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Times da natureza: uma lição de trabalho em equipe

Botos-cinza, saguis, muriquis e aves brasileiras de bandos mistos podem lembrar um time de futebol e inspirar atletas da Copa do Mundo

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“Canarinho” que empresta o nome à seleção de futebol do Brasil. Foto: luiscadore por Pixabay

Veio a estreia do Brasil na Copa do Mundo de Futebol e o empate não agradou a torcida. Nessa hora, muita gente vira especialista e começa a falar sobre o que precisa melhorar na seleção “canarinho”. E não é só esse pássaro que entra em campo em 2026. A conexão entre futebol e natureza também está nos mascotes oficiais da Copa do Mundo FIFA 2026. O alce chamado Maple, a águia-americana batizada de Clutch, e a onça-pintada Zayu, foram escolhidos para representar, respectivamente, os países-sede Canadá, Estados Unidos e México.

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No futebol, e em diversas áreas do conhecimento, a natureza deve ser inspiração. Além da espécie humana, diferentes espécies mostram que a cooperação pode ser decisiva. O trabalho em equipe entre os animais garante proteção, alimentação, cuidado com os filhotes e sobrevivência. Em campo, alguns jogadores podem melhorar muito aprendendo como é o compromisso com o grupo.

De mamíferos marinhos que coordenam movimentos em grupo a primatas conhecidos pela convivência pacífica e pelo cuidado compartilhado com os filhotes, pesquisadores da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza chamam a atenção para comportamentos que mostram como o jogo coletivo também faz parte da biodiversidade brasileira.

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Muriqui-doNorte e filhote. Foto: Theo Anderson | Acervo Biodiversitas

Entre as aves, um comportamento chama a atenção dos pesquisadores: a formação dos chamados bandos mistos, grupos compostos por diferentes espécies que se deslocam juntas pelas florestas em busca de alimento e proteção, como um “time”.

Nesses grupos, algumas espécies exercem um papel central na comunicação e no alerta contra predadores, funcionando como verdadeiras sentinelas. Enquanto isso, outras aves ocupam diferentes “posições” dentro da floresta; algumas capturam insetos no ar, outras buscam alimento nos troncos ou entre folhas secas no chão, reduzindo “individualidades” e aumentando a importância do “coletivo”.

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Conforme as aves avançam pela vegetação, o movimento do grupo ajuda a espantar insetos escondidos entre folhas e galhos, beneficiando diferentes espécies ao mesmo tempo.

“Seja nas florestas ou nos gramados dos estádios, o esforço coletivo é a chave. Como em um bando misto de aves na natureza, onde espécies diferentes se deslocam em conjunto, aumentando a captura de insetos e se protegendo contra predadores, um time de futebol encontra sua força na diversidade; quando talentos distintos se unem pelo coletivo, a sobrevivência vira vitória”, afirma o biólogo Pedro Develey, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

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Bando com filhote. Foto: Caio Noritake

Segundo o especialista, a comparação entre futebol e natureza vai além da cooperação. “No futebol, o goleiro defende — como a proteção contra predadores nos bandos mistos — e o atacante finaliza a jogada, assim como as aves que capturam suas presas. Ninguém ganha o jogo sozinho”, completa.

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O time dos botos-cinza

No ambiente costeiro-marinho, os botos-cinza (Sotalia guianensis) se destacam pela coordenação entre indivíduos. A espécie costuma viver em grupos organizados e apresenta comportamentos cooperativos importantes, principalmente durante a alimentação e o cuidado com os filhotes.

Um dos exemplos mais curiosos é a formação de verdadeiras “creches”. Enquanto parte dos adultos sai em busca de alimento, outros indivíduos permanecem próximos aos filhotes. A estratégia contribui para aumentar a segurança dos mais jovens e reforça os laços sociais entre os animais.

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Foto: Instituto Boto Cinza

Além disso, os botos utilizam diferentes sinais sonoros para se comunicar dentro do grupo, comportamento fundamental para deslocamento, proteção e interação social. “Os botos-cinza são um excelente exemplo de como o trabalho em equipe pode trazer vantagens para uma espécie. A colaboração entre os indivíduos é fundamental para atividades como a proteção dos filhotes e a busca por alimento. Assim como acontece em um time, cada integrante desempenha um papel importante para o sucesso coletivo”, explica Camila Domit, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação.

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Saguis e Muriquis em equipe

Nas florestas brasileiras, os saguis (Callithrix) mostram que o cuidado coletivo pode fazer a diferença. As fêmeas frequentemente dão à luz gêmeos e, logo após o nascimento, o pai assume grande parte dos cuidados, carregando os filhotes durante diversos momentos do dia e entregando-os à mãe apenas na hora da amamentação.

Os irmãos mais velhos também participam ativamente da criação dos filhotes, ajudando a carregar os pequenos e colaborando na busca por alimento para o grupo. O comportamento é conhecido como reprodução cooperativa e ajuda a aumentar as chances de sobrevivência.

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Saguis de Tufos Brancos em Pernambuco. Foto: Nortondefeis | CC 4.0

Já os muriquis (Brachyteles), considerados os maiores primatas das Américas, chamam atenção pela convivência social pacífica – cujo nome significa “povo manso da floresta”. Diferentemente de outros grupos de primatas, eles vivem em sociedades com baixos níveis de agressividade e não há hierarquia entre os indivíduos.

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“A convivência dos muriquis é marcada pela passividade e colaboração. Nos saguis, também observamos comportamentos coletivos importantes, principalmente no cuidado compartilhado com os filhotes. Os dois são exemplos de como a cooperação pode fortalecer a sobrevivência das espécies”, afirma Fabiano de Melo, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

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Foto: Leandro Moreira | Projeto Montanha dos Muriquis