Dezembro em SP: o que ficar de olho durante o mês
Moda regenerativa, culturas indígenas e audiovisual afro-brasileiro são destaques na programação
Moda regenerativa, culturas indígenas e audiovisual afro-brasileiro são destaques na programação
O mês de dezembro em São Paulo reúne uma programação intensa e diversa que celebra memória, ancestralidade, circularidade, arte, moda regenerativa, audiovisual e práticas comunitárias. A cidade recebe a estreia da Trama Afetiva na Casa de Criadores N57, uma ampla agenda do Museu das Culturas Indígenas (MCI) e, para quem prefere vivências culturais em casa, a estreia da segunda temporada da série O RIO QUE DESÁGUA NA ÁFRICA, no SescTV.
As atividades ampliam diálogos entre territórios urbanos, comunidades tradicionais, práticas ancestrais e novas linguagens, compondo um retrato vibrante da produção cultural brasileira contemporânea.
A Trama Afetiva, plataforma de design social e regenerativo idealizada por Jackson Araujo com direção criativa de moda de Thais Losso, apresenta na Casa de Criadores desfile, exposição e o lançamento da publicação Trama Afetiva: Moda em Regeneração. A agenda conecta resultados da Imersão Cultural em Moda Regenerativa, realizada via ProAC, e investiga o potencial criativo dos resíduos urbanos, especialmente dos náilons de guarda-chuva descartados.
A atriz Mel Lisboa, embaixadora da plataforma, participa como convidada especial no desfile do dia 5 de dezembro.
No dia 5 de dezembro, às 18h, a Trama Afetiva estreia na passarela da Casa de Criadores com o desfile “A Anarquia da Felicidade”, que apresenta uma coleção-manifesto assinada pela diretora de moda da plataforma, Thais Losso. O trabalho parte de um conceito desenvolvido por ela e que orienta o processo criativo da Trama: o design por restrição. Como afirma a diretora criativa, “na Trama Afetiva, os limites não restringem — eles revelam possibilidades”, reforçando que trabalhar com o que se tem é “um gesto político e criativo que reprograma a lógica do consumo e devolve sentido à matéria”.
Para esta edição, Thais conduziu o time criativo (assistentes, artesãs e costureiras) a trabalhar com náilons de guarda-chuvas descartados, seja em formato plano ou em crochês de fitas de náilons de guarda-chuvas, uma tecnologia proprietária da Trama Afetiva.

O styling de Márcio Banfi conecta passado, presente e futuro da moda brasileira por meio do arquivo da designer, revisitando peças dos anos 2000 que dialogam com novas construções regenerativas.
Jackson Araujo define o conceito que dá nome ao desfile. “No nosso desfile, a anarquia da felicidade é ato político, pois a Trama Afetiva costura um mundo onde cabem muitos mundos: cada peça nascida do descarte prova que a regeneração é plural, coletiva e possível”, afirma.
Com participação de Mel Lisboa e Marina Dias, o desfile reúne peças desenvolvidas também durante as oficinas da imersão e conta com apoio da Hering, Fundação Hermann Hering e da marca de calçados Di Valentini — que cedeu pares de estoque, como destaca Juliana Mafesoli: “Estamos apoiando o desfile com sapatos parados em estoque, como nos foi sugerido pelo Jackson, porque acreditamos que ao fortalecer iniciativas como a Trama Afetiva, estamos colaborando para uma tomada de consciência da indústria da moda e calçadista sobre sustentabilidade e design social”.
Instalada na Sala de Vidro do CCSP entre 3 e 10 de dezembro, a mostra apresenta dez manequins com criações feitas a partir de náilons de guarda-chuva reutilizados.
Jackson Araujo escreve: “a moda regenerativa não quer eliminar o monstro — ela o transforma em manifesto.” E completa: “o que era resíduo renasce como corpo simbiótico: antes um resto, agora matéria viva.”

Com curadoria de Karlla Girotto, a Casa de Criadores apresenta no CCSP instalações, esculturas e textos que tensionam os limites entre moda, arte e política. Artistas e estilistas criam um manifesto visual sobre sustentabilidade, ecologias possíveis e cuidado coletivo.
A coletânea reúne ensaios, memórias e reflexões criadas durante a imersão cultural da Trama Afetiva. O ensaio de abertura é o de Jackson Araujo: Trama Afetiva: Inventando o design de mundo. O livro será distribuído gratuitamente para bibliotecas públicas e escolas de moda do estado.
O público também pode já conferir o trailer do documentário que registra as ações coletivas da plataforma e depoimentos de participantes ao longo de 2025.
O Museu das Culturas Indígenas (MCI) abre dezembro com uma agenda diversa dedicada às tradições, saberes e expressões indígenas. A programação segue até janeiro de 2026 e inclui oficinas, rodas de conversa, ações formativas e apresentações artísticas conduzidas por mestres, artistas, lideranças e anciãos de diferentes etnias.
O MCI integra a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e é gerido pela ACAM Portinari, em parceria com o Instituto Maracá e o Conselho Indígena Aty Mirim.

