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O voo da virada: como o canário símbolo da Seleção superou a extinção

Canário-da-terra-verdadeiro, associado à tradicional camisa amarela da equipe nacional, quase desapareceu de algumas regiões do país e hoje é considerado um exemplo de recuperação da biodiversidade

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Embora o apelido seja popular por gerações entre brasileiros, a trajetória da espécie que inspirou esse símbolo nacional ainda é pouco conhecida. Foto: Dario Sanches CC 2.0

Durante a Copa do Mundo, a Seleção Brasileira volta a ser chamada de “Seleção Canarinho” por torcedores, narradores e veículos de comunicação. O apelido, incorporado à cultura popular há décadas, faz referência ao canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola), uma das aves mais conhecidas do Brasil.

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O que pouca gente sabe é que a espécie chegou a desaparecer de algumas regiões do país até o final da década de 1990. Após anos sofrendo com a captura para criação em gaiolas, a ave apresentou recuperação populacional, ampliou sua distribuição geográfica e voltou a ocupar áreas onde antes era considerada ameaçada.

A relação entre o canário e o futebol brasileiro ganhou força com a popularização da tradicional camisa amarela da Seleção. Conhecido mundialmente como “Canarinho”, o uniforme se transformou em um dos principais símbolos do esporte nacional e da identidade brasileira. Embora o apelido seja popular por gerações entre brasileiros, a trajetória da espécie que inspirou esse símbolo nacional ainda é pouco conhecida pelo público.

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“É impossível dissociar a imagem do canário-da-terra da ideia de Brasil. A espécie está presente no nosso imaginário coletivo há gerações, seja nas músicas, nas histórias populares ou no futebol. Milhões de brasileiros conhecem o apelido, mas poucos sabem que a ave que inspirou esse símbolo nacional chegou a enfrentar um forte declínio populacional e hoje representa uma importante história de recuperação da biodiversidade”, afirma Daniel Cywinski, coordenador administrativo do CRIA (Centro de Referência em Informação Ambiental), gestor socioambiental, observador e fotógrafo de aves. 

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“Canarinho Pistola” nas figurinhas do álbum da Copa. | Foto: Divulgação | Panini

O verdadeiro canarinho da Seleção

Famoso pela plumagem amarela vibrante dos machos e pelo canto marcante, o canário-da-terra-verdadeiro é avistado em praticamente todo o território nacional, em áreas abertas campos, pastagens, áreas rurais e até ambientes urbanos. A espécie costuma viver em bandos e se alimenta principalmente de sementes e grãos.

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Apesar da fama de “amarelinho”, nem todos os indivíduos apresentam essa coloração. Enquanto os machos têm a plumagem amarela intensa que inspirou o apelido da Seleção Brasileira, as fêmeas apresentam tons mais discretos, entre o pardo e o oliva. Essa diferença, conhecida como dimorfismo sexual, ajuda na proteção das fêmeas durante o período de incubação e cuidado com os filhotes.

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Foto: Dario Sanches CC 2.0

Ao longo do século XX, tornou-se também uma das aves mais capturadas para criação em gaiolas. A pressão causada pela captura e comercialização impactou diversas populações silvestres, contribuindo para a redução da espécie em diferentes regiões do Brasil.

Uma história de recuperação

Até o final da década de 1990, o canário-da-terra chegou a desaparecer de algumas regiões brasileiras e era considerado ameaçado em estados como São Paulo. Nas décadas seguintes, porém, apresentou recuperação populacional considerada surpreendente por pesquisadores, passou por mudanças em sua distribuição geográfica e voltou a ocupar áreas onde antes era considerada rara, especialmente na região Sudeste. Hoje, já não integra as listas de espécies ameaçadas da maioria dos estados brasileiros.

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Pesquisadores apontam que essa recuperação está associada ao fortalecimento da fiscalização ambiental, ao aumento da conscientização da sociedade e ao monitoramento realizado por observadores de aves e iniciativas de ciência cidadã, que permitem acompanhar a distribuição da espécie em diferentes regiões do país.

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Foto: Evelimlamaiara CC 4.0

“Hoje temos uma capacidade inédita de mapear populações silvestres graças ao engajamento de milhares de observadores de aves. Isso transforma conservação em conhecimento coletivo. A recuperação do canário-da-terra mostra como o conhecimento científico, aliado à fiscalização ambiental e ao envolvimento da sociedade, pode contribuir para a conservação das espécies”, afirma Luciano Lima, especialista do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), biólogo, mestre em Zoologia e doutorando em Biodiversidade.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. O tráfico de animais silvestres, a perda de habitat e o uso de agrotóxicos, ainda representam ameaças para a espécie.  

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Aliando biodiversidade e futebol, a história de recuperação populacional do canário-da-terra e sua presença na natureza transformaram a ave em um símbolo da cultura nacional.

CRIA

Com 25 anos de atuação, o Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA) conecta biodiversidade, ciência e tecnologia para apoiar a conservação da natureza, a adaptação às mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. Referência na integração de informações sobre a biodiversidade na América Latina, a instituição reúne acima de 18 milhões de registros científicos provenientes de mais de 600 conjuntos de dados e coleções biológicas além de 200 instituições do Brasil e do exterior. Esse conhecimento subsidia universidades, governos, empresas e organizações da sociedade civil na tomada de decisões baseadas em evidências. Entre suas iniciativas estão a SpeciesLink, rede colaborativa e acessível a qualquer pessoa, uma das maiores infraestruturas de informação sobre biodiversidade da região, e a Flora Brasiliensis, acervo digital da obra mais completa da flora brasileira. Mais informações: www.cria.org.br.

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