Com mural gigante, Mundano expõe empresa do agronegócio
Obra com mais de 30 metros de altura é feita com cinzas de queimadas e lama das enchentes e é endereçada à família bilionária que atua no Brasil
Obra com mais de 30 metros de altura é feita com cinzas de queimadas e lama das enchentes e é endereçada à família bilionária que atua no Brasil
Quem desce a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, sentido centro, agora se depara com uma pintura gigante no estacionamento do Pão de Açúcar. A obra retrata a ativista indígena Alessandra Munduruku que segura um cartaz com o seguinte pedido: parem a destruição, mantenham a sua promessa. Os dizeres escritos em inglês são direcionados à família estadunidense bilionária Cargill-MacMillan, cuja atuação no Brasil se dá por meio da empresa Cargill, uma das maiores exportadoras de soja e milho.
O mural foi inaugurado na última quarta-feira (23). Durante o lançamento, o autor da obra, o artivista Mundano, junto a outros responsáveis pelo projeto, afirmou que a Cargill adquire produtos de áreas desmatadas e apoia o mega-projeto da Ferrogrão, uma ferrovia de quase 1.000km no meio da Amazônia. O projeto para construção de ferrovia liga os municípios de Sinop (Mato Grosso) e Miritituba (Pará), atravessando o centro do país para ampliar a produção e exportação de grãos.

O que organizações ambientais e grupos de direitos humanos têm denunciado é que a Ferrogrão vai aprofundar violações já em curso, afetando unidades de conservação, terras indígenas e comunidades locais.
O mural foi executado em parceria com a campanha Burning Legacy da Stand.earth, que também esteve presente na inauguração do trabalho e explicou que uma das razões para direcionar a mensagem à família é o fato de acreditarem mais nas pessoas do que nas empresas.

“A família Cargill-MacMillan diz que não é responsável pelas ações da Cargill porque não está envolvida em sua gestão”, explica Mathew Jacobson, Diretor da campanha Burning Legacy, da Stand.earth. “Isso é como dizer que não sou responsável se meu cachorro te morder porque não estou envolvido no seu adestramento. Como proprietários da Cargill, eles são responsáveis por suas ações”, continua.
A Cargill-MacMillan é 14ª família mais rica dos Estados Unidos. Com um patrimônio líquido combinado de aproximadamente US$ 60 bilhões, ela congrega mais bilionários do que qualquer outra no mundo. A forte cobrança também surge de uma tentativa de sensibilizar a gigante do agronegócio para mudar os rumos de sua produção, tornando-se um bom exemplo para as demais.

“Apenas eles podem decidir se o legado de sua família será de mudança de curso e proteção das florestas do mundo ou se serão responsáveis por sua extinção”, pontua Jacobson.
O “artivismo” é a ferramenta usada para chamar a atenção da família. “O artivismo é uma maneira de alertar sobre a emergência climática, o maior desafio da humanidade. No Brasil e no mundo sofremos com ondas de calor, secas severas, enchentes, causadas pelo desequilíbrio ambiental que grandes corporações como a Cargill estão promovendo. Meu país foi engolido pela fumaça da ganância. Cargill-MacMillan, querem ser lembrados por serem uma família que acelerou a extinção da humanidade ou por ter sido a família que entendeu a urgência e foi uma das propulsoras para iniciar uma grande mudança global?”, questiona Mundano.
O projeto virou manchete até no NY Times e a Stand.earth ainda levará a mensagem até a porta da família Cargill-MacMillan, nos Estados Unidos, por meio de uma série de cartazes criados por Mundano com líderes indígenas e suas comunidades. Cada cartaz terá o nome de um membro da família impresso com as mesmas cinzas de florestas usadas na produção do mural e a frase: “Cumpra Sua Promessa – Pare a Destruição”.

A mensagem do mural refere-se à promessa da própria família de eliminar produtos oriundos de desmatamento de sua cadeia de fornecimento e a conversão de terras de sua cadeia de suprimentos direta e indireta de principais culturas em linha no Brasil, Argentina e Uruguai até 2025. Entretanto, a companhia vem de sucessivas promessas não cumpridas, que a levaram a ser excluída dos fornecedores da empresa norueguesa Grieg Seafood e das ações do fundo escandinavo Danske Bank. Em ambos os casos, foi alegado a a associação com o desmatamento ilegal.

