“O futuro da Amazônia é incerto, ainda vamos pagar o preço do que já emitimos”
Líder de comitê científico da COP30, Thelma Krug alerta que a janela para ultrapassar limite do Acordo de Paris é mínima e países precisam acelerar redução de emissões
Líder de comitê científico da COP30, Thelma Krug alerta que a janela para ultrapassar limite do Acordo de Paris é mínima e países precisam acelerar redução de emissões
“O futuro da Amazônia é incerto, e mesmo que façamos muito para reduzir emissões, ainda vamos pagar o preço do que já emitimos”. A avaliação é de Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema de Observação Global do Clima e uma das maiores autoridades mundiais em florestas e mudanças climáticas. A fala foi feita nesta terça-feira (6) durante a conferência de abertura da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Líder de um comitê científico criado pela presidência da COP30, Thelma reforça que as florestas têm papel importante para tentar contrabalancear o impacto das mudanças climáticas, mas alerta que, se não houver redução das emissões, “de nada adianta segurar a floresta e o desmatamento” – o que significa que, essas medidas, sozinhas, não darão conta do recado.
Thelma reforça que o mundo está com uma janela mínima para ultrapassar o limite de 1,5ºC de aumento na temperatura global definido pelo Acordo de Paris. Segundo ela, os dados de 2024, registrado como o ano mais quente da história da humanidade e que chegou a ultrapassar esse limiar de 1,5ºC, não podem ser interpretados isoladamente, e a meta do acordo ainda precisa ser perseguida.
“Quando se tem um único dado, pode-se estar olhando para um ano atípico. Lutei muito para dizer que não ultrapassamos os 1,5ºC de aumento [dos limites do Acordo de Paris], mas sei que estamos com uma janela desse tamanhinho para ultrapassar”, afirma ela. “Por isso, um dos desafios que vamos ter na COP30 é continuar com os países reiterando seus esforços, e só vamos ter isso quando aumentarmos enormemente as ambições de reduções de emissões.”
“Um dos desafios da COP em Baku, no Azerbaijão [COP29], é que não conseguimos estimular o financiamento pelos países na ordem de trilhões anuais para ter ações de mitigação. E acho muito difícil conseguirmos reverter esse cenário. Hoje é mais plausível [para muitos países] financiar a guerra e outras coisas”, afirma ela, para quem o tema deve ser reforçado na COP30, em Belém.
A palestra de Thelma Krug marca a abertura da Reunião Magna, principal evento da Academia Brasileira de Ciências e a primeira com foco nas diferentes dimensões e desafios enfrentados pela Amazônia. Com o tema “Amazônia já! Sem tempo a perder”, o encontro dará ao público a oportunidade de conhecer os diferentes olhares da comunidade científica e dos povos tradicionais sobre ameaças que afetam o bioma. O evento acontecerá entre 6 e 8 de maio no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas aqui.
“Não temos mais tempo a perder. A cada dia que hesitamos, fragmentos de floresta desaparecem. A cada dia que adiamos, comunidades inteiras perdem o futuro. A cada dia que silenciamos, apagamos vozes que há milênios guardam o equilíbrio entre a vida e a terra. E mesmo assim a Amazônia, que cobre mais da metade do território nacional, segue recebendo menos de 4% de investimento em ciência, tecnologia e inovação no país”, afirma o coordenador do encontro e vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Val.

Em sua fala de abertura, Helena Nader, presidente da ABC, destacou que essa é a primeira vez que a Academia traz uma Reunião Magna totalmente focada na Amazônia, tema que já vinha sendo discutido em outros eventos.
“Está na hora deste país que vai sediar a COP30 realmente passar a olhar a população da Amazônia dentro de um contexto maior. Este evento é acima de tudo um convite à ação. O momento é agora, e precisamos unir ciência, políticas públicas e saberes tradicionais para construir uma Amazônia que prospere em harmonia com sua gente e seu ecossistema”, afirmou.
Ao longo de três dias, a conferência reúne cientistas brasileiros, de países amazônicos e internacionais, com destaque para a participação de pesquisadores indígenas e demais especialistas que vivem na Amazônia. O objetivo é debater os principais desafios enfrentados pelo bioma e caminhos para o futuro.
Nesta quinta-feira (8), Andrea Encalada, pesquisadora da Universidade San Francisco de Quito, no Equador, e do Painel Científico para a Amazônia fará a conferência magna de encerramento às 9h. Seguida pela sessão plenária que vai abordar a infraestrutura da Amazônia, com foco nos aspectos científicos, tecnológicos e educacionais. A coordenação será da bióloga Maria Olivia de Andrade Ribeiro Simão (UFAM), com participações de Carlos Alfredo Joly (Unicamp), referência em políticas públicas para biodiversidade; Emmanuel Tourinho (UFPA), que tem ampla atuação na gestão universitária e pesquisa; e Bradley Olsen (MIT), especialista em engenharia química com colaborações internacionais na área de biotecnologia.
A programação completa pode ser vista neste link.