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Otimismo pode se espalhar entre abelhas, aponta estudo

Interações rápidas entre abelhas podem transmitir estados emocionais positivos — um achado que reforça a complexidade desses polinizadores

abelhas Paraná
Abelha Jataí. Foto: Denis Ferreira Netto | SEDEST

Observar um zangão voando de forma desajeitada entre flores costuma despertar simpatia. Mas, ao que tudo indica, o bom humor não fica apenas com quem observa: entre as próprias abelhas, estados positivos também podem ser compartilhados. Um estudo recente aponta que, quando uma abelha passa por uma experiência agradável, esse estado não permanece apenas com ela. O efeito pode alcançar outras abelhas do grupo, influenciando seu comportamento de maneira comparável ao que chamamos de otimismo. A descoberta vai além de uma curiosidade sobre insetos. A pesquisa, publicada na revista Science, lança nova luz sobre a vida social desses polinizadores e sobre a complexidade emocional deles, frequentemente considerados organismos de comportamento simples.

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Os pesquisadores criaram uma situação bastante direta para testar a hipótese. Primeiro, uma abelha recebe uma pequena quantidade de açúcar. Em seguida, ela passa cerca de 30 segundos em contato com outra abelha dentro da colmeia. Mesmo sem provar o açúcar, a segunda abelha passa a apresentar mudanças no comportamento. Em situações incertas ou ambíguas, ela demonstra mais iniciativa e segurança, como se estivesse mais inclinada a esperar resultados positivos. “O momento que mais nos surpreendeu foi quando vimos pela primeira vez evidências de contágio após uma breve interação social de apenas 30 segundos”, disse o Dr. Fei Peng, autor correspondente do estudo da Universidade Médica do Sul, em Guangzhou. “As abelhas observadoras não haviam recebido nenhuma recompensa, mas seus julgamentos posteriores mudaram na mesma direção que os das abelhas demonstradoras recompensadas.”

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Foto: Roberto Lopez | Unsplash

Para avaliar essas respostas, os cientistas recorreram ao chamado teste de viés de julgamento, método utilizado para identificar se um animal tende a interpretar situações incertas de maneira otimista ou pessimista. No experimento, algumas abelhas se aproximavam rapidamente de novos estímulos, enquanto outras demonstravam hesitação. Depois de interagir com uma abelha que havia experimentado o açúcar, as observadoras passaram a reagir com maior rapidez e confiança, aproximando-se do comportamento considerado otimista.

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Os cientistas também investigaram quais sentidos poderiam estar envolvidos nessa transmissão de estado emocional. Os resultados mostraram que o fenômeno não depende do olfato nem do contato físico. Quando a mesma interação ocorreu no escuro, o efeito simplesmente deixou de acontecer. Isso indicou que a visão desempenha papel central. Para que a mudança ocorra, as abelhas observadoras precisam ver a outra abelha se movimentar e reagir após receber a recompensa. “Esses comportamentos são características de uma mudança afetiva, não de excitação ou imitação social”, compartilhou Peng com o New Atlas. Isso significa que algo no estado interno da abelha observadora, possivelmente algo relacionado a uma emoção, realmente mudou.

Embora o estudo não tenha medido diretamente substâncias químicas do cérebro, os pesquisadores apontam uma possível explicação biológica para o fenômeno: a dopamina. “Em nosso estudo, não medimos os neurotransmissores diretamente”, explicou Peng, “mas o padrão comportamental que observamos nos participantes… assemelha-se aos efeitos vistos quando os níveis de dopamina são elevados experimentalmente”. A hipótese é que o contato com a abelha recompensada desencadeie um processo associado à sensação de recompensa no cérebro da observadora. Esse tipo de mecanismo ajuda a entender como mesmo organismos com cérebros muito pequenos podem experimentar e compartilhar estados internos.

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A pesquisa se soma a evidências de que as abelhas apresentam comportamentos mais complexos do que se imaginava. Estudos anteriores já indicaram que esses insetos conseguem aprender, formar memórias e apresentar variações de humor. O novo trabalho sugere também que essas mudanças podem circular dentro da colônia. Se experiências positivas podem se propagar entre indivíduos, o mesmo pode ocorrer com situações negativas. “Se partirmos do princípio de que estados afetivos positivos podem se espalhar, então estados negativos, como o estresse causado por perturbações, também podem se espalhar entre as abelhas”, destacou Peng. Esse aspecto pode ter consequências importantes para práticas agrícolas e estratégias de conservação, já que ambientes mais estressantes podem afetar não apenas indivíduos isolados, mas o funcionamento da colmeia como um todo.

Os pesquisadores evitam classificar esse fenômeno diretamente como felicidade. Ainda assim, os resultados sugerem que as abelhas são sensíveis aos estados internos umas das outras — e que essas mudanças podem ocorrer rapidamente, após interações muito breves. Se um instante positivo compartilhado pode deixar marcas no comportamento de uma abelha, talvez seja necessário rever a ideia de que cérebros pequenos implicam experiências simples. Mesmo entre insetos, a vida parece envolver muito mais do que reflexos automáticos. Ela inclui interações que, às vezes, duram apenas alguns segundos — mas podem alterar o rumo do dia. E, para uma abelha, 30 segundos podem ser suficientes.

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