Evento em SP discute economia urbana regenerativa
Professor Jay Tompt promove conversa em São Paulo e reforça o território como base para uma economia urbana regenerativa
Professor Jay Tompt promove conversa em São Paulo e reforça o território como base para uma economia urbana regenerativa
São Paulo sediou, no último dia 27, um encontro que posicionou o território no centro de um debate urgente: o potencial da economia regenerativa para redesenhar cidades, restaurar ecossistemas e fortalecer vínculos comunitários. A discussão foi provocada pelo professor Jay Tompt, uma das principais referências globais no tema, dentro da Jornada de Economias que Afirmam a Vida, organizada pela Umma Hub.
Pela manhã, ele participou de um café na base da Ago Social. À noite, a aula aberta na Escola da Cidade costurou diferentes escalas de transformação urbana sob o fio condutor do tema “Economias que afirmam a vida e seu reflexo no redesenho e transformação do território”, em uma conversa conduzida por Lara Freitas, cofundadora do Programa Permanente Ecobairro Brasil e integrante do Umma, e por Luís Octávio de Faria e Silva, coordenador da pós-graduação Habitação e Cidade da Escola da Cidade.

A trajetória que levou Jay até onde ele está hoje cruza mundos que raramente dialogam com tanta naturalidade. Nascido na Califórnia e hoje radicado na Inglaterra, ele estudou filosofia e economia, empreendeu no ecossistema de startups do Vale do Silício e, há mais de uma década, mergulha em economias comunitárias vivas. A virada pessoal que conduziu a essa mudança de rota e de escala aconteceu no mesmo ano em que a filha nasceu e George W. Bush foi eleito. A pergunta que o atravessou naquela fase era norteou a virada de chave: “O que fiz até aqui?”.
Foi a partir desse ponto que a mudança veio em bloco — chão, comunidade, pertencimento e território como lente para repensar a própria lógica econômica. Sua fala nos encontros da semana passada ecoou o princípio que orienta o Schumacher College, onde leciona, e que bebe em fontes como a da Teoria de Gaia, da Ecologia Profunda, da Fenomenologia e também tem base contemporânea no encontro com o pensamento da economista Kate Raworth. Nesse contexto acadêmico e biorregional do interior inglês, a Schumacher ensina a força das perguntas como tecnologia de transformação — não apenas para reduzir impacto, mas para ampliar bem-estar individual e coletivo.
O que existe e pode servir de exemplo?
Na aula noite, o professor apontou cidades que traduzem, na prática, esse deslocamento do pensamento mecanicista para uma lógica orgânica e comunitária. Barcelona é um exemplo ao surgir como marco histórico e contemporâneo de convergência entre política, commons e vitalidade urbana. A atual prefeita, que atuou com famílias despejadas na crise europeia de 2011, conduziu um amplo processo de retrofit urbano, ampliando quadras conviviais e planejando áreas de encontro como resposta sistêmica à fragmentação social e à violência.
Nesse redesenho, o cuidado deixou de ser acessório, tornando-se centro ético da gestão pública, impulsionado também por uma feminização da política ancorada no ecofeminismo. Para Jay, a resiliência urbana aparece no momento em que a cidade privilegia laços e presença cívica: “Quando as pessoas se conhecem, isso traz resiliência. Em municípios que sofrem mais com as ondas de calor, mas que têm vida nas ruas, as pessoas são mais saudáveis”. Mais do que arquitetura, a vitalidade desses espaços públicos, segundo ele, é infraestrutura de saúde pública, climática e ecológica, onde a saúde urbana e a saúde do planeta se tornam indicadores inseparáveis.
Amsterdã também foi mencionada. Ali, moradia, energia e alimentação são geridas como bens comuns por iniciativas cívicas autônomas, apoiadas por redes como a Commons Network e a The Commons Conservancy, que atuam na convergência. Essa teia dialoga com o Biorregionalismo resgatado por Jay como paradigma de liberdade interdependente, que enxerga a vida humana em harmonia com rios, montanhas, fauna, flora e além. “Biorregionalismo não é só saber o nome das plantas e animais, mas compreender a psiqué deles”, afirmou, sustentando que pertencimento também é história e ancestralidade: um “interesse por quem viveu antes ali”, uma arqueologia viva que confere densidade, memória coletiva e profundidade ao compromisso territorial.

Crescer é decrescer
O diagnóstico crítico exposto pelo professor trouxe consigo diretrizes e ruptura. Segundo os relatórios mais recentes do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), o crescimento verde linear não é suficiente se não considerarmos ciclos completos de produção, extração e degradação. “Antes, havia margem de impacto, agora ela se esgotou”.
Nesse sentido, Jay também mencionou o decrescimento como projeto a se considerar: trata-se de uma contração planejada da economia global, com foco em bem-estar e justiça social. O movimento inclui o cancelamento de dívidas de países de baixa renda, a promoção da durabilidade de produtos e a redistribuição de investimentos para setores regenerativos e empregos verdes, rompendo com indústrias de alto impacto como a fast fashion ou a carne produzida em larga escala pela indústria. Essas escolhas, segundo Jay, não desenham recessão não planejada, mas sim uma nova régua ética da prosperidade, onde prosperar significa impactar menos e regenerar mais.
O encontro terminou reforçando que a mudança começa na escala local. Lara Freitas destacou que a inovação também pode nascer do resgate: “Às vezes, o novo é a revisão do passado.” Ao reconhecer a resiliência do sistema atual — “Sabemos que o sistema é resiliente” — ela defendeu abordagens práticas, com a permacultura como referência ética para transformar intenção em ação. A mensagem final foi objetiva: “Fazemos até onde a nossa mão alcança — é esse o tamanho da nossa ação.” A fala sintetizou o consenso da noite: a regeneração urbana depende menos de discursos amplos e mais de ações ancoradas no território, capazes de conectar comunidades e apoiar políticas públicas centradas no cuidado e nos bens comuns.