Sociobioeconomia ganha força com painel na Amazônia
Ferramenta mapeia organizações comunitárias e impulsiona a sociobioeconomia em região estratégica da Amazônia sob pressão da BR-319
Ferramenta mapeia organizações comunitárias e impulsiona a sociobioeconomia em região estratégica da Amazônia sob pressão da BR-319
Ao conectar a produção comunitária a políticas públicas, setor privado e mercados, o Painel Redes da Sociobiodiversidade do Interflúvio Madeira-Purus — lançado na última segunda-feira, 2 de junho, pelo Idesam — representa um avanço estratégico para o desenvolvimento sustentável de uma das regiões mais biodiversas da Amazônia.
A iniciativa busca enfrentar desafios urgentes, como o desmatamento, a grilagem de terras e a expansão de infraestruturas, com destaque para a rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho e cruza uma das áreas mais bem preservadas da floresta. A pavimentação da estrada é alvo de debates intensos, diante da necessidade de conciliar desenvolvimento econômico, inclusão social e conservação ambiental.
Desenvolvido com apoio da Fundação Moore, o painel é uma plataforma interativa que mapeia cooperativas, associações e empreendimentos locais, reunindo dados sobre produção, comercialização, infraestrutura, oportunidades e desafios — incluindo os impactos das mudanças climáticas. A ferramenta oferece funcionalidades para aprofundar o acesso às informações. “O objetivo é subsidiar políticas públicas e promover conexões com o setor privado e o mercado, visando desenvolver a economia com melhoria da qualidade de vida e manutenção da floresta em pé”, explica Fernanda Meirelles, líder da Iniciativa Governança Territorial do Idesam.

A plataforma já mapeou mais de 60 organizações socioprodutivas e oito cadeias econômicas, contribuindo para ampliar a visibilidade de mercado dessas iniciativas e fomentar a inteligência territorial. O painel também busca fortalecer redes, atrair investimentos e estimular parcerias estratégicas. “É preciso aproximar instituições governamentais, não governamentais e iniciativas privadas ao potencial da sociobioeconomia local”, reforça Meirelles.
O mapeamento se concentra no Interflúvio Madeira-Purus, região ao sul do Amazonas considerada estratégica no Plano Nacional de Bioeconomia em construção pelo Ministério do Meio Ambiente. O território abrange 11 municípios e se destaca pela diversidade biológica e étnica, incluindo 18 povos indígenas, comunidades ribeirinhas, extrativistas e agricultores familiares — todos fortemente dependentes dos recursos naturais para sustento e geração de renda.
“A região é a bola da vez para a conservação da Amazônia”, afirma Meirelles, destacando o papel da bioeconomia como alternativa sustentável em um território pressionado pelo avanço do desmatamento. Para proteger a floresta da expansão agropecuária e dos impactos da reconstrução da BR-319, foram criadas unidades de conservação, terras indígenas e assentamentos rurais. “Após a criação dessas áreas, torna-se necessário desenvolver as cadeias da bioeconomia”, pontua.
Apesar dos esforços de proteção, a realidade ainda é preocupante. O município de Lábrea (AM), localizado no Interflúvio Madeira-Purus, liderou os índices de desmatamento no estado em abril, segundo dados do sistema Deter. O desmatamento cresceu 67% na área de influência da BR-319, colocando em risco a integridade ambiental da região.
A importância do fortalecimento das organizações comunitárias é ressaltada por Keivan Hamoud, da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Região de Beruri (Assoab), cuja produção de castanha, envolvendo mais de 320 famílias, já abastece empresas como a Natura. “Com organizações comunitárias mais fortalecidas e preparadas, maior número de extrativistas passa a manejar a floresta em pé, sem destruí-la. O Painel dará visibilidade para que os investimentos anunciados para a Amazônia cheguem de fato à ponta”, destaca.
Junior Rosario, liderança da Central das Associações Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Amapá (CAARDS), também celebra a iniciativa, mas aponta gargalos estruturais. Com produção voltada ao açaí, banana, cacau e farinha, a organização reúne 1,8 mil produtores em Manicoré (AM). “No Painel, vamos expor não só produtos ofertados, como também as dificuldades e a necessidade de parcerias”, afirma.

Sobre o Idesam
O Idesam é uma organização da sociedade civil com atuação na Amazônia Legal desde 2004, dedicada à conservação e ao desenvolvimento sustentável da região e de suas populações. Reconhecida como uma das 100 melhores ONGs do Brasil em 2022, foi eleita a melhor organização ambiental da Região Norte em 2020 pelo Prêmio Melhores ONGs, e venceu o Prêmio Empreendedor Social 2022, promovido pela Folha de S. Paulo e Fundação Schwab, na categoria “Inovação e Meio Ambiente”. Credenciado como ator da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas (2021–2030), o Idesam também é qualificado como Organização Social de Interesse Público (Oscip).