Por Rodrigo Lopes*, direto do Web Summit 2019

Você está fora de casa e fica com sede, procura o bebedouro mais próximo e usa um copo de plástico ou compra água de garrafinha plástica, bebe e joga no lixo, tão convenientemente ali ao lado. Pronto, matou a sede…mas também um pouco do planeta. Drama? Não, realidade! Foi apenas um exemplo para lembrar como pequenos atos do dia a dia, multiplicados por milhões de pessoas, podem ter um enorme impacto no mundo que compartilhamos.

Sabia que três a cada dez pessoas não têm acesso à água potável para beber? E que seis a cada dez não têm acesso ao saneamento básico? Ou que há partes do mundo em que as pessoas gastam cerca de 20% do seu rendimento em água? E que, por outro lado, cerca de 40% da água tratada no mundo é desperdiçada?

Estes foram alguns dos números compartilhados no segundo dia do Web Summit 2019, maior conferência da Europa em tecnologias, que acontece em Lisboa, Portugal. Entre os destaques, está o Planet Tech, palco principal das causas ambientais.

Os dados citados acima nos ajudam a dimensionar nosso problema com água, pelo qual podemos dividir em três dimensões: escassez de água, dificuldade no acesso e resiliência — referenciando às épocas de secas e cheias, fenômenos que são cada vez mais comuns e que têm enormes impactos nas vidas das populações. Mas o foco da conversa foi o nível de desperdício de água potável.

Dianna Cohen no Web Summit: “Deixem de usar plástico descartável, é irresponsável!”

No painel “Porque o Oceano não está condenado” quem deu show foi a dupla Dianna Cohen, co-fundadora e CEO da Plastic Pollution Coalition e o surfista de ondas gigantes Garrett McNamara — o que quebrou recorde em Nazaré, tendo Philip Crowther, jornalista afiliado na Associated Press, como mediador do papo. McNamara, além de big rider também é “boa praça”, e com sua simplicidade deixou claro também de forma simples: “no more single use plastic” ou simplesmente “chega de plástico de uso único”.

A discussão ficou em torno dos plásticos descartáveis — aqueles copos, garrafinhas, talheres que usamos pouco e jogamos fora. Ainda no começo, Dianna Cohen lamentou que no Web Summit este ano ainda se vê muito plástico — “parece mais do que no ano passado”, ressaltou — apesar dos esforços da organização, que colocou pontos de reabastecimento de água em vários locais, substituiu os copos de plástico por copos de papel e incentivou os participantes a levarem suas próprias garrafas reutilizáveis.

McNamara juntou-se à conversa pouco depois e trouxe boas reflexões para roda. Para o surfista, as grandes responsáveis pela poluição provocada pelo plástico são “as petrolíferas, elas que estão fabricando estes plásticos descartáveis”, e parte da solução pode ser taxar — ou multar — as grandes empresas que utilizam estes plásticos na sua produção sempre que os restos dos seus produtos são encontrados na natureza. A Coca-cola, a Nestlé e a PepsiCo podem ter algo a dizer, já que elas foram mencionadas como as multinacionais que mais produzem resíduos de plásticos no planeta. O relatório Break Free from Plastics, divulgado em outubro deste ano, acusa ainda estas empresas de não se responsabilizarem pela remoção do lixo causado por suas atividades.

Quando sonha alto, o surfista fala em uma “espécie de imã capaz de atrair todo o microplástico que há no mar”, porém há coisas que “são super fáceis” e podem ser feitas “já a partir de hoje”, ressalva, como garantir que os locais onde as pessoas trabalham, por exemplo, tenham sempre postos de reabastecimento de água, facilitando e incentivando desta forma o uso de garrafas reutilizáveis. E aqui há uma distinção importante que deve ser feita: nem todo o plástico deve ser demonizado, ressalva Dianna. Uma garrafa de plástico que é utilizada várias vezes não é tão prejudicial como um copo que usamos em determinado momento para matar a sede e jogamos fora logo em seguida. “Deixem de usar plástico descartável, é irresponsável”, resume.

Otimista, Dianna encorajou empresas e consumidores a fazerem “escolhas mais inteligentes”, ou seja, que tenham um impacto positivo na saúde humana, ambiental e dos ecossistemas. Para uma plateia cheia, a CEO da Plastic Pollution Coalition defende que ser livre de plástico deve ser um ponto de partida dos novos negócios e não algo para remediar mais tarde. “Se você está produzindo algo para outros deve entender se aquilo é tóxico ou se é mais um problema”, alerta.

McNamara ainda completa “Cabe a nós fazermos escolhas conscientes todos os dias, não comprar plásticos descartáveis e as empresas vão deixar de produzir”.

E por que agir? “Por nós, pelo planeta e pelas futuras gerações”, diz Dianna. Não é motivo suficiente?

Não há grande espaço para pessimismo, pois das pequenas decisões aos grandes sonhos, a tecnologia dá um empurrão.

* Especialista em sustentabilidade, Rodrigo Lopes cobre o Web Summit 2019 pelo CicloVivo. Evento teve início na segunda-feira (4) e segue até quinta-feira (7).

Foto capa: iStock