vegetariana, ovo-lacto-vegetariana e vegana) o padrão foi claro: quanto mais alimentos de origem vegetal, menor a pegada ecológica. “O cardápio pesco-vegetariano apresentou ganhos moderados, embora a produção de peixe adicione alguns custos ambientais. As dietas vegetarianas também tiveram um bom desempenho, reduzindo as emissões de carbono em cerca de 35%.”
Mesmo quem não pretende abandonar completamente alimentos de origem animal pode contribuir para um futuro mais sustentável.
“Não é preciso se tornar vegano para fazer a diferença. Mesmo pequenas mudanças em direção a uma alimentação com mais vegetais reduzem as emissões e economizam recursos. Cada refeição que inclui mais vegetais contribui para uma vida mais saudável para as pessoas e para um planeta mais saudável”, concluiu a pesquisadora.
É importante ressaltar que o estudo tem como base dados internacionais. No contexto brasileiro estudo de 2023 estimou que, em 2021, as emissões provenientes dos sistemas alimentares corresponderam a 73,7% das emissões brutas totais do país para o mesmo ano.
A produção de alimentos, especialmente os de origem animal, exerce um impacto considerável sobre o meio ambiente. Em 2021, a mudança de uso da terra, impulsionada em grande parte pela expansão da agropecuária, representou 56,3% das emissões dos sistemas alimentares brasileiros. E, em termos gerais, a produção de carne bovina foi responsável por 78% das emissões dos sistemas alimentares no Brasil.