Mulheres brigadistas constroem Plano de Ação de Gênero do Prevfogo
O documento, inédito, reúne vivências das profissionais e sugestões para nortear o trabalho em campo do Ibama
O documento, inédito, reúne vivências das profissionais e sugestões para nortear o trabalho em campo do Ibama
Mulheres brigadistas de diversas regiões do Brasil se reuniram para construir o primeiro Plano de Ação de Gênero do Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais) do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A iniciativa representa um marco histórico ao institucionalizar políticas de equidade de gênero dentro do órgão ambiental federal.
O encontro contou com o apoio técnico do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), responsável pela aplicação da metodologia de diagnóstico e pela condução do processo que resultou no documento final, garantindo maior rigor, organização e profundidade à construção do plano.
Apesar de o Prevfogo realizar ações pontuais relacionadas à equidade de gênero desde 2014, como adequações em uniformes e ajustes nos testes físicos de seleção, não existia uma política interna estruturada sobre o tema. Esse cenário começou a mudar em 2024, com a criação de um grupo de trabalho dedicado à discussão e ao avanço das pautas de gênero. No entanto, ficou evidente a necessidade de um plano mais robusto, sistematizado e alinhado à realidade das brigadistas.
Segundo Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM, a gestão do fogo é diretamente ligada ao território, e a presença feminina nas brigadas vem crescendo de forma consistente, exigindo atenção específica às questões de gênero.

“O IPAM tem feito um esforço em trabalhar em várias frentes no que diz respeito à gestão do fogo e do manejo integrado de fogo. Cada vez mais a gente vê que as mulheres entram para serem brigadistas. É preciso ter esse cuidado de gênero, entender quais são os desafios e o que a gente está fazendo aqui. O apoio do IPAM ao Prevfogo é para que a gente tenha brigadas mais inclusivas, coesas e que o foco seja no principal problema: ter uma paisagem resiliente ao fogo”, explicou.
A elaboração do Plano de Ação de Gênero foi estruturada a partir da escuta ativa das próprias profissionais. A primeira etapa envolveu a aplicação de questionários junto a servidores, brigadistas efetivos e temporários, de ambos os gêneros. Os dados coletados foram consolidados e apresentados exclusivamente às mulheres participantes do encontro.
A partir desse material, as brigadistas trabalharam de forma colaborativa em quatro pilares centrais: identidade, pertencimento, práticas e rituais. Esses eixos orientaram a construção de propostas fundamentadas nas vivências reais do trabalho em campo, fortalecendo o caráter prático e aplicável do plano.
Um dos dias do encontro foi dedicado ao compartilhamento de relatos, muitos deles considerados difíceis e sensíveis. Entre os temas abordados estiveram assédio, humilhação, desrespeito, ausência de diálogo e sensação de não pertencimento. Em contrapartida, também foi destacada de forma unânime a existência de um forte senso de propósito no exercício da função de brigadista.

“Nesse primeiro momento a gente identificou que precisava tanto fazer um diagnóstico de como as brigadistas se veem no ambiente de trabalho, no sentido de condições de trabalho, de estrutura, mas também nas questões de assédio, de se sentirem e também ter esse momento de encontro para a gente ter a oportunidade de conversar, de está mais próximo e de construir de maneira coletiva um plano de ação que pudesse nos orientar. A intenção é que a gente tenha um documento com subsídios, informações, opiniões, vivências de quem está atuando nas diferentes frentes”, especificou Marina Senra, chefe do SEPI (Serviço de Pesquisa e Interagência do Ibama).
Entre os pontos mais sensíveis identificados no diagnóstico está a necessidade de mecanismos institucionais claros e eficazes para denúncias de assédio moral e sexual. Para Ane Alencar, a equidade de gênero vai além da inclusão numérica, exigindo a construção de ambientes seguros, respeitosos e estruturados.
O Plano de Ação de Gênero do Prevfogo será distribuído internamente no Ibama e servirá como documento orientador de ações, protocolos e diretrizes voltadas à segurança, inclusão e valorização das mulheres que atuam tanto nas brigadas de campo quanto nas áreas administrativas do programa.
A iniciativa consolida um avanço estratégico para o fortalecimento institucional do Prevfogo e para a promoção de uma gestão do fogo mais inclusiva e eficiente.