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Cartilha orienta sobre mudanças climáticas e saúde infantil

Material produzido pelo movimento Médicos pelo Clima mostra os impactos de fenômenos climáticos registrados em cada região do país na saúde das crianças

crianças mobilidade família
Foto: Sai De Silva | Unsplash

Secas, enchentes, queimadas, ondas de calor. Eventos extremos, cada vez mais frequentes no Brasil, ameaçam diretamente a saúde das crianças. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão expostos a um ou mais risco climático. Para alertar sobre esse quadro e fortalecer o olhar para a saúde infantil nas discussões sobre clima, Médicos pelo Clima – primeiro movimento brasileiro a mobilizar a classe médica no enfrentamento à mudança climática e à poluição do ar, idealizado pelo Instituto Ar – lançou uma cartilha inédita voltada a cuidadores. A partir da realidade de cada região do Brasil, os capítulos abordam os impactos físicos e mentais na infância e apresentam orientações práticas de prevenção e cuidado.

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A publicação, que teve revisão técnica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e colaboração do pediatra infectologista Renato Kfouri, foi produzida por médicas e médicos com atuação regional e ampla experiência em pediatria e saúde pública. Para cada capítulo foi selecionado um evento climático que tem sido frequente em cada uma das regiões do Brasil: inundações no Sul (Dra. Marilyn Urrutia); chuvas intensas e altas temperaturas no Sudeste (Dra. Evangelina da Motta Pacheco Alves de Araújo); ondas de calor no Centro-Oeste (Dra. Natasha Slhessarenko F. Barreto); secas prolongadas no Nordeste (Dra. Maria Enedina Claudino de Aquino Scuarcialup); e queimadas na Amazônia, na Região Norte (Dra. Raquel Baldaçara).

“As mudanças climáticas afetam diretamente a saúde das crianças: comprometem a saúde respiratória, influenciam a nutrição pela privação de alimentos e impactam a segurança alimentar. Também favorecem a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como febre amarela, dengue, chikungunya e outras arboviroses”, explica Dr. Renato. “Informar a população sobre formas de cuidado e prevenção é fundamental. A comunidade médica tem um papel central nesse processo – o médico ainda é a principal fonte de informação confiável e de qualidade para as famílias no que diz respeito à prevenção e ao controle de doenças”.

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escolas ilhas de calor
Foto: note thanun | Unsplash

A cartilha está disponível para download gratuito no site. O conteúdo foi escrito em linguagem acessível, sem perder o rigor científico, e inclui ilustrações e um glossário com termos de saúde e clima. O objetivo é apoiar mães, pais e cuidadores, além de facilitar o diálogo entre médicos e famílias. O material foi realizado pelo movimento Médicos pelo Clima, a partir do patrocínio da RD Saúde e do apoio da Fundação José Luiz Setúbal, com parceria da Sociedade Brasileira de Pediatria (SPB).

Segundo o presidente da SBP, Edson Liberal, “as mudanças climáticas já são uma realidade no cotidiano das crianças brasileiras, afetando diretamente sua saúde física e mental. Ao colaborar com essa cartilha, a SBP reforça seu compromisso com a promoção da saúde infantil em todos os contextos, inclusive diante dos desafios ambientais”. Para ele, é fundamental que mães, pais, cuidadores e profissionais de saúde estejam preparados para reconhecer e enfrentar esses impactos. “Essa publicação traduz com clareza científica e sensibilidade regional os riscos que enfrentamos e oferece orientações práticas que podem salvar vidas. Acreditamos que informar é uma das formas mais eficazes de proteger”, destaca.

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O risco para as crianças brasileiras

O Brasil é considerado um país de alto risco pelo Índice de Risco Climático das Crianças (Children’s Climate Risk Index), desenvolvido pelo UNICEF. O levantamento aponta que 24,8 milhões de meninos e meninas com menos de 18 anos estão expostos ao risco de poluição do ar e 13,6 milhões ao risco de ondas de calor. Essa vulnerabilidade se intensifica entre crianças pequenas, cujos sistemas imunológico e respiratório ainda estão em desenvolvimento.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estima que a poluição do ar esteja associada a 50% dos casos de pneumonia e a 44% dos casos de asma, resultando em cerca de 600 mil mortes de crianças por ano. Crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social estão especialmente vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, além daquelas que vivem comunidades tradicionais ou possuem algum tipo de deficiência.

saúde infantil
Foto: Pixabay

“As mudanças climáticas já estão alterando profundamente as condições de vida e saúde das crianças brasileiras. Cada região do país revela, de forma singular, os desafios e urgências desse cenário. Em todas essas realidades, a saúde infantil emerge como um termômetro da crise climática e um chamado à ação”, avalia na cartilha o pediatra Daniel Becker, embaixador do Médicos pelo Clima. “Cuidar das crianças é cuidar do mundo em que elas irão crescer — e que esse compromisso una profissionais de saúde, famílias, educadores e gestores em uma jornada guiada pela urgência, pela responsabilidade e pela esperança”.

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Médicos engajados na relação entre clima e saúde

Anteriormente chamado de Médicos pelo Ar Limpo, o movimento Médicos pelo Clima surgiu em 2020 com o objetivo de unir forças em defesa da saúde pública e do meio ambiente no Brasil. Naquele ano, mais de dez associações médicas e o Ministério Público Federal se uniram para garantir a implementação dos prazos do PROCONVE (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores), assegurando o início da fase P8 para veículos pesados. Essa medida previa reduzir em até 95% as emissões do poluente “material particulado”, preveniria 140 mil mortes nos próximos 30 anos e evitaria cerca de R$ 575 milhões em custos hospitalares do SUS.

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Cartilha do Médicos pelo Clima

Desde então, promove a conscientização da sociedade, a defesa de políticas públicas e o engajamento médico para enfrentar a crise climática e proteger a saúde da população. Já alcançou mais de 15 mil profissionais de saúde e passou a integrar coalizões como a Clima, Crianças e Adolescentes, a Coalizão Global Clima e Saúde e o GT Saúde Única da Sociedade Brasileira de Pediatria.

“Colocar a discussão do tema sobre mudanças climáticas e saúde infantil é fundamental entre todos os atores desse processo: gestores públicos, comunidade científica, médicos, sociedades médicas e, claro, a população. É preciso envolver todos na decisão sobre as melhores maneiras de controlarmos, evitarmos e mitigarmos os efeitos danosos que o clima tem causado à saúde de todos — especialmente das crianças”, conclui Dr. Renato Kfouri.

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