Em parceria com a Fábrica de Cultura de Iguape, o Instituto Acaia e o Projeto Ayvu Porã, o museu promove oficinas realizadas em territórios e aldeias da região entre 06/12/2025 e 31/01/2026, das 9h às 19h.
As atividades são conduzidas com o protagonismo dos xeramoĩ kuery e xejaryi kuery, anciãos Guarani reconhecidos por sua sabedoria. A programação envolve escuta, memorização, desenho e xilogravura, com participação ativa de crianças, jovens e adultos na criação de um acervo contemporâneo de histórias e iconografia Guarani.
No dia 06/12, às 14h, o MCI recebe Antônio e Sílvia Kaimbé para uma roda de conversa sobre famílias atípicas no contexto indígena. O encontro integra a Virada Inclusiva 2025, promovida pela SEDPcD, que celebra os dez anos da Lei Brasileira de Inclusão.
O artesão Natan Pankjeri (povo Jeripancó) conduz uma oficina de criação de adornos plumários, compartilhando significados espirituais das plumas e práticas ancestrais. À tarde, participa da Feira de Artes Manuais Indígenas.
O encerramento anual do Programa de Contação de Histórias apresenta a finalização da residência artística Memórias Feitas de Caroá, idealizada por Júlia Maynã (povo Xukuru-Kariri). A performance cênico-musical articula cantos, poesia, dança, artes visuais e o caroá (fibra sagrada da Caatinga) destacando memórias e resistências de mulheres indígenas migrantes no cenário urbano.
Artesãs e artesãos de diversos povos ocupam a área externa do MCI com artefatos tradicionais das 9h às 18h, impulsionando a economia indígena contemporânea.
As mostras em andamento celebram a diversidade e os conhecimentos originários:
Para quem prefere o “lar doce lar” ou até mesmo não mora em Sao Paulo, também pode mergulhar no universo cultural com a estreia da 2ª temporada de O RIO QUE DESÁGUA NA ÁFRICA no SescTV. Dirigida por Vanessa de A. Souza, a série estreia em 6 de dezembro, sábado, às 20h30, no SescTV, com oito episódios inéditos que ampliam o diálogo entre o Rio de Janeiro e as matrizes africanas que estruturam sua identidade. A série reconecta a cidade às histórias, práticas culturais e formas de resistência que moldaram e continuam moldando sua vida social, artística e comunitária. Em cada episódio, o público conhece personagens fundamentais na preservação dessa herança, além de espaços que afirmam a vitalidade da cultura afro-brasileira no presente.

Com uma abordagem sensível e histórica, a nova temporada desloca o olhar turístico convencional e oferece ao espectador um entendimento mais profundo dos quilombos urbanos, das iniciativas de museologia social, das manifestações musicais e das redes afetivas que sustentam a experiência negra na capital fluminense. Da Lagoa Rodrigo de Freitas ao Morro da Providência, do Museu do Samba ao Jongo do Pinheiral, a produção apresenta trajetórias que reafirmam a potência dos territórios negros como centros de criação, memória e mobilização.
“Raízes Vivas no Quilombo Sacopã” apresenta a força desse quilombo urbano localizado na Lagoa Rodrigo de Freitas e liderado por Luiz Sacopã, que, aos 81 anos, carrega a responsabilidade de manter viva a história de sua família e de um dos primeiros quilombos reconhecidos no Brasil. Depoimentos de Thais Rosa Pinheiro, Dadinho, Fernando Del Papa e moradores reforçam a importância do Sacopã como polo de tradições e convivência.
Em “Galeria a Céu Aberto, Galeria da Providência e Museu da Favela”, a série sobe o Morro da Providência para acompanhar lideranças como Hugo Oliveira, Antônia Soares e Luiz Porto, destacando como arte e museologia social constroem narrativas próprias no território.
O terceiro episódio, “Sons e Memórias no Museu do Samba”, evidencia a importância do espaço na preservação da história do samba e das matrizes africanas, com vozes de Nilcemar Nogueira, Bruna Cordeiro, Emily Borges, Valéria Assis e pesquisadores envolvidos no relançamento de Escola de Samba, árvore que esqueceu a raiz.
Encerrando o mês, “Batidas da Resistência – Jongo do Pinheiral” revela a força da tradição jongueira no Sul Fluminense, mostrando como a transmissão da prática de geração em geração configura um gesto de resistência histórica e de conexão viva com o continente africano.
A temporada reafirma o compromisso do SescTV com narrativas plurais, valorização de territórios negros e fortalecimento da memória afro-brasileira no audiovisual.
Série documental – 5 episódios
Direção: Vanessa de A. Souza
Duração: 26 minutos cada
Classificação: Livre
Exibição: Sábados, às 20h30, no SescTV
• 06/12 – Raízes Vivas no Quilombo Sacopã
• 13/12 – Galeria a Céu Aberto, Galeria da Providência e Museu da Favela
• 20/12 – Sons e Memórias no Museu do Samba
• 27/12 – Batidas da Resistência – Jongo do Pinheiral
Para sintonizar o SescTV: consulte sua operadora ou acesse sesctv.org.br/noar.