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Mundo começa a frear emissões e amplia metas climáticas

Relatório da ONU mostra avanços em metas que agora abrangem todos os setores da economia e incluem gênero, juventude, transição justa e oceanos

Published 28/10/2025
metas climáticas

Foto: Aleksandr Ledogorov | Unsplash

Às vésperas da COP30 em Belém do Pará, um novo relatório das Nações Unidas mostra que o mundo está finalmente começando a achatar a curva das emissões de gases de efeito estufa — mas ainda não na velocidade necessária.

O documento também revela uma nova geração de metas climáticas (NDCs) mais amplas e inclusivas, que agora cobrem quase todos os setores da economia — da segurança alimentar aos oceanos — e incorporam temas como gênero, juventude e transição justa.

Segundo o relatório de síntese da Convenção de Clima (UNFCCC) divulgado nesta terça-feira (28), 89% dos países agora têm metas que cobrem toda a economia; 73% incluem planos de adaptação; 70% tratam de transição justa; 89% abordam igualdade de gênero; 88% incluem crianças e jovens em suas estratégias; e 78% mencionam o oceano em suas NDCs, um aumento de 39% em relação ao ciclo anterior.

Foto: Freepik

Essas novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) indicam também que as emissões globais podem cair 10% até 2035. O estudo analisou 64 novas ou atualizadas NDCs apresentadas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, representando cerca de 30% das emissões globais.

A ONU descreve as novas metas como “um sinal de progresso real e crescente”, mas o relatório alerta que “ainda é necessária uma aceleração significativa” para cumprir as metas de temperatura do Acordo de Paris. “As Partes estão achatando sua curva combinada de emissões, mas ainda não com rapidez suficiente”, afirma o texto.

Dona Claresdina a caminho de colher lichias na agrofloresta que fica no entorno de sua casa. Foto: João Ambrósio | O Joio e O Trigo.

Além disso, a ausência de metas de grandes emissores como a União Europeia, Índia e China comprometem o alcance da análise.

“Um relatório com apenas um terço dos dados não permite avaliar corretamente o que vai acontecer, mas nos diz muito sobre o grau de comprometimento dos países com o maior desafio que a humanidade enfrenta”, avalia Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima.

Para Anna Cárcamo, especialista em Política Climática do Greenpeace Brasil, o relatório da ONU evidencia que os compromissos atuais são insuficientes. “A COP30 deve responder de forma efetiva para ampliar a ambição e a justiça climática, acelerando o fim dos combustíveis fósseis e do desmatamento, e ampliando a adaptação e o apoio financeiro aos países mais vulnerabilizados.”

“De novo, a mensagem principal é de urgência: precisamos aumentar a ambição, ampliar esforços e engajamento, e intensificar o ritmo da transição para longe dos combustíveis fósseis”, afirma Bruno Toledo Hashimoto, analista de Diplomacia Climática do ClimaInfo.

Financiamento e cooperação

Se plenamente implementadas, as novas NDCs reduziriam as emissões totais dos países que reportaram para cerca de 13 gigatoneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e) até 2035 — uma queda de 6% em relação às projeções anteriores e cerca de 17% abaixo dos níveis de 2019. Com o cumprimento de todas as metas condicionais, a redução poderia chegar a 24%. O relatório prevê ainda que as emissões desse grupo de países devem atingir o pico antes de 2030, seguidas de “fortes reduções depois disso”, em linha com as metas de neutralidade de carbono entre 2040 e 2060.

Mas a Convenção de Clima ressalta no próprio relatório que a implementação dessas metas depende fortemente de financiamento e cooperação internacional.

Jovens periféricos rimam sobre racismo ambiental e mudanças climáticas no evento de Rap Batalha da Matrix, em maio de 2025 | Foto:Luan Braz | Greenpeace Brasil

Os países que declararam necessidades financeiras estimam o custo total de implementação de suas novas metas em quase US$ 2 trilhões — incluindo cerca de US$ 1,3 trilhão para mitigação e US$ 560 bilhões para adaptação.

“A implementação das novas NDCs exige uma cooperação internacional forte e contínua e abordagens inovadoras para liberar financiamento em escala para países em desenvolvimento”, afirma o relatório.

Protesto realizado pelo Greenpeace em frente às salas das plenárias da COP29. Foto: Marie Jacquemin | Greenpeace

Reagindo ao documento, o secretário executivo da UNFCCCSimon Stiell, disse que ele sinaliza uma nova era de ambição, mas advertiu que o mundo ainda não se move rápido o suficiente.

“Pela primeira vez, a humanidade está claramente curvando para baixo a trajetória das emissões, embora ainda não com a velocidade necessária”, afirmou Stiell. “Estamos ainda na corrida, mas para garantir um planeta habitável para os oito bilhões de pessoas de hoje, precisamos acelerar urgentemente — na COP30 e em todos os anos seguintes.”

Para Laurence Tubiana, CEO da European Climate Foundation e uma das formuladoras do Acordo de Paris, a própria economia está liderando onde os governos falham. “Mesmo quando certos governos resistem ao progresso ou ficam para trás, cidadãos e empresas continuam a empurrar a economia real rumo a um futuro sustentável e mais verde.”

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