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Expansão agrícola ameaça macaco exclusivo do Brasil

Expansão agrícola e degradação da Caatinga aceleram perda de habitat do guigó, macaco classificado como criticamente em perigo de extinção

guigó-da-Caatinga
Foto: Niall Perrins | iNaturalist / CC BY-NC 4.0

A Caatinga está passando por rápidas transformações que podem selar o destino do guigó-da-Caatinga – um macaco nativo, encontrado apenas no nosso país. A expansão agrícola, a degradação florestal e outras alterações no uso da terra estão entre os principais fatores que colocam em risco a sobrevivência da espécie, alerta um estudo publicado na revista Regional Environmental Change. A pesquisa foi conduzida em parceria pelas Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e de Sergipe (UFS), além do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os resultados reforçam a urgência de medidas de conservação e planejamento para evitar que o guigó desapareça, já que ele está oficialmente classificado como Criticamente em Perigo de extinção.

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Para compreender as mudanças no ambiente desse primata ao longo das últimas décadas, os cientistas analisaram 84 paisagens distintas: 46 onde o animal foi registrado e 38 onde sua presença não foi constatada. Essas áreas foram definidas a partir de registros de ocorrência do guigó, cruzados com mapas de uso e cobertura do solo elaborados pela plataforma MapBiomas. A partir desses dados, os pesquisadores acompanharam, ano a ano, a transformação do território, identificando se era ocupado por florestas, pastagens ou agricultura. Esse cruzamento de informações permitiu avaliar como, ao longo de 37 anos, o avanço das atividades humanas afetou o habitat do animal.

Caatinga, Araruna, Brasil

Os números revelam um quadro preocupante: um quarto das florestas que faziam parte da área de ocorrência da espécie foi convertido em pastagens. No período analisado, a Caatinga perdeu cerca de 17% de suas áreas florestais, sendo que 10% do que existia em 1985 virou pasto. Para a pesquisadora Bianca Guerreiro, principal autora do estudo, o impacto é grave. “Os guigós precisam das matas e árvores para obter recursos, como alimentação e abrigo, e também para se locomoverem”, explica.

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Atualmente, aproximadamente 54% da região ocupada pelo guigó-da-Caatinga já está dominada por agricultura ou por terrenos sem vegetação. Em 1985, as pastagens cobriam 30% da área; em 2021, chegaram a 42%, um aumento de 40%. Essa expansão, destacam os autores, representa vários riscos para a espécie: além de fragmentar seu habitat em pequenas manchas isoladas, a presença do gado compacta o solo, dificulta a infiltração de água e atrapalha o crescimento de novas plantas. O pisoteio sobre pequenas mudas também compromete a regeneração das florestas, o que ameaça sua manutenção a longo prazo.

A fragmentação do território traz ainda outra consequência: pode estar forçando os guigós a se concentrarem em espaços cada vez menores. Em um estudo complementar já submetido para publicação, os autores verificaram que, em áreas mais desmatadas dentro de regiões agrícolas, a densidade populacional do primata é maior – ou seja, mais indivíduos estão restritos a porções reduzidas de floresta. “Isso sugere que os grupos estão adensados em fragmentos isolados, provavelmente em função da baixa conectividade da paisagem”, afirma Guerreiro. “Esse confinamento traz várias consequências, como o aumento da competição por recursos, a redução da variabilidade genética e maior vulnerabilidade a distúrbios, como um incêndio, um surto de doença ou mesmo a expansão de atividades humanas em um fragmento”, acrescenta.

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caatinga
Canudos, na Caatinga Brasileira. Foto: João Marcos Rosa

Outro dado chama a atenção: em 2021, menos de 9% do bioma estava sob alguma forma de proteção legal. No mesmo período, o guigó-da-Caatinga foi oficialmente reconhecido, tanto pelo governo brasileiro quanto pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), como espécie Criticamente em Perigo de extinção. Para Guerreiro, pesquisas como esta podem apoiar políticas públicas e orientar estratégias de preservação. “Esses estudos ajudam órgãos governamentais e organizações não governamentais a identificar áreas prioritárias para monitoramento e mitigação da perda de biodiversidade, além de guiar a recuperação florestal e a criação de novas áreas protegidas”, explica.

A pesquisadora destaca ainda que é fundamental buscar formas de harmonizar a produção agrícola com a preservação da natureza,  “o que pode ser incentivado por programas de formação técnica e subsídios específicos e direcionados”, conclui. Ela lembra que a equipe já conduz novas pesquisas para aprofundar o conhecimento sobre o guigó e sua relação com a Caatinga, na esperança de abrir caminhos para a proteção efetiva desse primata tão singular.

Fonte: Agência Bori

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