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Foto: João Marcos Rosa | NITRO
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Patrícia Médici é uma das personagens do projeto Mulheres na Conservação, verdadeiras heroínas que dedicam a vida a salvar espécies ameaçadas. E Patrícia escolheu trabalhar pela conservação da anta, este animal pouco conhecido, erroneamente associado à falta de inteligência e que é fundamental para os biomas onde está presente.

De acordo com a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), uma floresta sem antas é uma floresta que corre grande perigo de extinção. Isso porque a anta é também conhecida como “jardineira das florestas”, já que se alimenta de diversos frutos e percorre longas distâncias, espalhando sementes em suas fezes por onde anda.  Por isso, os ambientes onde as antas tenham desaparecido encontram-se vulneráveis e empobrecido em termos de biodiversidade.

“A anta é a jardineira das nossas florestas e exerce um papel crítico para a conservação das mesmas. Adicionalmente, é uma verdadeira heroína, lutando para sobreviver em áreas extremamente degradadas. A espécie ainda persiste nessas paisagens antropizadas, mas seu papel na renovação florestal e manutenção da biodiversidade vem sendo bastante comprometido”, explica Patrícia, que é coordenadora da INCAB.

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25 anos trabalhando pela conservação da anta brasileira

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A anta (Tapirus terrestres) no Pantanal. Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), a INCAB-IPÊ começou sua história há 25 anos, com  pesquisas sobre a anta em 1996, no Parque Estadual Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema, São Paulo.

Ali, foram estruturadas as bases de pesquisa sobre a anta na Mata Atlântica, onde a principal ameaça para a espécie é a perda e fragmentação de habitat. Em 2008, a INCAB expandiu suas ações para o Pantanal da Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul, um local com menos ameaças atuantes e onde as antas encontram-se em um estado de conservação menos ameaçado.

No Pantanal, a INCAB vem coletando desde então informações extremamente relevantes sobre a espécie, envolvendo ecologia, saúde e genética. Entretanto, em outra localidade do Mato Grosso do Sul, na região do bioma Cerrado, a situação é totalmente oposta e as antas lidam com muitas rodovias e colisões constantes, caça ilegal e um risco muito elevado de contaminação por agrotóxicos em função da expansão da agropecuária em larga escala. Assim, em 2015, a INCAB-IPÊ também ampliou seus esforços de pesquisa para essa porção do bioma.

Os programas de pesquisa nos diferentes biomas são o instrumento inicial e de base para que a INCAB-IPÊ busque a efetiva conservação desta verdadeira heroína das florestas.

Ameaças

As ameaças às antas vão desde os altos índices de atropelamentos  ao uso de agrotóxicos, além da perda de habitat agravada pelos índices crescentes de desmatamentos e queimadas pelo Brasil.

Segundo levantamento da INCAB-IPÊ, entre 2013 e 2020, foram registradas mais de 600 carcaças de anta em 34 rodovias federais monitoradas. No mesmo período, 77 pessoas ficaram feridas e 34 vieram a óbito por causa de colisões veiculares com antas nas rodovias estaduais e federais no MS.

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Pesquisadora Patricia Medici desenvolvendo seu trabalho de pesquisa com a anta (Tapirus terrestres) no Pantanal. Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Recentemente, a entidade lançou um relatório bastante preocupante sobre os efeitos dos agrotóxicos utilizados na agropecuária no Cerrado na saúde das antas. Até mesmo anomalias físicas foram encontradas nos animais capturados e amostrados. Efeitos negativos dos agrotóxicos nos animais alertam também para a saúde humana.

Em 2021, a INCAB-IPÊ chegou à Amazônia para estudar as antas ao longo do arco sul do desmatamento, em áreas com grande interferência humana. O trabalho foi estabelecido em diversas áreas nos estados de Mato Grosso e Pará. Os dados compilados por estes estudos na Amazônia vão adicionar ainda mais ao conhecimento sobre a espécie no Brasil.

“Conservando a anta, vamos também contribuir para a manutenção do clima, suprimentos para serviços ecossistêmicos, e o bem-estar humano. A vida da anta significa também a vida de uma série de outras espécies animais e vegetais que com ela compartilham o habitat”, completa Patrícia.

“Nossa missão é garantir a sobrevivência da anta no Brasil sendo esta uma das formas mais efetivas de conservar os nossos biomas e as funções ecológicas das florestas, áreas úmidas, savanas e muitos outros ecossistemas utilizados por este animal.”

Patrícia Medici
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Foto: João Marcos Rosa | NITRO

Antas nas cidades

Em 2021, a INCAB-IPÊ avançou também para o monitoramento das antas em ambiente urbano. Através do projeto Antas Urbanas, os pesquisadores vêm coletando informações sobre a ocorrência de antas nas áreas urbanas e periurbanas de Campo Grande, cidade circundada pelo bioma Cerrado.

Em breve, antas serão capturadas e equipadas com colares de monitoramento por satélite para entender como funciona a ecologia da movimentação desses animais neste tipo de ambiente. Os animais capturados serão também amostrados para exames de saúde e genética.

Reconhecimento merecido

Ao longo de mais de 30 anos de pesquisas, Patrícia e a equipe do INCAB conseguiram estabelecer o maior banco de dados sobre a anta no mundo.

Em 2020, Patricia Medici recebeu o Whitley Awards, do Whitley Fund for Nature (Reino Unido), prêmio conhecido como Oscar Verde. A pesquisadora recebeu o Gold Award, principal premiação da fundação, pelo seu trabalho com a anta brasileira.

“Nunca na história vimos tantos impactos causados por nós seres humanos na natureza. Agir agora é sumamente importante para que possamos reverter os impactos das emergências climáticas e evitar futuras extinções de nossa vida selvagem. Conservacionistas como eu devem participar ativamente na definição da agenda ambiental na próxima década”, alertou Patricia na ocasião.

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Pesquisadora Patricia Medici desenvolvendo seu trabalho de pesquisa com a anta (Tapirus terrestres) no Pantanal. Foto: João Marcos Rosa | NITRO

INCAB em números

  • Mais de 500 amostras biológicas coletadas e estocadas em um BIOBANCO para estudos de saúde e genética
  • Mais de 700.000 fotos e vídeos de antas obtidos por armadilhas fotográficas nos diferentes biomas
  • 175 antas diferentes capturadas e amostradas (35 na Mata Atlântica, 104 no Pantanal, 35 no Cerrado, e 1 na Amazônia)
  • 105 antas monitoradas por telemetria
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