A inação diante das mudanças climáticas está custando milhões de vidas todos os anos. A poucos dias da COP30, um novo relatório da revista The Lancet lança um alerta contundente: os impactos da crise climática sobre a saúde estão se intensificando rapidamente no Brasil e em toda a América Latina.
O estudo Lancet Countdown 2025, parte da rede global de pesquisa sobre saúde e clima da The Lancet, mostra que a mortalidade relacionada ao calor duplicou na América Latina desde os anos 1990, e que o risco de incêndios florestais aumentou mais de 25%.
No Brasil, temperaturas médias recordes, secas prolongadas e poluição atmosférica já custam bilhões em perdas econômicas e milhares de vidas a cada ano. Segundo o novo levantamento, mais de 63 mil brasileiros morrem anualmente devido à poluição do ar, sendo 24 mil dessas mortes diretamente ligadas à queima de carvão, petróleo e gás, ou seja, ligadas a combustíveis fósseis.
Em 2022, o valor monetário das mortes prematuras causadas pela poluição do ar no Brasil foi de R$ 268 bilhões (US$ 50 bilhões), o equivalente a 2,4% do produto interno bruto (PIB).
O país perde cerca de US$ 17,6 bilhões por ano em produtividade devido às altas temperaturas. A seca extrema também se expandiu quase dez vezes desde a década de 1950 — hoje, 72% do território brasileiro enfrentam pelo menos um mês de seca severa por ano. A exposição à fumaça de queimadas está associada a 7.700 mortes anuais, e o risco de incêndios florestais aumentou 10% na última década.
Além disso, o potencial de transmissão de dengue por mosquitos Aedes aegypti aumentou 30% desde os anos 1950, e 1,08 milhão de pessoas vivem a menos de 1 metro acima do nível do mar, em áreas suscetíveis à elevação oceânica. A temperatura da superfície do mar na costa brasileira subiu 0,65°C em relação à média de 1981–2010, ameaçando ecossistemas e cadeias pesqueiras.
Esses dados regionais complementam o relatório global Lancet Countdown on Health and Climate Change 2025, desenvolvido em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e mais de 150 instituições de pesquisa. O documento afirma que 13 dos 20 indicadores de riscos à saúde monitorados atingiram novos recordes, e adverte que a dependência dos combustíveis fósseis e a falta de adaptação estão “cobrando um preço insustentável em vidas, saúde e meios de subsistência”.
Com a COP30 se aproximando, o relatório reforça a urgência de acelerar a transição energética e fortalecer os sistemas de saúde para enfrentar a nova realidade climática. “Belém será uma oportunidade histórica para transformar a ciência em ação”, diz o texto.
Brasil: calor extremo, incêndios e baixa qualidade do ar
O capítulo brasileiro do Lancet Countdown Latin America 2025 apresenta um panorama preocupante. Destacamos abaixo os dados:
- Temperatura média anual de 27°C em 2024, 1,2°C acima da média de 2001–2010;
- Apenas 3 das 32 cidades avaliadas têm níveis adequados de vegetação urbana, essencial para o resfriamento das cidades;
- Bebês com menos de 1 ano foram expostos 4 vezes mais a ondas de calor; idosos, 10 vezes mais que há duas décadas;
- Mortes por calor custaram ao país US$ 5,1 bilhões por ano (2015–2024) — um aumento de 249% em relação à década anterior;
- 6,7 bilhões de horas potenciais de trabalho foram perdidas em 2024, resultando em perdas estimadas de R$ 91 bilhões (US$ 17,7 bilhões) — quase 1% do PIB, principalmente na construção civil (34%) e na agricultura (28%);
- O risco de transmissão da dengue cresceu 108% desde os anos 1950;
- 30 mil mortes em 2022 foram atribuídas à poluição do ar — 79% delas causadas por combustíveis fósseis;
- Apenas 58% dos estudantes de medicina e 34% dos de saúde pública receberam formação sobre clima e saúde.
