O carbono emitido na atmosfera pela perda crescente de permafrostno Ártico, combinado com a maior absorção solar pela superfície terrestre resultante do derretimento das calotas polares e da diminuição da cobertura de neve no solo, pode acelerar o processo de mudança do clima e causar um impacto multi-trilionário na economia global.

Um novo estudo publicado pela Nature Communications revela que a combinação desses fatores tem o potencial de causar impactos econômicos de longo prazo associados a mudança do clima na casa de US$ 70 trilhões, sob níveis de mitigação consistentes com os compromissos nacionais atuais para redução de emissões de carbono (5% do custo total estimado da mudança do clima para este cenário).

O que é permafrost?

O permafrost ou pergelissolo, é característico da região do ártico, composto por terra, rochas e gelo permanentemente congelado. No entanto, com o aquecimento do planeta, esse gelo está derretendo, o que causa problemas graves de instabilidade do solo, como erosão e desmoronamentos.

No âmbito da meta definida pelo Acordo de Paris para limitar a elevação da temperatura média do planeta em até 1,5 grau Celsius com relação aos níveis pré-industriais, o impacto adicional cairia para US$ 25 bilhões (4% do custo total para este cenário). Em ambos os casos, o principal responsável pelos custos adicionais é o carbono emitido pelo descongelamento do permafrost.

Realizado por uma equipe multidisciplinar, essa pesquisa pretende fornecer uma melhor compreensão dos riscos socioeconômicos da mudança do clima em diferentes cenários e ajudar as autoridades públicas no sentido de tomar decisões prudentes sobre as metas de redução de emissões.

A partir de modelagem complexa, os pesquisadores quantificaram o impacto econômico tanto do degelo do permafrost,quanto da redução do albedo, que é a capacidade de reflexão da radiação solar de uma determinada superfície. Os resultados apontam que a desestabilização dos sistemas naturais pode intensificar as emissões de carbono e, com isso, aprofundar a mudança do clima.

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O derretimento do permafrost libera também o gás metano, que tem efeito de aquecimento dez vezes maior que o CO2. | Fotos: iStock by Getty Images

“O gelo marinho do Ártico e a neve da terra atualmente contribuem com cerca de um terço cada para o albedo do planeta”, disse Dmitry Yumashev, do Pentland Center for Sustainability in Business da Lancaster University e principal autor do estudo. “Se o clima aquecer ainda mais, o gelo marinho e a cobertura de neve vão recuar ainda mais, enfraquecendo o albedo, aumentando a absorção de energia solar no planeta, o que resultará em mais aquecimento”.

Os cenários de emissões baixas explorados no estudo incluem o atingimento das metas de aquecimento (1,5 a 2 graus Celsius) do Acordo de Paris, enquanto os cenários de emissões médias incluem níveis de mitigação consistentes com os compromissos nacionais atuais (cerca de 3 graus Celsius). Já os cenários de emissões altas consideram a trajetória das emissões caso nenhuma medida seja tomada (business as usual), que nos levaria a um aquecimento de a partir de 4 graus Celsius.

Na medida em que o permafrost se descongela e a cobertura de neve recua na superfície terrestre, o modelo aponta para um aumento no custo total, composto pelos custos de mitigação e adaptação à mudança do clima. Os aumentos ocorrem principal através de impactos adicionais impulsionados pela temperatura na economia, nos ecossistemas e na saúde humana, e impactos adicionais da elevação do nível do mar.

Diferentes cenários

Sob cenários baseados nas condições atuais, o degelo do permafrost poderia liberar mais de 280 giga toneladas de dióxido de carbono (CO2) e 3 giga toneladas de metano, que tem efeito de aquecimento dez vezes maior que o CO2. O impacto adicional estimado nesses cenários é de quase US$ 70 trilhões até 2300. Isto é dez vezes maior que os benefícios projetados do degelo do Ártico e sua abertura para navegação e exploração mineral.

Já nos cenários associados à metas de 1,5 e 2 graus Celsius de aquecimento, esse custo adicional seria de US$ 25 trilhões e US$ 34 trilhões, respectivamente. Ou seja, nos cenários com previsão de aquecimento menor, o custo adicional para mitigação e adaptação climática associada ao degelo do permafrost e da cobertura de neve diminuiria, tornando-os economicamente mais atraentes.

“As conclusões deste estudo sustentam a necessidade de medidas mais proativas de mitigação para manter o aumento da temperatura terrestre bem abaixo de 2 graus Celsius”, finaliza Yumashev.

Leio o artigo na íntegra aqui.

Arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.