Cidades mais resilientes às mudanças climáticas
Estudo apresenta cinco estratégias fundamentais para fortalecer a capacidade de adaptação das cidades diante dos impactos do clima
Estudo apresenta cinco estratégias fundamentais para fortalecer a capacidade de adaptação das cidades diante dos impactos do clima
Um novo estudo publicado no portal de divulgação científica The Conversation apresenta cinco formas pelas quais as cidades podem se preparar melhor e fortalecer sua resiliência frente às mudanças climáticas, por meio de uma adaptação progressiva.
Segundo a publicação, sociedades, economias e ecossistemas em todo o mundo enfrentam a ameaça iminente de um colapso climático. No entanto, de acordo com o que a ONU denomina “lacuna de adaptação”, muitos países e cidades permanecem despreparados para lidar com a situação.
“Construir resiliência climática é notoriamente difícil. Barreiras econômicas limitam o investimento em infraestrutura e tecnologia. As desigualdades sociais enfraquecem a capacidade de adaptação das populações vulneráveis. E políticas inconsistentes dificultam esforços coordenados entre setores e em larga escala”, afirmou Paul O’Hare, professor de geografia humana e desenvolvimento urbano na Universidade Metropolitana de Manchester, na Inglaterra.
O’Hare identificou cinco estratégias que podem tornar as cidades mais eficazes e progressivas na adaptação às mudanças climáticas.

A primeira delas é evitar simplesmente “retornar ao normal” após uma crise. Segundo O’Hare, diante de desastres naturais como tempestades, inundações e incêndios florestais, os governos tendem a focar na reconstrução rápida. “Embora compreensível, resiliência não significa apenas reagir aos impactos das mudanças climáticas. Em vez de ‘voltar’ ao cenário anterior ao desastre, os responsáveis devem promover uma ‘recuperação’ que construa lugares menos vulneráveis desde o início”, explicou.
A segunda estratégia envolve ser “informado pelo risco”. “É difícil prever as consequências de uma crise, já que as cidades são ambientes complexos e interconectados. Os riscos transfronteiriços — aqueles cujos efeitos se espalham para além do ponto inicial — precisam ser considerados”, escreveu O’Hare. Ele destacou que os planos mais eficazes de adaptação climática são holísticos, adaptados ao contexto específico de cada local e abrangentes em relação à sociedade como um todo.
Avaliações de risco devem levar em conta tanto fatores climáticos quanto não climáticos. “Muitas análises ainda têm escopo limitado. Mas há aquelas que reconhecem como a infraestrutura envelhecida e a pressão por desenvolvimento urbano para abrigar populações crescentes elevam o risco de inundações urbanas. Outras, como o plano de risco climático recentemente publicado em Cambridge, mostram como o risco climático se entrelaça com os diversos serviços oferecidos pelos governos locais”, detalhou o professor.
Ele defende o uso do “pensamento sistêmico”, que considera os problemas dentro de sistemas maiores e interligados, para identificar fatores de mudança interdependentes. “Boas avaliações de risco consideram dados demográficos, perfis etários e condições socioeconômicas de bairros, possibilitando apoio direcionado a comunidades mais vulneráveis. Isso pode contribuir para que populações e sistemas se ajustem aos desafios em constante mudança das mudanças climáticas e da própria sociedade ao longo do tempo”, afirmou.
A terceira estratégia é promover “ação transformadora”. “Não existe desastre natural. Os impactos de eventos como inundações e terremotos são moldados por condições sociais e econômicas pré-existentes, muitas vezes crônicas, como pobreza ou moradias inadequadas”, explicou O’Hare.

Ele acrescentou que a resiliência climática progressiva busca ir além dos impactos imediatos e abordar as raízes da desigualdade e da vulnerabilidade. “Isso permite que a sociedade não só esteja mais preparada para eventos adversos, mas também prospere diante da incerteza”, disse.
A quarta recomendação de O’Hare é adotar “abordagens coletivas”. “A resiliência climática eficaz exige ação conjunta. Conhecida também como abordagem de ‘toda a sociedade’, envolve colaboração e responsabilidade compartilhada para lidar com os desafios multifacetados de um clima em transformação”.
Segundo ele, as iniciativas de maior sucesso consideram riscos amplos e de longo prazo, evitando abordagens centradas apenas na autoproteção de cidades, edifícios e indivíduos. “Empreendimentos que não enfrentam riscos significativos ainda assim devem incluir medidas de adaptação, como sistemas de captação de água da chuva ou mais áreas verdes, ajudando a reduzir o risco climático geral de uma cidade e beneficiando comunidades locais e regiões vizinhas”, explicou.
“Assim, a resiliência progressiva deve ser conectada, abrangente e inclusiva. A solidariedade é essencial: ela mobiliza recursos para lidar com desafios comuns e promove um senso de propósito coletivo e apoio mútuo.”
A quinta e última estratégia, que O’Hare considera a mais eficaz, é explorar os cobenefícios, isto é, gerar ganhos adicionais por meio de ações e políticas que reduzam a vulnerabilidade aos choques climáticos enquanto enfrentam outros desafios sociais e ambientais. As Nações Unidas chamam isso de “dividendos de resiliência múltipla”.
“No norte da Europa, por exemplo, a restauração de charnecas pode ajudar a reter água, atenuando inundações a jusante, ao mesmo tempo que captura carbono e fornece habitats essenciais à biodiversidade”, escreveu O’Hare.

“No sudeste asiático, paineis solares instalados em reservatórios geram energia renovável para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, enquanto fornecem sombra para diminuir a evaporação e preservar os recursos hídricos durante as secas.”
Ele ressaltou que, embora a adaptação seja vital no enfrentamento das mudanças climáticas, “o verdadeiro desafio está em enfrentar seus impactos ao mesmo tempo em que se constroem comunidades mais justas, saudáveis e preparadas para todo tipo de risco futuro”.
O estudo, intitulado Não ‘apenas’ adaptação climática — rumo à resiliência urbana progressiva, foi publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications.
“O colapso climático representa ameaças imensas — e potencialmente existenciais — às economias, sociedades e ecossistemas globais. A mitigação deve ser buscada com urgência. No entanto, diante do consenso sobre a inevitabilidade das mudanças climáticas e das previsões sombrias quanto aos seus impactos, a adaptação tornou-se uma urgência”, concluiu O’Hare.