A campanha também denuncia que a Cargill faz lobby para barrar compromissos mais sólidos. “Em 2021, na COP 26, a Cargill, junto com outras nove empresas agrícolas que somam uma receita anual combinada de quase US$ 500 bilhões, se comprometeu a ‘interromper a perda florestal associada à produção e ao comércio de commodities agrícolas’. Esse acordo foi bastante criticado por sua falta de ambição e um relatório independente aponta que a linguagem fraca do acordo deve-se ao lobby da Cargill. A despeito dele, a empresa continuou adquirindo soja de áreas desmatadas”, apontam os ativistas.
Maior empresa privada dos EUA, a Cargill teve receita declarada de US$ 160 bilhões no ano fiscal de 2024, encerrado em maio. Mathew Jacobson, da Stand.earth, reforça que a empresa tem as condições necessárias para fazer o que é certo: parar de destruir as florestas e usar as áreas já disponíveis.
O mural com mais de 30 metros de altura e 48 metros de largura, totalizando 1,581,60m² de área é um dos maiores da cidade de São Paulo e da América do Sul. Alessandra Munduruku, que tem apenas 1,39m de altura, foi retratada com a dimensão de sua força em defesa dos povos indígenas, tendo inclusive recebido o Nobel Verde em 2023. “O desafio é gigante, a Alessandra é gigante e a mensagem precisa ser gigante”, afirmou Mundano.

Este é o maior mural já feito por Mundano, que contou ainda com outro cinco artistas que se movimentaram com oito balancinhos elétricos em um dos prédios com maior lateralidade em São Paulo.

O mega-mural está em uma empena horizontal, sendo que a maioria das laterais de prédios são verticais, o que, segundo o artista, limita o trabalho a ser desenvolvido. Estar próximo à Avenida Paulista, um dos centros financeiros mais importantes do país, também é bastante simbólico.
Mesmo quem não entender o texto, escrito em português, dificilmente ficará indiferente à mensagem. “Eu vejo essa pintura como um pedido de basta em toda destruição que empresas como a Cargill insistem em fazer pelo mundo todo. Se não pararmos com essas práticas o único cenário que as gerações futuras vão conhecer é esse que está atrás de mim na pintura: árvores queimadas e rios secos. Espero que quem passar por esse prédio se veja mais como parte da natureza e se enfureça com os que estão a destruindo!”, declara Alessandra Munduruku.

Mundano espera sensibilizar a população sobre a interconexão entre as várias questões ambientais que nos assolam. “A ideia é que qualquer pessoa que passe aqui consiga refletir. O solo rachado, a seca e as queimadas em diferentes momentos, está tudo ligado. Cada assunto que a gente faz gera um impacto no planeta. Então o que ela possa despertar em tantas pessoas esse senso de que precisa realmente parar a destruição, senão a gente não vai ter mais água. A gente não vai ter mais nada”, afirma Mundano ao CicloVivo.

O forte apelo ambiental também é ratificado com a escolha dos materiais da obra. A imagem foi pintada com cinzas da floresta amazônica, do Cerrado, da Mata Atlântica e do Pantanal, que vêm sendo coletadas em expedições ao longo dos últimos anos. A produção da obra inclui também lama de cidades do Rio Grande do Sul devastadas pelas inundações, além de urucum, terra jogada fora em caçambas em São Paulo e argila coletada na terra indígena Sawré Muybu. A técnica de produzir tintas com materiais resultantes de tragédias teve início em 2020, quando Mundano usou lama tóxica resultante da tragédia de Brumadinho.
Em nível mundial, um pequeno grupo de empresas – ADM, Bunge, Cargill, COFCO e Louis Dreyfuss Company – controla entre 70% e 90% do comércio global de grãos comerciais, como milho e soja. O Brasil é o maior produtor mundial de soja, responsável por 153 milhões de toneladas na safra 2023/2024, ou 39% do mercado global dessa commodity. Ao mesmo tempo, quase todo o desmatamento (97%) do ano passado teve a expansão agropecuária como vetor, segundo dados do Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas – saiba mais aqui.