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Bordadeiras levam artivismo à COP30

Coletivo expõe painéis bordados que denunciam impactos ambientais, valorizam ações comunitárias e estimulam esperança pela regeneração

Foto: Carolina Conti | Ciclo Vivo

De 6 a 9 de novembro, o Sesc Vila Mariana, em São Paulo, realizou uma exposição com 664 painéis de bordados que comporão um grande mural em Belém, voltado a temas relacionados à sustentabilidade e à regeneração. Eles integram o projeto Zurciendo el Planeta, um coletivo de mulheres de 10 países distintos, sobretudo latinoamericanos, que se autointitulam como “um ecossistema têxtil para restaurar a esperança”.

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As imagens compõem uma instalação colaborativa, feita a muitas mãos, com tecidos usados, e têm por objetivo valer-se do artivismo para comunicar tanto o planeta que se deseja construir, quanto denunciar ações socioambientais degradadoras e divulgar iniciativas comunitárias em curso, inspiradoras para outros territórios.

Este material chegou ontem à capital paraense nas malas de Silvia Susana Fernandez e Dora Napolitano — duas idealizadoras do Zurciendo — e de Priscila Medeiros, professora de manualidades em um dos pólos que integram o projeto aqui no Brasil, o do time de bordadeiras da Praça Pablo Garcia Cantero, na Vila Mariana, em São Paulo.

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Priscila Medeiros, na exposição dos paineis no Sesc Vila Mariana. Foto: Carolina Conti | Ciclo Vivo

A praça integra as ações do Programa Permanente Ecobairro Brasil e abriga uma iniciativa comunitária que contempla compostagem, permacultura e outras atividades voltadas também ao resgate do tecido social. “Criamos um painel coletivo contando sobre os plantios, a compostagem e regeneração do espaço, além dos ganhos imateriais de participar da iniciativa”, relatou Priscila antes de embarcar para a COP com a peça.

Entre as bordadeiras que atuam na praça e tiveram trabalhos expostos está Maria Tereza Cardía, que compartilhou com o Ciclo Vivo como a experiência na roda de bordados a aproximou da natureza e ampliou sua percepção sobre o futuro. “Fomos convidadas a caminhar pela praça para escolher algo para desenhar e depois bordar. De repente, me vi observando tudo ao meu redor com uma atenção diferente. Hoje compreendo que esse convívio mais próximo com a vegetação e pequenos animais me infunde esperança e confiança de que a regeneração é possível!”.

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Zurciendo em outras COPs

Belém não será palco da estreia do projeto de bordados em COPs. Dora e Suzana estiveram em Glasgow, na Escócia, sede da COP26, no ano de 2021. Para essa ocasião, elas levaram 157 painéis que compunham o “Bosque da Esperança”, um compilado de árvores “afetivas” desenhadas em linha por pessoas que retrataram a sua conexão com alguma espécie vegetal nos tecidos usados.

Dora contou que decidiram ir porque “era importante explorar essa possibilidade de provarem-se como cidadãs artivistas e contribuírem com aquele cenário de diplomacia multilateral”. Mas as expectativas foram um tanto quanto frustradas. O acesso às zonas verde e azul, onde decisões e negociações acontecem, é de difícil entrada, então o Zurciendo circulou pelos entornos, formando paisagem nas ruas da cidade e somando na tradicional Marcha que reúne coletivos e sociedade civil em um dos sábados do evento.

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Na COP30, os painéis serão expostos durante a Cúpula dos Povos, que acontece de hoje (12) a 16 de novembro na Universidade Federal do Pará. A Cúpula é um espaço de articulação da sociedade civil e reúne movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e outras organizações para atuar como um contraponto às agendas institucionais. Seu objetivo é dar visibilidade a pautas de justiça social e ambiental, defender o direito à autodeterminação dos povos e denunciar projetos que consideram incompatíveis com a preservação ambiental e a justiça climática.

Silvia Susana Fernandez (à esquerda) e Dora Napolitano (à direita) apresentando os paineis que irão à Belém na exposição do Sesc Vila Mariana. Foto: Carolina Conti | Ciclo Vivo

Conexão com a natureza, um pedaço de tecido e vontade

O Zurciendo el Planeta teve início na pandemia, na clausura por conta do vírus. Algumas mulheres, que se conheceram em cursos online de costuras ecológicas, começaram a se questionar sobre como extrapolar os limites da tela e agir em prol da vida quando o isolamento acabasse.

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A primeira articulação se deu via WhatsApp, com conversas sobre possibilidades, e como o que estavam fazendo dizia respeito a bordado e meio ambiente, elas decidiram agir através do artivismo. O primeiro caminho escolhido foi o de imaginar e tecer futuros desejados. “Para se fazer algo, primeiro se imagina esse algo”, disse Dora, então as tramas correram nesse sentido.

Depois, surgiu o Bosque da Esperança, que compõe o imaginário conectando um elemento afetivo a uma mensagem que se deseja implantar como valor para o planeta, é uma tessitura que nivela os tempos. Com o passar dos anos, naturalmente, foram brotando nos panos: protestos, homenagens (como a árvore da memória, um registro às mortes de ativistas ambientais e que foi exposta no Dia dos Mortos na Cidade do México), figuras míticas reveladoras do universo espiritual e cultural dos variados territórios, dentre outros elementos.

Enquanto organização horizontal, o projeto não tem líder e o direcionamento das atividades, a menos que haja um projeto comum como o da COP, é livre. Para participar, bastam: conexão com a natureza, um pedaço de tecido usado e vontade. Por meio de rifas e ajudas de amigos, Dora e Suzana já viajaram o mundo conhecendo rodas de bordado que hoje estarão representadas por meio de painéis na cidade de Belém. Para esta viagem, em que Priscila se soma, elas também contaram com ajuda. “É um esforço voluntário”, compartilham.

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Foto: Carolina Conti | Ciclo Vivo

Fazer parte é uma forma de esperançar a vida

“Nós estamos convencidas de que as mudanças vêm de baixo, se as pessoas acreditam que nada pode ser feito, então estamos paralisados. Quando nos voltamos a inspirar, retomamos a esperança e começamos a atuar, essa ação coletiva é a que vai fazer a mudança”, comenta Dora. Para ela, integrar o coletivo transformou a sua relação com o bairro onde mora, sobretudo no sentido de pôr mais atenção à natureza que a rodeia.

Para Suzana, o que as companheiras dizem dos seus territórios é o que mais a inspira. “Somos muitas resistindo e isso precisa ser sabido”. O trabalho coletivo afeta de diferentes maneiras, Já Priscila, revela que as rodas a ajudaram a desacelerar, observar os ciclos. “Hoje eu vejo a natureza como uma grande professora.”

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Depois da COP em Belém, os painéis serão divididos e ficarão espalhados pelo mundo com exposições locais em diferentes países onde as rodas acontecem. Ainda não há definição do lugar que sediará parte do acervo no Brasil.