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Resíduos de aterro viram energia para fábrica e frota da Natura

Em parceria com a Ultragaz, empresa inaugura posto de abastecimento de biometano em Cajamar

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O gás biometano passa a representar 45% da energia utilizada nos processos produtivos da planta de Cajamar. Foto: Natura | Divulgação

Parte dos resíduos orgânicos que chegam diariamente ao Aterro Sanitário de Caieiras, na Grande São Paulo, agora viram energia e percorrem cerca de 20 quilômetros para abastecer a fábrica da Natura, em Cajamar. Na última segunda-feira (9), a gigante de cosméticos, em parceria com a Ultragaz, inaugurou a unidade de abastecimento de biometano em seu complexo industrial.

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A forma como produzimos e consumimos energia ainda é responsável por cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a ONU. Ainda que os dados variem, é certo afirmar que a indústria é diretamente responsável por grandes volumes de dióxido de carbono lançados na atmosfera.

Investir em uma transição energética justa é fundamental para garantir um futuro mais sustentável e seguro. Nesta jornada, a Natura começou lá atrás com o uso de álcool nas caldeiras e de biocombustível na frota de caminhões. Agora a companhia dá mais um passo com a inserção de biometano na matriz energética para parte dos processos industriais e logísticos.

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O desenvolvimento do projeto envolveu parcerias entre equipes internas, iniciativa privada e órgãos públicos, incluindo Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Corpo de Bombeiros, Prefeitura de Cajamar, além de fornecedores de tecnologia e operadores logísticos.

Do resíduo ao biometano

O Aterro de Caieiras, o maior da América Latina, recebe os resíduos sólidos urbanos e industriais do próprio município de Caieiras e de mais de 20 prefeituras da região metropolitana de São Paulo, além de receber grande parte do lixo da capital paulista. São cerca de 10,5 mil toneladas diárias de resíduos.

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Em 2024, foi inaugurada no aterro uma usina de biometano, cuja produção se dá a partir da captação e purificação do biogás proveniente do tratamento dos resíduos, ou seja, trata-se de um combustível renovável de origem orgânica. Tal processo evita a liberação de metano, gás com potencial de aquecimento global 28 vezes maior que o do CO2.

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Produção de biometano instalada no maior aterro sanitário da América Latina, em Caieiras. | Foto: Divulgação

No caso da Natura, o processo de transformação de resíduos em biometano cria um circuito fechado, uma vez que parte dos resíduos destinados à unidade de Caieiras retorna à empresa na forma de energia, materializando um modelo de economia circular estruturado, no qual resíduos se convertem em insumo energético para a própria operação.

Biometano em casa

O biometano é fornecido pela Ultragaz, responsável pela comercialização da produção em Caieiras. Com mais de 80 anos de história, a empresa de gás desenvolveu um projeto sob medida para a Natura: uma única estação de abastecimento atende o consumo da fábrica e da frota, sendo o gás pressurizado para caminhões e despressurizado para caldeiras.

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O abastecimento dos caminhões ocorre em cerca de 10 minutos, tempo significativamente inferior ao observado em rodovias, onde o processo pode levar entre 40 e 50 minutos, gerando ganhos de produtividade. Já o uso de biometano nas caldeiras gera 15% de eficiência em relação ao uso de etanol, uma vez que tem maior poder calorífico.

“A parceria com a Natura demonstra que o biometano é uma solução madura, confiável e capaz de operar em escala industrial e logística. Ao integrar fábrica e frota em uma mesma solução energética, é possível descarbonizar processos complexos, aumentar a eficiência operacional e, ao mesmo tempo, fortalecer a competitividade do negócio”, afirma Guilherme Darezzo, vice-presidente de operações da Ultragaz. Para ele, o projeto demonstra a viabilidade de replicar o modelo em outras indústrias no Brasil.

Outro ponto interessante é que os caminhões usados para transporte do biometano também são movidos a biometano, garantindo descarbonização total do ciclo. Na logística a parceria se estabeleceu com a Coopercarga e ReiterLog.

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Descarbonização da Natura

O uso do biometano em escala industrial e logística integra o Plano de Transição Climática da Natura, cujo objetivo é praticar zerar as emissões até 2030 nos escopos 1 e 2, além de reduzir 42% das emissões da cadeia de valor (escopo 3). Até 2050, a companhia busca tornar a operação 100% regenerativa, indo além da neutralização de carbono.

“Esse é um passo concreto do nosso plano de transição climática. Ele mostra como é possível reduzir emissões de forma relevante em operações industriais e logísticas complexas, usando uma solução que já está disponível, funciona em escala e gera valor para o negócio”, afirma Josie Romero, vice-presidente de Operações, Logística e Suprimentos.

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Josie Romero, vice-Presidente de Operações, Logística e Suprimentos da Natura. Foto: Divulgação | Natura

O gás biometano passa a representar 45% da energia utilizada nos processos produtivos da planta de Cajamar por meio da geração de vapor nas caldeiras. “Houve ganhos operacionais com menor intervenção na rotina do dia-a-dia. Temos uma tubulação direta de alimentação, uma previsibilidade boa, o que dá tranquilidade para a operação, estabiliza os custos e melhora a produtividade”, afirma Denise Leal, diretora de Manufatura e QSE América Latina da Natura.

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A fonte de energia renovável, limpa e de baixo carbono atende ainda a 100% da frota logística na Grande São Paulo, que somam 28 caminhões. Para 2026, o consumo projetado é de aproximadamente 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano por ano, o equivalente ao consumo anual de 30 mil residências, ao mesmo tempo em que se reduz até 1,3 mil toneladas de CO2 por ano, o equivalente a tirar 280 carros de passeio das ruas todos os dias.

Além do ganho ambiental, a multinacional brasileira afirma que há uma redução de custos no balanço geral, trazendo benefícios econômicos, maior eficiência na operação e competitividade do negócio. Apesar de não divulgar o quanto foi investido no projeto, afirma que o payback será inferior a dois anos.

Regulação e implementação

Denise explica que a implementação da iniciativa foi tecnicamente tranquila após a estrutura regulatória definida, o que ocorreu em 2024, segundo Liv Nakashima, Diretora de Gestão Corporativa e Sustentabilidade da CETESB.

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Em entrevista ao CicloVivo, Liv afirma que a CETESB criou procedimentos para o licenciamento ambiental de projetos de biocombustíveis e biometano, abrangendo setores como suinocultura, avicultura, indústria calcária e aterros sanitários, além do transporte de biocombustíveis.

“Foram estabelecidos procedimentos mais claros e objetivos. Esse foi um incentivo importante do Estado”, afirma. Liv conta que os projetos de biometano têm grande potencial de escalar no país, citando um estudo que indica o potencial de criação de mais de 180 plantas de produção e a geração de mais de 20 mil empregos no estado de São Paulo.

O biometano é a grande aposta da Ultragaz para descarbonizar frotas pesadas. A empresa já possui quatro postos de biometano em operação envolvendo grandes transportadoras. No caso da Natura, há a intenção de ampliar a iniciativa para outros centros de distribuição, mas os planos precisam ser de longo prazo, uma vez que depende de operadores logísticos e da ampliação de infraestrutura de abastecimento.

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Com a maior operação da Natura na América Latina, a fábrica de Cajamar produz mais de 90% de tudo que a Natura vende no Brasil, além de uma parcela significativa de exportações para América Latina e Espanha, tornando o projeto de transformar resíduos em energia limpa em uma iniciativa de grande impacto e inspiração para outras gigantes do setor.