- Publicidade -

Forno de baixo custo transforma caroço de açaí em fertilizante

Equipamento garante o aproveitamento integral do açaí e evita contaminação causada pelo descarte do caroço

caroço de açaí
Foto: Moisés Mendonça

Esse açaí geladinho que refresca, nutre e adoça a vida de tanta gente Brasil adentro e afora tem gerado impactos negativos na contaminação da água. Apesar de ser um ícone da cultura e da economia amazônica, o crescimento acelerado da produção dessa fruta tem levantado alertas sobre as consequências ambientais de sua cadeia produtiva.

- Publicidade -

Um grande volume de resíduos é gerado para a extração da polpa, principalmente caroços, que frequentemente são descartados de forma inadequada, acumulando-se em vias públicas, lixões e margens de corpos d’água. Isso pode levar ao assoreamento de igarapés e riachos, além de poluir lençois freáticos com o chorume resultante da decomposição da matéria orgânica..

Com o objetivo de mitigar esses danos ambientais, o engenheiro agrônomo Moisés Mendonça desenvolveu um protótipo de forno de baixo custo para transformar o caroço do açaí em biochar, também conhecido como biocarvão. O processo, chamado pirólise, consiste em queimar esse caroço em altas temperaturas com baixa oferta de oxigênio. O resultado é um material poroso, que pode ser utilizado como melhorador de solo.

- Publicidade -
forno caroço de açai
Fumaça gerada pelo início da queima dos resíduos para produção do biochar. Foto: Moisés Mendonça

“O biochar não é um produto novo na literatura científica, mas suas aplicações têm sido objeto de diversos estudos nos últimos anos devido aos efeitos benéficos que ele pode promover para o solo”, explica Mendonça. Por não sofrer uma queima total – o que acontece durante a fabricação do carvão convencional -, ele acaba preservando uma série de elementos importantes, como enxofre, fósforo e outros nutrientes, que são fertilizantes potentes. 

Outra vantagem da sua produção é o fato de a queima parcial pela pirólise também imobilizar moléculas de carbono. Se ocorresse a queima total, elas seriam liberadas na atmosfera. Uma vez que o carbono esteja retido no solo, essa liberação se dará por meio do processo natural de decomposição do biochar, que é lento. Esse aprisionamento do carbono no solo contribui para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

- Publicidade -

Afora isso, o biochar tem a capacidade de reter umidade: “isso é importante na Amazônia, onde temos seis meses de chuva e seis meses secos. Lá, também, o solo é arenoso, o que reduz sua capacidade de reter a água. O biochar, por ser um material poroso, ajuda a reter essa água nas raízes da planta durante o período mais seco do ano”, destaca Mendonça.

caroço de açai
Resíduos gerados pela produção de açaí. Foto: Moisés Mendonça

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, entre 2014 e 2021, a produção de polpa de açaí no Brasil cresceu de 6,7 milhões para mais de 100 milhões de toneladas. O estado do Pará lidera a produção, concentrando 90% do total nacional. Para muitos produtores, especialmente aqueles que operam em pequenas e médias propriedades familiares, o açaí representa uma importante fonte de renda.

Ele é um exemplo emblemático dos desafios enfrentados por produtos que alcançam sucesso global. Por um lado, são oportunidades econômicas para milhões de pessoas. Por outro, impõem questões ambientais que demandam soluções sustentáveis e integradas. Segundo o engenheiro agrônomo Wanderley de Melo, orientador do projeto de mestrado de Mendonça, que resultou na feitura do forno, o biochar é um caminho possível para cuidar do descarte indevido: “usamos o caroço do açaí nesse processo, mas poderíamos usar lodo de esgoto, podas de árvores ou o resíduo de quase qualquer cultura agrícola. O Brasil é hoje um grande consumidor e importador de fertilizantes. Seria importante se a gente aproveitasse esses resíduos para reduzir essa dependência”, conta o professor.

- Publicidade -
caroço de açai
Caroço de açaí secando ao sol para a produção de biochar. Foto: Moisés Mendonça

“Precisamos repensar a maneira como lidamos com os resíduos gerados pelo açaí. Há potencial para transformar esse problema em solução, mas isso exige investimento, políticas públicas e vontade de mudar”, destaca Mendonça,

Com iniciativas como o biochar, o Brasil tem a oportunidade de liderar um modelo de produção mais responsável, mostrando que é possível aliar crescimento econômico à conservação ambiental. Afinal, a sustentabilidade é essencial para garantir que o açaí continue adoçando vidas por gerações futuras.

açaí
Açaí. Foto: ‘Bioeconomia da Restauração na Amazônia’

- Publicidade -