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Inação climática custa milhões de vidas e bilhões de dólares ao Brasil

Relatório da The Lancet 2025 revela aumento de calor extremo, incêndios e poluição, com impactos severos sobre saúde e economia

Published 29/10/2025
fósseis

Foto de Lucas Pezeta | Pexels

A inação diante das mudanças climáticas está custando milhões de vidas todos os anos. A poucos dias da COP30, um novo relatório da revista The Lancet lança um alerta contundente: os impactos da crise climática sobre a saúde estão se intensificando rapidamente no Brasil e em toda a América Latina.

O estudo Lancet Countdown 2025, parte da rede global de pesquisa sobre saúde e clima da The Lancet, mostra que a mortalidade relacionada ao calor duplicou na América Latina desde os anos 1990, e que o risco de incêndios florestais aumentou mais de 25%.

No Brasil, temperaturas médias recordes, secas prolongadas e poluição atmosférica já custam bilhões em perdas econômicas e milhares de vidas a cada ano. Segundo o novo levantamento, mais de 63 mil brasileiros morrem anualmente devido à poluição do ar, sendo 24 mil dessas mortes diretamente ligadas à queima de carvão, petróleo e gás, ou seja, ligadas a combustíveis fósseis

Em setembro de 2024, Praça do Pôr do Sol mostra céu alaranjado devido a poluição do ar. | Foto: Paulo Pinto | Agência Brasil

Em 2022, o valor monetário das mortes prematuras causadas pela poluição do ar no Brasil foi de R$ 268 bilhões (US$ 50 bilhões), o equivalente a 2,4% do produto interno bruto (PIB).

O país perde cerca de US$ 17,6 bilhões por ano em produtividade devido às altas temperaturas. A seca extrema também se expandiu quase dez vezes desde a década de 1950 — hoje, 72% do território brasileiro enfrentam pelo menos um mês de seca severa por ano. A exposição à fumaça de queimadas está associada a 7.700 mortes anuais, e o risco de incêndios florestais aumentou 10% na última década.

Além disso, o potencial de transmissão de dengue por mosquitos Aedes aegypti aumentou 30% desde os anos 1950, e 1,08 milhão de pessoas vivem a menos de 1 metro acima do nível do mar, em áreas suscetíveis à elevação oceânica. A temperatura da superfície do mar na costa brasileira subiu 0,65°C em relação à média de 1981–2010, ameaçando ecossistemas e cadeias pesqueiras.

Esses dados regionais complementam o relatório global Lancet Countdown on Health and Climate Change 2025, desenvolvido em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e mais de 150 instituições de pesquisa. O documento afirma que 13 dos 20 indicadores de riscos à saúde monitorados atingiram novos recordes, e adverte que a dependência dos combustíveis fósseis e a falta de adaptação estão “cobrando um preço insustentável em vidas, saúde e meios de subsistência”.

A poluição afeta todos os órgãos do corpo humano. | Foto: Marcelo Camargo | Agência Brasil

Com a COP30 se aproximando, o relatório reforça a urgência de acelerar a transição energética e fortalecer os sistemas de saúde para enfrentar a nova realidade climática. “Belém será uma oportunidade histórica para transformar a ciência em ação”, diz o texto.

Brasil: calor extremo, incêndios e baixa qualidade do ar

O capítulo brasileiro do Lancet Countdown Latin America 2025 apresenta um panorama preocupante. Destacamos abaixo os dados:

“O calor extremo e os incêndios florestais já não são exceções — são o novo normal. O Brasil tem papel central para liderar uma transição justa e saudável na América Latina”, afirma Stella Hartinger, diretora do Lancet Countdown Latin America.

América Latina: o fogo se espalha

O relatório regional mostra que 13 mil pessoas morrem todos os anos na América Latina e no Caribe devido a doenças relacionadas ao calor — um aumento de 103% desde 1990.

O risco de incêndios florestais subiu, em média, 26,4%, tornando-se hoje a terceira principal causa de perda de cobertura arbórea. Os aumentos mais expressivos foram observados no Chile (+105%), Bolívia (+82%) e México (+28%), enquanto Panamá e Nicarágua registraram redução.

Incêndio florestal no Chile em 2017. | Foto: Esteban Ignacio | Flickr

As perdas econômicas por desastres climáticos extremos chegaram a US$ 13,6 bilhões anuais na região. Só no Brasil, a poluição do ar — associada principalmente à queima de combustíveis fósseis — custou US$ 50,3 bilhões em 2022.

“Cada real gasto em combustível fóssil é um real a menos em saúde pública. O custo de não agir é maior do que o de agir”, resume Marina Romanello, diretora executiva global do Lancet Countdown.

Transição atrasada

O relatório também evidencia o alto custo social da lentidão na transição energética. Em 2023, o Brasil apresentou receita líquida negativa de carbono, destinando R$ 24 bilhões (US$ 4,6 bilhões) a subsídios fósseis — valor superior à arrecadação com qualquer política de precificação de carbono.

Embora as emissões de CO₂ provenientes da queima de combustíveis fósseis tenham caído 1,5% entre 2016 e 2022, 77% da energia usada no transporte ainda vem de fontes fósseis, e a eletrificação da frota nacional segue em estágio inicial.

Foto: Oswaldo Corneti | Fotos Públicas

“O levantamento deste ano traça um retrato sombrio e inegável dos danos à saúde em todo o mundo — com recordes de calor, eventos extremos e fumaça de incêndios florestais ceifando milhões de vidas. A destruição de vidas e meios de subsistência continuará a crescer enquanto não superarmos nossa dependência dos combustíveis fósseis e acelerarmos a adaptação”, alertou Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown na University College London.

O alerta global: milhões de mortes evitáveis

A mortalidade relacionada ao calor aumentou 23% desde os anos 1990, atingindo 546 mil mortes anuais; a poluição do ar causada por incêndios florestais provocou 154 mil mortes em 2024; e a dependência de combustíveis fósseis responde por 2,5 milhões de mortes por ano. Governos gastaram 956 bilhões de dólares em subsídios fósseis em 2023, e as perdas econômicas pela exposição ao calor chegaram a 1,09 trilhão de dólares — quase 1% do PIB mundial.

“Nós já temos as soluções para evitar uma catástrofe climática”, afirmou Marina Romanello. “Mas precisamos manter o ritmo. A rápida eliminação dos combustíveis fósseis e a adoção de dietas mais sustentáveis podem salvar mais de dez milhões de vidas por ano.”

A liderança possível

Apesar do cenário crítico, há sinais de avanço. O afastamento do carvão evita 160 mil mortes prematuras por ano desde 2010, e a participação das energias renováveis na matriz elétrica global atingiu 12% em 2022.

Mais de 16 milhões de pessoas já trabalham no setor de energia limpa — um aumento de 18% em apenas um ano.

Foto: Pixabay

“As medidas contra as mudanças climáticas continuam sendo uma das maiores oportunidades de saúde pública do século XXI”, afirma Tafadzwa Mahbhaudi, diretor da Lancet Countdown Africa. “Elas promovem o desenvolvimento, impulsionam a inovação, criam empregos e reduzem a pobreza energética.”

O relatório destaca ainda que o aumento da acessibilidade e competitividade da energia limpa pode ajudar países como o Brasil a reduzir os danos à saúde e redirecionar subsídios fósseis para políticas de adaptação, infraestrutura sustentável e fortalecimento dos sistemas de saúde.

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