Saúde pública é considerado um dos maiores problemas do Brasil, segundo um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado na última segunda-feira (2). Melhorar o acesso à saúde de qualidade passa por diversos caminhos e um deles, certamente, é garantir alimentação saudável à população, sobretudo a mais vulnerável. É neste sentido que um projeto de revitalização na periferia do Equador se destaca. Apelidado de “beco sustentável”, a iniciativa introduziu hortas comunitárias orgânicas, entre outras ações, para melhorar a qualidade de vida local.
Ter fácil acesso a alimentos frescos e livres de agrotóxicos tornou-se quase impossível no contexto urbano. O custo da produção orgânica é tão alto que dificilmente é vendido nos mercados e sacolões das periferias. Em contraposição a este cenário, o cultivo de hortas tem sido mais comum. No caso do “beco sustentável”, o plantio urbano se soma a um sistema de captação e filtragem de água da chuva e técnicas de regeneração do solo para combater a erosão em terrenos inclinados.
Tais iniciativas foram introduzidas pelos moradores do bairro de Guápulo, em Quito. As moradias autoconstruídas, passagens irregulares e adensamento não planejado criam um cenário familiar aos brasileiros. Mas, antes onde se via somente construções precárias, hoje é palco de um laboratório de soluções ecológicas, sendo o primeiro projeto piloto de bairro sustentável da cidade.
“Este piloto demonstra que qualquer comunidade, independentemente da classe social, pode adotar estratégias passivas para a sustentabilidade. Além disso, o projeto promove o desenvolvimento econômico local por meio da geração de produtos na vizinhança, hortas urbanas, estratégias eficazes de gestão de resíduos para a criação de composto para jardins e o uso de tintas à base de terra e pigmentos naturais para minimizar o impacto ambiental. Iniciativas de educação comunitária capacitam os moradores com práticas sustentáveis e ajudam a desenvolver a capacidade local”, resume o coletivo especializado em arquitetura, design, urbanismo e construção por trás da iniciativa, o RAMA estudio.
Beco sustentável
A fase inicial do projeto do Beco sustentável (ou “Sustainable Alleys”) incluiu a instalação de painéis solares para aproveitar energia renovável, filtros biológicos para captação de água da chuva e reutilização de água não potável. Também foram instalados 200 m² de telhados verdes para melhorar o controle térmico das residências.
Para melhorar a aparência do bairro, foram pintados 3.240 m² de fachadas deterioradas com pigmentos à base de terra. A iniciativa ainda reabilitou um edifício de adobe de 30 anos para habitação coletiva, transformando 700 m² em nove unidades residenciais, duas oficinas e um comércio local.
Segundo o RAMA estudio, o processo envolveu a colaboração com profissionais treinados em permacultura, que ministraram oficinas práticas para orientar a comunidade em compostagem, seleção de sementes, projeto de sistemas de irrigação e construção de canteiros.
O RAMA estudio afirma que, em última análise, o objetivo é melhorar as condições de vida imediatas e estabelecer um modelo replicável de sustentabilidade para bairros em todo o Equador. De fato, as intervenções de fácil implementação e replicação garantiram um prêmio de arquitetura ao escritório.
Arquitetura ecosocial
O “Sustainable Alleys” foi um dos 26 premiados no Ammodo Architecture Awards 2025, que reconhece a arquitetura social e ecologicamente responsável. O projeto arquitetônico foi selecionado, na categoria Engajamento Social, entre 168 inscrições de mais de 60 países.
A Ammodo é uma fundação que promove e apoia a arte, a ciência e a arquitetura. Destacando a diversidade do pensamento arquitetônico contemporâneo, os premiados variam de escritórios renomados a coletivos de base que atuam em contextos urbanos e rurais. Em comum, os projetos demonstram como a arquitetura pode contribuir para a recuperação de sistemas ecológicos e o fortalecimento de comunidades. Cada contemplado recebe entre € 10.000 e € 150 mil para o desenvolvimento de novos projetos.
O RAMA estudio afirma que o valor do prêmio será investido na criação de um espaço sustentável e inclusivo, com áreas verdes, lazer infantil e programação cultural. O projeto visa fortalecer a convivência comunitária, valorizar talentos locais e promover práticas ecológicas replicáveis em outros bairros.

