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Impasse na ONU adia tratado global sobre plásticos

Negociações em Genebra fracassam e mantêm em aberto o urgente desafio global da poluição por plásticos, que segue sem solução concreta

plástico praia
Foto: iStock

As negociações internacionais para criação de um tratado histórico de combate à poluição por plásticos terminaram nesta sexta-feira (15), em Genebra, sem consenso. Depois de uma rodada intensa que atravessou a madrugada, a proposta final não conseguiu romper o impasse entre países defensores de cortes na produção de plásticos e nações produtoras de petróleo, que preferem restringir o acordo à gestão de resíduos.

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O encontro reuniu 185 países no Palais des Nations, sede da ONU, mas terminou sem um texto-base aprovado. “Não teremos um tratado para acabar com a poluição plástica aqui em Genebra”, declarou o negociador da Noruega, após o encerramento das negociações a portas fechadas.

Divisão entre blocos

De um lado, a chamada Coalizão de Alta Ambição — que inclui União Europeia, Reino Unido, Canadá, além de diversos países africanos e latino-americanos — pressionava por medidas concretas de redução da produção de plásticos e pela eliminação de químicos tóxicos usados na indústria. Do outro, o Grupo de Pensamento Alinhado, liderado por Arábia Saudita, Kuwait, Rússia, Irã e Malásia, defendia que o tratado tivesse um escopo muito mais limitado.

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O Brasil chegou a Genebra com destaque, como futuro anfitrião da COP30 e uma das maiores potências em biodiversidade. No entanto, adotou uma posição considerada “balanceada”, priorizando a ligação entre ações e financiamentos e se afastando de propostas mais radicais, como o banimento de plásticos específicos. Também cofacilitou discussões sobre saúde, mas não se comprometeu com a redução da produção.

“O Brasil, anfitrião da COP30, não apoiou provisões fundamentais do texto, especialmente no que diz respeito à redução da produção de plásticos e à regulação de químicos problemáticos. Mesmo tendo apoiado a inclusão de um artigo específico sobre saúde, o país perdeu a oportunidade de liderar pelo exemplo e enviar um recado firme à comunidade internacional”, criticou Mariana Andrade, coordenadora da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil.

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lixo plástico
O plástico representa 85% dos resíduos que chegam aos oceanos. | Foto: Michaelis Scientists CC 4.0

O peso da indústria e o fracasso do consenso

Segundo estimativas, mais de 400 milhões de toneladas de plásticos são produzidas por ano no mundo, metade destinadas a itens descartáveis. Do total de resíduos, apenas 9% são reciclados de fato; 46% acabam em aterros sanitários, 17% são incinerados e 22% seguem sem tratamento adequado, tornando-se lixo espalhado pelo meio ambiente.

“Enfrentar a poluição por plástico no mundo significa confrontar a indústria dos combustíveis fósseis. Não à toa, os maiores produtores de petróleo foram justamente os que travaram essa nova rodada de negociações”, acrescentou Andrade.

O WWF foi uma das organizações mais ativas em Genebra. Michel Santos, gerente de Políticas Públicas do WWF-Brasil, afirmou: “Estamos diante de um desafio que já ultrapassou fronteiras, comprometendo ecossistemas inteiros e afetando a vida de milhões de pessoas. Cada dia sem um acordo ambicioso significa mais plástico nos oceanos, mais riscos silenciosos e duradouros à saúde humana e mais perda irreversível de biodiversidade.”

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Efraim Gomez, diretor global do WWF, reforçou a decepção: “Após quase duas semanas de negociações tensas, não estamos mais próximos de chegar a um acordo sobre um tratado global para acabar com a poluição plástica. […] Nossa determinação em acabar com a poluição por plástico é inabalável. […] A responsabilidade pelo resultado recai inteiramente sobre os Estados-membros.

Zaynab Sadan, chefe da delegação do WWF, classificou o resultado como “extremamente decepcionante”, mas destacou que a maioria dos países demonstrou apoio a um tratado eficaz. “Continuar sem nenhuma mudança radical no processo, sem dar o devido peso às demandas da maioria, seria inútil”, alertou.

Pressões externas e frustrações

Além dos embates entre blocos, o papel dos Estados Unidos também foi duramente criticado. O país alinhou-se ao grupo dos produtores de petróleo, reforçando as resistências. “Nos últimos dias das negociações, vimos claramente o que muitos de nós já sabíamos há algum tempo — alguns países não vieram aqui para finalizar um texto, vieram para fazer o oposto: bloquear qualquer tentativa de avançar um tratado viável”, afirmou David Azoulay, diretor do Centro de Direito Ambiental Internacional.

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A diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, tentou relativizar o impasse: “O multilateralismo nunca é fácil, e conseguir um tratado em dois a três anos nunca foi feito antes”, disse, após a plenária final.

Mesmo assim, a decepção prevaleceu entre países que defendem mais ambição. Emmanuel Macron, presidente da França, e representantes da União Europeia advertiram que um tratado frágil, sem força legal ou sem tratar de todo o ciclo de vida do plástico, seria inaceitável. Nações insulares do Pacífico, como Fiji, alertaram para os impactos da demora em comunidades altamente vulneráveis.

“Não ter nenhum tratado é melhor do que um tratado ruim”, defendeu Ana Rocha, da Aliança Global para Alternativas a Incineradores (GAIA). “Mais uma vez, as negociações fracassaram, descarriladas por um processo caótico e tendencioso que deixou até mesmo os países mais engajados com dificuldades para serem ouvidos.”

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reciclagem de plástico
Plástico que será reciclado. Foto: Paulo Vitalle

O futuro das negociações

As negociações sobre o Tratado de Plásticos começaram em 2022 e já acumulam adiamentos, o que reforça a sensação de frustração global. A próxima rodada, INC-5.3, ainda não tem data nem local confirmados.

Apesar disso, especialistas destacam que houve avanços na clareza sobre temas centrais, como limites à produção de plástico virgem, harmonização de design de produtos, responsabilidade estendida do produtor e mecanismos de financiamento. Empresas também sinalizaram apoio a medidas mais consistentes.

Pedro Prata, da Fundação Ellen MacArthur, resumiu os próximos desafios: “Sem um tratado global, a atual lógica linear de produção e consumo do plástico continuará poluindo ecossistemas, ameaçando a biodiversidade e comprometendo a saúde. […] Claro que o resultado final é uma decepção, mas esses três anos de discussões trouxeram um salto imenso na compreensão geral do que é a poluição plástica no mundo e, obviamente, de que ela precisa de uma resposta imediata.”

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Todos os anos, cerca de 22 milhões de toneladas de resíduos plásticos são despejados no meio ambiente, de acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2022. Esse volume compromete solos e oceanos, ameaça a biodiversidade e acaba alcançando a cadeia alimentar humana. Diante desse cenário, a necessidade de medidas concretas e urgentes é indiscutível.