Em 6 de dezembro de 1989, um homem chamado Marc Lépine entrou com um rifle em uma escola de engenharia em Montreal, no Canadá. Ele matou 14 mulheres, feriu outras 13 pessoas e, em seguida, se suicidou, deixando uma carta contra o feminismo. Décadas depois, a memória do massacre, que provocou enorme comoção nacional, está agora marcada em praça pública, mais exatamente na Place des Montréalaises.
Projetada pelo escritório de arquitetura Lemay, em colaboração com a artista Angela Silver e a equipe de engenharia da AtkinsRéalis, a praça “inscreve a memória de mulheres excepcionais na paisagem urbana”, como afirmam os desenvolvedores. O local homenageia as 14 vítimas do feminicídio de 89 e ainda outras sete mulheres históricas do país, especialmente nas áreas de direitos das mulheres, ciência, educação e assistência social.
Localizada no bairro de Ville-Marie, a praça conecta o centro da cidade à Velha Montreal por meio de uma passagem para pedestres com acessibilidade. O espaço público foi projetado junto à estação de metrô Champ-de-Mars e inaugurado em maio de 2025, após vencer um concurso de arquitetura paisagística lançado pela prefeitura em 2017.
O conceito do projeto ainda dialoga com grandes painéis de vitral da obra La verrière, da artista Marcelle Ferron, que adornam três fachadas da estação de metrô Champ-de-Mars, bem como com a Place Marie-Josèphe-Angélique, redesenhada em 2025 como parte do projeto.
Uma praça multiuso
Para além de um memorial, o local fornece um caminho universalmente acessível e contribui para a biodiversidade urbana. Isso porque foram plantadas 21 espécies reunidas em 86 grupos de plantio que evoluem ao longo das estações.
Uma escadaria dá acesso ao prado florido e convida à contemplação. Servindo também como assento, oferece uma perspectiva privilegiada da cidade, dos vitrais da estação de metrô e da animação da praça, onde apresentações artísticas programadas e espontâneas, encontros públicos e eventos culturais acontecem desde a sua inauguração.
O projeto adota uma abordagem transdisciplinar: arquitetura, arquitetura paisagística, intervenção artística e engenharia foram integradas em cada decisão. A floresta urbana, ao norte da praça, exemplifica isso: plantada sobre túneis ferroviários e múltiplos sistemas de infraestrutura, oferece uma zona de transição tranquila na entrada do local. A seleção de espécies de acordo com características funcionais e proporções precisas permitiu a composição de um conjunto resiliente, adaptado a profundidades de solo limitadas e que oferece o máximo de benefícios ecossistêmicos. Mais de 50% do local é vegetado por meio dessa abordagem.
Outro destaque é o espelho cilíndrico que ergue-se perto da entrada do metrô. Inscritos em toda a sua superfície estão os nomes das mulheres homenageadas, com letras que se fragmentam pela paisagem e se dispersam do espelho até a escadaria. A ideia do trabalho é que quem passa pelo local possa rearranjar essas letras para compor infinitas variações dos nomes das mulheres, garantindo que elas jamais sejam esquecidas.
Segundo o escritório da Lemay, desde a sua inauguração na primavera de 2025, a Place des Montréalaises tornou-se rapidamente um destino querido tanto por moradores locais quanto por turistas, que circulam, se reúnem e permanecem ali. “A praça agora se destaca como um novo local emblemático em Montreal e um símbolo duradouro de memória viva”, descreve.
Feminicídio da École Polytechnique
Marc Lépine, nascido Gamil Rodrigue Liass Gharbi, tinha um histórico de isolamento social e ressentimento contra mulheres. Anos antes do ataque, havia tentado ingressar na própria École Polytechnique, mas foi rejeitado. Antes de cometer o massacre, Lépine deixou uma carta de suicídio na qual culpava feministas por “arruinarem sua vida”, afirmava estar “combatendo o feminismo” e listava 19 mulheres canadenses que considerava inimigas, incluindo jornalistas, ativistas e políticas. Esse documento foi essencial para que o ataque fosse interpretado como violência ideológica de gênero.
O massacre gerou importantes mudanças políticas e sociais no Canadá: em 6 de dezembro passou a ser comemorado o National Day of Remembrance and Action on Violence Against Women, surgiu a White Ribbon Campaign, movimento global de homens contra violência de gênero, e houve pressão que contribuiu para a aprovação da Firearms Act, reforçando o registro e o controle de armas no país. Pesquisadores citam o caso como exemplo precoce de misoginia radicalizada, fenômeno que hoje se manifesta em subculturas online extremistas, como grupos incel.
Em memória das mulheres canadenses
A Place des Montréalaises homenageia 21 mulheres. São elas as 14 vítimas do feminicídio da École Polytechnique: Geneviève Bergeron, Hélène Colgan, Nathalie Croteau, Barbara Daigneault, Anne-Marie Edward, Maud Haviernick, Barbara Klucznik-Widajewicz, Maryse Laganière, Maryse Leclair, Anne-Marie Lemay, Sonia Pelletier, Michèle Richard, Annie St-Arneault e Annie Turcotte. Também são homenageadas as 7 pioneiras de Montreal: Myra Cree, Jessie Maxwell-Smith, Agnès Vautier, Ida Roth Steinberg, Idola Saint-Jean, Harriet Brooks e Jeanne Mance.

