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Comunidade no Maranhão partilha bolos entre vizinhos na Páscoa

“Visinhar”: ao invés de ovos de chocolate, moradores resgatam tradição de compartilhamento de alimentos e memórias

Published 06/04/2026
Visinhar

Fotos: Elma Reis | Acervo Pessoal

Ao invés da troca de ovos de chocolate, os moradores de uma pequena comunidade no Maranhão compartilharam bolos produzidos coletivamente neste fim de semana de Páscoa. Mais do que doces, o povoado de Manoelzinho, em Barreirinhas, partilhou memórias e afetos, numa busca pelo verdadeiro sentido da data.

Desde as antigas culturas pagãs que marcavam o equinócio da primavera até diferentes tradições religiosas, muito do significado da Páscoa se perdeu. Esperança, libertação e vida são palavras frequentemente associadas à celebração, mas, na prática, os rituais, em grande medida, estão esvaziados de seus sentidos simbólicos.

Pode não parecer, mas o costume de dar ovos de chocolate é relativamente recente na história do país. Importado da Europa até o início do século 20, o produto era restrito à elite. Somente após o início da produção nacional a prática se popularizou. Ao mesmo tempo, velhos hábitos foram se perdendo. É o caso da partilha de alimentos nas comunidades rurais de Barreirinhas, que vem sendo resgatada por meio do projeto Visinhar.

Adoçando a alma

Elma Reis é quem está à frente da iniciativa em Manoelzinho, comunidade rural que reúne 105 famílias e em média 350 pessoas. A região vive da agricultura familiar: além de legumes, como maxixe, abóbora e pepinos, há produção de milho, feijão e, principalmente, mandioca, principal fonte de alimentação local. O Visinhar justamente celebra a colheita coletivamente garantindo uma páscoa farta a todos. 

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

Formada em história e apaixonada por cultura, Elma, desde 2010, é voluntária de uma biblioteca comunitária da Associação Vaga Lume, que promove a leitura em áreas remotas da Amazônia Legal. Paralelamente, ela começou a pesquisar práticas culturais locais e, a partir deste trabalho, escreveu três artigos, que define como “nada científicos”. Foi desse interesse que surgiram pequenos projetos desenvolvidos na biblioteca, envolvendo voluntários, adolescentes e crianças. Neste ano, durante a Semana Santa nasceu a chamada “Semana do Visinhar”.

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

Inspirada em uma tradição já existente na comunidade, a iniciativa organizou, ao longo de uma semana, práticas culturais que articulam memória, partilha e convivência. As atividades começaram com a coleta, junto às famílias, de ingredientes produzidos localmente, como mandioca, coco e milho. Na quarta-feira, conhecida como “Quarta dos Bolos”, crianças, adolescentes e moradores mais experientes se reuniram para o preparo coletivo de receitas tradicionais.

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

Na quinta-feira, ocorreu o “Visinhar”: prática de troca e partilha entre as famílias, em que alimentos são distribuídos a partir do que cada um tem disponível. A dinâmica reflete a diversidade produtiva da comunidade: o que sobra em uma casa complementa a necessidade de outra. Isso garante uma mesa farta para todos. 

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

A programação foi encerrada na sexta-feira com mesa coletiva e rodas de conversa, reunindo moradores de diferentes gerações. Os idosos sobretudo foram convidados a compartilharem suas histórias, valorizando assim a memória oral, a identidade cultural da localidade e o fortalecimento dos laços comunitários.

Memória ancestral

Elma explica que a troca de alimentos faz parte da própria história de formação da comunidade, que é atribuída a um senhor bondoso, o Manoelzinho, que acolhia viajantes e, em troca, ganhava peixes, coco, farinha de mandioca, entre outros alimentos produzidos no entorno. Até hoje, é comum a troca de coco por puba ou tapioca entre as comunidades locais.

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

O “Visinhar” é mais específico da Páscoa. “A prática de Visinhar veio como uma forma de partilhar o que se tinha produzido na terra, no sentido da Páscoa e do sentimento religioso de fazer o bem”, explica. 

Os bolos são feitos pela comunidade a partir da matéria-prima do que se produz. Algumas das delícias preparadas e compartilhadas na comunidade maranhense são o bolo de macaxeira, bolo de puba doce (feito com puba, leite de coco e açúcar) e o bolo de goma. Mas, a grande estrela é o marapatá: um bolo feito de puba (massa extraída da mandioca fermentada) com coco e sal, enrolado na folha da amêndoa (árvore comum na comunidade) e amarrado com fibra do buriti. 

O famoso marapatá. Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

“A gente passa o ano inteiro esperando para comer esse bolo, que só se faz nessa época do ano. Todo mundo gosta”, conta. A feitura cria uma verdadeira linha de produção. “Um colocando lenha no fogo, outro descascando o coco, ralando o coco, outro ralando a macaxeira, outro peneira a puba, um segura a folha, outro coloca a massa, outro amarra. É uma união. Junta filhos, netos, grandes e pequenos. Todo mundo junto”, relembra a historiadora. 

Nesse processo, naturalmente, os mais velhos contavam histórias, relatavam dificuldades do passado e superações. As crianças e jovens cresciam ouvindo os causos. A prática, no entanto, vem se perdendo entre os mais jovens e, a partir de um mergulho na valorização do território (incentivado pelo Programa Rede da Vaga Lume) veio a ideia de incentivar uma retomada do Visinhar. 

“Visinhar é o que somos”

Substituir o consumo da época pelo exercício coletivo de partilha e valorização dos alimentos produzidos localmente é uma forma de reconexão com a celebração da Páscoa.

“A gente quer mostrar para essa turma mais jovem que embora possamos querer coisas diferentes, a gente não pode perder aquilo que é nosso, aquilo que nos faz parte do que somos. Nós não produzimos chocolate aqui, nós produzimos farinha, produzimos milho e precisamos celebrar isso também. Não é simplesmente levar e trazer alguma coisa, mas é o sentimento de não ter só para mim, de me preocupar também com meu vizinho, com meu parente”, relata Elma.

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

Mais do que uma sequência de atividades, a Semana do Visinhar estrutura uma forma de viver a celebração baseada na cooperação e no cuidado com o próximo. “O Visinhar era isso: dar o que tinha e receber em troca aquilo que você não tinha. Na hora da ceia são vários tipos de bolo. Mesmo quando são da mesma matéria-prima, temos mãos diferentes, [são os mesmos bolos] feitos por outras pessoas”, explica Elma.

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal

Mesmo quem não produz mais alimentos na roça participa de alguma forma, seja trocando um quilo de açúcar, arroz ou até mesmo ensinando. “Os mais velhos não fazem mais os bolos, comem o que recebem. Minha mãe, já idosa, ensina como fazer. Fomos na casa de dona Laura, que tem 103 anos, ela ficou feliz, emocionada, contou histórias de como eram os bolos dela, provou os bolos que levamos, deu notas – divertindo as crianças”, relata Elma sobre a experiência na última semana. “Nossa Páscoa é maravilhosa, incrível. A prática do Visinhar é emocionante para gente porque faz parte do que somos”, conclui. 

Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal
Foto: Elma Reis | Acervo Pessoal
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