“O calor extremo e os incêndios florestais já não são exceções — são o novo normal. O Brasil tem papel central para liderar uma transição justa e saudável na América Latina”, afirma Stella Hartinger, diretora do Lancet Countdown Latin America.
América Latina: o fogo se espalha
O relatório regional mostra que 13 mil pessoas morrem todos os anos na América Latina e no Caribe devido a doenças relacionadas ao calor — um aumento de 103% desde 1990.
O risco de incêndios florestais subiu, em média, 26,4%, tornando-se hoje a terceira principal causa de perda de cobertura arbórea. Os aumentos mais expressivos foram observados no Chile (+105%), Bolívia (+82%) e México (+28%), enquanto Panamá e Nicarágua registraram redução.
As perdas econômicas por desastres climáticos extremos chegaram a US$ 13,6 bilhões anuais na região. Só no Brasil, a poluição do ar — associada principalmente à queima de combustíveis fósseis — custou US$ 50,3 bilhões em 2022.
“Cada real gasto em combustível fóssil é um real a menos em saúde pública. O custo de não agir é maior do que o de agir”, resume Marina Romanello, diretora executiva global do Lancet Countdown.
Transição atrasada
O relatório também evidencia o alto custo social da lentidão na transição energética. Em 2023, o Brasil apresentou receita líquida negativa de carbono, destinando R$ 24 bilhões (US$ 4,6 bilhões) a subsídios fósseis — valor superior à arrecadação com qualquer política de precificação de carbono.
Embora as emissões de CO₂ provenientes da queima de combustíveis fósseis tenham caído 1,5% entre 2016 e 2022, 77% da energia usada no transporte ainda vem de fontes fósseis, e a eletrificação da frota nacional segue em estágio inicial.
“O levantamento deste ano traça um retrato sombrio e inegável dos danos à saúde em todo o mundo — com recordes de calor, eventos extremos e fumaça de incêndios florestais ceifando milhões de vidas. A destruição de vidas e meios de subsistência continuará a crescer enquanto não superarmos nossa dependência dos combustíveis fósseis e acelerarmos a adaptação”, alertou Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown na University College London.
O alerta global: milhões de mortes evitáveis
A mortalidade relacionada ao calor aumentou 23% desde os anos 1990, atingindo 546 mil mortes anuais; a poluição do ar causada por incêndios florestais provocou 154 mil mortes em 2024; e a dependência de combustíveis fósseis responde por 2,5 milhões de mortes por ano. Governos gastaram 956 bilhões de dólares em subsídios fósseis em 2023, e as perdas econômicas pela exposição ao calor chegaram a 1,09 trilhão de dólares — quase 1% do PIB mundial.
“Nós já temos as soluções para evitar uma catástrofe climática”, afirmou Marina Romanello. “Mas precisamos manter o ritmo. A rápida eliminação dos combustíveis fósseis e a adoção de dietas mais sustentáveis podem salvar mais de dez milhões de vidas por ano.”
A liderança possível
Apesar do cenário crítico, há sinais de avanço. O afastamento do carvão evita 160 mil mortes prematuras por ano desde 2010, e a participação das energias renováveis na matriz elétrica global atingiu 12% em 2022.
Mais de 16 milhões de pessoas já trabalham no setor de energia limpa — um aumento de 18% em apenas um ano.
“As medidas contra as mudanças climáticas continuam sendo uma das maiores oportunidades de saúde pública do século XXI”, afirma Tafadzwa Mahbhaudi, diretor da Lancet Countdown Africa. “Elas promovem o desenvolvimento, impulsionam a inovação, criam empregos e reduzem a pobreza energética.”
O relatório destaca ainda que o aumento da acessibilidade e competitividade da energia limpa pode ajudar países como o Brasil a reduzir os danos à saúde e redirecionar subsídios fósseis para políticas de adaptação, infraestrutura sustentável e fortalecimento dos sistemas de saúde.

