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Xingu na mídia: quando o hype encontra a regeneração

Anitta no Kuarup, guardiões da floresta e a maior rede de sementes do país. Por trás dos holofotes, o que pode definir o futuro do Brasil.

Published 26/08/2025
Rede de sementes do Xingu

Jovens da Rede de Sementes do Xingu. Foto: Vivi Noda

A primeira vez que ouvi falar no Xingu, senti que era um nome que carregava potência. Sabe quando você olha para alguém confiante e sente, no jeito, que existe uma força ali? Foi essa a minha primeira impressão.

Mas, naquele momento, eu não sabia se era um povo, uma aldeia, um rio ou uma região inteira. Só sabia que, sempre que alguém pronunciava XIN-GU, havia uma reverência no tom.

Fui pra casa, pesquisei… e descobri que é simplesmente a maior reserva de terra indígena do mundo, no coração do Mato Grosso, contrastando brutalmente com monoculturas que a cercam. As imagens são chocantes.

Quanto mais eu lia, mais entendia que o Xingu não é só floresta: é memória viva, é cultura pulsando, é resistência.

Jepi Kaiulu Kalapalo brinca alegremente com borboletas em frente à sua casa na Aldeia Kalapalo, Terra Indígena do Xingu. Foto: Tauana Kalapalo | 2016

Foi o primeiro território indígena demarcado do Brasil, lá em 1961, reunindo 16 povos que há séculos cuidam desse solo. Eu adoraria te contar que, desde então, tudo seguiu em paz, mas infelizmente, não foi assim.

Entre 2018 e 2023, 12,7 mil hectares foram abertos para garimpo, sendo 82% dentro de áreas protegidas. Em apenas cinco anos, o garimpo destruiu mais do que nos trinta anos anteriores. Lembro de assistir a uma palestra do cacique Raoni ao lado do Sebastião Salgado, denunciando o avanço ilegal, eu estava acompanhando uma pré adolescente que estava interessada no assunto, e senti um nó na garganta imaginando o terror que é tomar consciência ainda tão jovem.

E aí vem um Plot Twist!

Corta para agosto de 2025: Anitta e Luciano Huck aparecem no Xingu e colocam o território nos holofotes!

Luta huka huka durante Kuarup, em 2019. Foto: Hilda Azevedo | Funai

Os dois participam do Kuarup, um dos rituais mais importantes da região, quando os povos celebram a memória dos que já partiram. No dia seguinte, as buscas no Google por “Povos Indígenas” cresceram 6.200% em 24 horas e as pesquisas sobre o Xingu dispararam 450%.

O Xingu está “hype”? Talvez. Mas isso vai muito além do algoritmo: o que acontece ali define o futuro da regeneração no Brasil e, quem sabe, do mundo.

Foi nesse contexto que, em julho, eu tive o privilégio de viver uma das experiências mais intensas da minha vida. Fui convidada pelo Paulo Sammarco, da Oika Socioambiental, para facilitar o Encontro de Jovens da Rede de Sementes do Xingu.

Saí de São Paulo e, depois de quinze horas de viagem, cheguei em Nova Xavantina (MT), onde o calorão se ameniza com o grande Rio das Mortes que cruza a cidade e levanta curiosidade sobre sua história, aliás, o nome é um pouco assustador.

Renato, Arthur, Paulo, Lia e Viviane, facilitadores do encontro. Foto: Arquivo Pessoal

Absolutamente ao contrário da morte, ali começava uma jornada de vida, de jovens e de regeneração.

Eram sete da manhã, cafézinho já tomado, 30 jovens em roda com olhares tímidos e curiosos sobre o que aconteceria nos próximos, muitos tiveram uma longa viagem de barcos, ônibus, ou caronas para chegar ali. Jovens que vinham representar seu povo, seus assentamentos ou comunidades.

Quando olhei cada jovem, senti que eles são sérios, diferente dos jovens de quando eu tinha aquela idade. Sorte a minha ter escolhido uma profissão que me levou até eles.

Mais de uma década trabalhando com regeneração, e ali estava eu, diante de uma nova geração de guardiões da floresta. Disse a eles:  “É um sonho estar aqui. Vocês representam a esperança e o exemplo de diversas populações que acreditam que outro futuro é possível.”

Jovens da Rede de Sementes do Xingu. Foto: Lia Rezende Domingues

O encontro foi um mergulho em sonhos, e medos.

Foram três dias de conversas, risadas, músicas e trocas de saberes. Entendi logo que o que move aqueles jovens está enraizado em duas forças que se entrelaçam.

Primeiro, o respeito profundo pelos mais antigos, que sempre coletaram sementes para plantar, fazer artesanato ou vender. Existe uma sabedoria que atravessa gerações e que não cabe em livros: um jeito de se relacionar com a floresta com camadas profundas. E, ao mesmo tempo, percebi neles uma urgência visceral: uma necessidade de proteger os territórios, a língua, os alimentos, as tradições. Como se cada um carregasse nas mãos uma bola de chumbo, um peso da responsabilidade de proteger tudo o que conhecem para um futuro digno.

Jovem indígena da Rede de Sementes do Xingu. Foto: Vivi Noda

Em um dos exercícios mais bonitos, pedi que imaginassem a manchete que gostariam de ler sobre si mesmos daqui a cinco anos. As respostas foram unânimes: toneladas de sementes coletadas, milhares de hectares restaurados, seus povos vivendo em harmonia. Sonhos grandes, que cabem em poucas palavras, mas que nascem de uma coragem silenciosa. E então, no meio dessas trocas, a Milene, que atua na Rede de Sementes do Xingu, disse algo que ficou gravado em mim:

“Todo mundo consegue contar as sementes de um fruto.
 Mas ninguém consegue contar os frutos de uma semente.”

É bonito, né?

Regenerar é isso: é aceitar que cada semente carrega infinitos futuros, que o impacto do que fazemos hoje se espalha por caminhos que nem sempre conseguimos medir. É plantar sabendo que o amanhã pode ser maior do que qualquer planilha consegue prever.

Atividade realizada durante o encontro dos jovens. Foto: Milene Alves

A Rede de Sementes do Xingu é uma prova viva disso. Criada pelos próprios coletores e coletoras da região, ela já mobilizou mais de 700 pessoas, comercializou 390 toneladas de sementes de mais de 220 espécies nativas, ajudando a restaurar cerca de 10.800 hectares de floresta e distribuindo R$ 8,5 milhões em renda. É a regeneração acontecendo no chão e nas relações, conectando comunidades, fortalecendo culturas e criando caminhos para o futuro.

Por isso, conhecer a Rede vale cada minuto, cada conversa, cada história. São iniciativas como essa que precisamos exaltar, apoiar e ter orgulho. No meio de tantos ataques aos territórios, de tanta devastação, há sementes de esperança germinando, e cabe a nós, fazer do hype, uma oportunidade de multiplicar esses tesouros brasileiros.

Vivi Noda durante encontro de jovens da Rede de Sementes do Xingu. Foto: Milene Alves

Fica aqui o convite para assistir a palestra “Fortalecendo Territórios: A Rede de Sementes do Xingu como Modelo de Regeneração” com Milene Alves durante a Semana de Inovação da ENAP no dia 30 de Setembro, às 11h da manhã em Brasília. A atividade faz parte da minha curadoria para o evento, que é aberto ao público.

Para ler o artigo completo, clique AQUI.

Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
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