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A arquitetura invisível da reciclagem

Como construir uma cadeia que gere valor para que a inclusão deixe de depender da precariedade e passe a se sustentar pelo desenvolvimento?

catafolia catadores carnaval
Foto: Marcos Godoy

Durante décadas, aprendemos a reconhecer os catadores como protagonistas da reciclagem brasileira. Esse reconhecimento é justo. Mais do que isso, é necessário. Afinal, sem o trabalho de milhares de homens e mulheres que, por necessidade ou falta de alternativas, encontraram nos resíduos uma forma de sustento, dificilmente o Brasil teria alcançado os níveis de recuperação de materiais que possui hoje.

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Existe uma dívida histórica com essas pessoas. Durante muito tempo, quando praticamente inexistiam políticas públicas estruturadas, investimentos consistentes ou interesse econômico suficiente para desenvolver a reciclagem, foram elas que mantiveram essa atividade viva.

Mas esse reconhecimento também revela uma das maiores contradições da economia circular brasileira.

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pimp my carroça danone
Carroça “pimpada” pela artista urbana Mariana Calle. Foto: Natasha Olsen

Os catadores não se tornaram protagonistas porque planejamos uma logística reversa eficiente, estruturada e inclusiva. Tornaram-se protagonistas porque, ao longo das últimas décadas, a recuperação de materiais encontrou na vulnerabilidade socioeconômica uma forma de compensar a ausência de uma infraestrutura capaz de operar com escala, produtividade e capacidade de transformação.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo a ABRELPE (2025), o Brasil gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Apenas cerca de 8,7% dos resíduos secos retornam à reciclagem. Mais da metade desse fluxo chega às cadeias de valorização pelas mãos dos catadores, e não por sistemas estruturados de coleta seletiva. Mesmo assim, uma parcela significativa desse material ainda se perde durante a triagem em razão da contaminação, da baixa qualidade da separação na origem e das limitações operacionais da própria estrutura de recuperação.

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Esses dados revelam duas verdades que convivem lado a lado. A primeira é que os catadores continuam sendo indispensáveis para a reciclagem brasileira. A segunda é que seguimos atribuindo a esse elo uma responsabilidade muito maior do que a capacidade estrutural que lhe oferecemos.

É nesse ponto que começa uma reflexão ainda pouco explorada. Durante anos, celebramos a capacidade de inclusão da reciclagem. Entretanto, dedicamos menos atenção a uma pergunta fundamental: essa inclusão tem sido capaz de promover desenvolvimento para a cadeia e para as pessoas que dela dependem?

Porque gerar renda não significa, necessariamente, gerar valor.

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catador de recicláveis
Foto: Pimp My Carroça

Essa distinção parece sutil, mas muda completamente a forma como compreendemos o problema. Uma atividade pode gerar renda e, ainda assim, produzir pouco valor econômico, baixa capacidade de investimento, reduzida inovação e limitadas oportunidades de desenvolvimento. Quando isso acontece, o sistema continua funcionando, mas encontra dificuldade para evoluir.

Não se trata de uma crítica aos catadores ou às cooperativas, tampouco de questionar a importância da inclusão social construída nas últimas décadas. O convite é outro: observar a arquitetura da cadeia que construímos e perguntar se ela possui capacidade para sustentar o futuro da economia circular.

Nas colunas anteriores refletimos como os aterros sanitários podem produzir efeitos rebote, como os incentivos econômicos moldam o comportamento dos sistemas e por que a reciclagem precisa tornar-se competitiva para disputar espaço com o aterramento.

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Esse percurso nos conduz agora a um novo ponto de observação. Produzimos resíduos em escala industrial. Porém, ainda tentamos recuperar boa parte deles por meio de uma logística reversa que, em muitos territórios, permanece organizada segundo uma lógica predominantemente artesanal.

De um lado, fábricas altamente automatizadas produzem milhões de embalagens utilizando inteligência logística, robótica, ciência de materiais e sofisticados sistemas de gestão. Do outro, uma parcela importante dessa mesma estrutura continua dependendo de carrinhos tracionados pela força humana, infraestrutura limitada e processos essencialmente manuais para recuperar essas embalagens depois do consumo.

Pelas leis mais básicas da física, essa conta dificilmente poderia fechar.

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Continuamos desenvolvendo a primeira metade dessa cadeia com a lógica produtiva do século XXI, enquanto naturalizamos que a segunda metade opere, em grande medida, segundo estruturas que pouco evoluíram nas últimas décadas. Essa assimetria ajuda a explicar por que a economia circular avança em ritmo inferior à nossa necessidade e ao seu potencial.

economia circular
Economia Circular. Fonte: Fundação Ellen MacArthur

Também ajuda a compreender por que tantas discussões permanecem concentradas nos efeitos, enquanto as causas seguem praticamente invisíveis. Quando observamos essa arquitetura com mais atenção, percebemos que o principal desafio da reciclagem brasileira não está apenas em ampliar a conscientização da população, fortalecer isoladamente um elo específico ou aumentar o número de organizações envolvidas na coleta e na triagem.

O desafio está em construir uma cadeia capaz de gerar muito mais valor do que gera hoje. Essa mudança de perspectiva altera completamente o foco da discussão.

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Quando a coleta e a triagem operam com baixa capacidade de geração de valor, recuperam menos materiais, oferecem menor previsibilidade para a indústria, dificultam investimentos, reduzem a qualidade das matérias-primas secundárias e limitam o surgimento de novas rotas de valorização.

O problema, portanto, não começa nem termina na coleta. Ele percorre toda a cadeia.

Cada limitação presente nos primeiros elos reduz a capacidade de desenvolvimento dos elos seguintes. Em resposta, o sistema reorganiza suas relações para continuar funcionando: a indústria adapta suas estratégias de suprimento; os municípios ampliam os gastos com aterramento; os catadores absorvem parte das ineficiências operacionais; e a reciclagem continua crescendo em velocidade inferior à necessidade imposta pela própria geração de resíduos e ao seu potencial de transformação. O resultado é uma perda dupla: desperdiçamos valor econômico e retardamos a evolução ambiental e social da própria cadeia.

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coleta de garrafas no carnaval de salvador
Foto: Mateus Fernandes

O sistema encontra um ponto de equilíbrio. Mas equilíbrio não significa desenvolvimento e menos ainda o encaminhamento de soluções mais efetivas para o problema. Essa talvez seja uma das características mais marcantes da economia circular brasileira.

Ao longo das últimas décadas avançamos significativamente em legislação, reconhecimento institucional, logística reversa e inclusão dos catadores. São conquistas importantes e irreversíveis.

Ao mesmo tempo, dedicamos menos energia à transformação estrutural da capacidade produtiva da própria cadeia. Protegemos pessoas, e isso era indispensável. Agora precisamos transformar o sistema que sustenta essas pessoas. Essa diferença muda completamente a agenda da discussão.

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Durante muito tempo perguntamos como tornar a reciclagem mais inclusiva. Hoje, outra pergunta passa a orientar esse debate: como construir uma cadeia capaz de gerar valor suficiente para que a inclusão deixe de depender da precariedade e passe a se sustentar pelo desenvolvimento?

mapa da reciclagem
Imagem: Arquivo pessoal | Fabiano Rangel

Essa mudança também supera uma falsa oposição que frequentemente domina esse tema. Não estamos diante de uma escolha entre pessoas ou tecnologia; nem entre cooperativas ou empresas; muito menos entre mecanização ou inclusão social.

Uma economia circular madura exigirá cooperativas fortalecidas, empreendimentos privados, operadores logísticos, centrais de triagem, soluções tecnológicas, inovação, políticas públicas e novos modelos de negócio atuando de forma complementar.

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O desafio não está em escolher um desses caminhos. Está em compreender como conectá-los em uma arquitetura capaz de ampliar simultaneamente geração de valor, competitividade, inovação, desenvolvimento humano e benefícios ambientais.

Sob essa perspectiva, a pergunta deixa de ser quem faz a reciclagem. Passa a ser como organizamos essa estrutura para recuperar mais materiais, produzir mais riqueza, distribuir melhor esse valor e criar condições para que ela financie continuamente sua própria evolução.

reciclagem catadores natura
Cooperativa Vira-Lata. Foto: Matheus Gondias

Essa é, provavelmente, a transição mais profunda que ainda temos pela frente. Ela vai além da necessária substituição da lógica linear por uma economia circular. Exige, simultaneamente, transformar uma atividade que historicamente garantiu sobrevivência para milhões de brasileiros em uma cadeia capaz de produzir desenvolvimento para toda a sociedade.

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Nenhuma cadeia produtiva prosperou sustentando sua competitividade sobre uma baixa capacidade de geração de valor. A economia circular dificilmente será a primeira.

Quando estuamos o tema por esse ângulo, percebemos que o desafio da próxima década não será apenas reciclar mais resíduos. Será construir uma arquitetura capaz de transformar resíduos em riqueza, inovação, trabalho qualificado, desenvolvimento e inclusão.

Sistemas complexos não mudam apenas quando corrigem seus efeitos. Eles mudam quando transformam a arquitetura que produz esses efeitos. Não seria, justamente essa a arquitetura invisível da reciclagem que ainda precisamos construir.

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Colunista Fabiano Rangel
Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.