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Mulheres indígenas criam IA para preservar saberes

A IA Arandu integra plataforma que conecta saber ancestral, tecnologia e geração de renda para comunidades indígenas

Foto: Divulgação | Recode

Unir saberes ancestrais e tecnologia é o caminho trilhado pela Arandu, uma inteligência artificial (IA) concebida e gerida por mulheres indígenas de diversas etnias. A iniciativa permite que as participantes produzam, editem e distribuam conteúdos, registrem saberes tradicionais em formato digital e comercializem produtos e criações desenvolvidas nas aldeias. Mais do que uma ferramenta tecnológica, a Arandu se consolida como um instrumento de fortalecimento da autonomia econômica das comunidades.

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O nome da IA significa “sabedoria” em tupi-guarani e integra a plataforma Círculos Indígenas, um ambiente digital com múltiplas funcionalidades que atua como guardião de valores, saberes e tradições dos povos originários do Brasil. A proposta combina inovação e respeito cultural, garantindo que a tecnologia seja um meio para preservar identidades e ampliar oportunidades.

A Arandu foi criada coletivamente ao longo do ano passado, a partir de uma convocação da ONG Recode — organização que atua com empoderamento digital — com o objetivo de fortalecer e expandir redes de mulheres indígenas. A iniciativa promove a amplificação de suas vozes ao integrar a tecnologia como ferramenta de apoio, e não como um fim em si mesma, preservando, respeitando e dando visibilidade às tradições indígenas. Atualmente, o grupo reúne mulheres distribuídas pelo Distrito Federal e por 12 estados brasileiros.

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Todas as participantes passaram pelo Movimento Influenciadoras Indígenas, uma parceria da Recode com a L’Oréal, voltada à capacitação em ferramentas digitais e à produção de conteúdos para a internet. “As mulheres indígenas enfrentam, historicamente, barreiras estruturais de acesso à tecnologia, às oportunidades econômicas e aos meios de comunicação. Esse movimento nasce para reverter esse cenário e garantir que essas vozes sejam protagonistas de suas próprias narrativas”, afirma Rodrigo Baggio, fundador e CEO da ONG Recode. O projeto conta com representantes dos povos Pataxó, Pataxó Hãhãhãe, Guajajara, Terena, Apurinã, Juruna (Yudjá), Wapichana, Boe Bororo e Kaxinawá, entre outros, refletindo a diversidade de territórios, línguas e tradições indígenas do país.

Foto: Divulgação | Recode

A voz de uma delas

Júlia Tainá, acreana de 38 anos, é uma das participantes da iniciativa. Para ela, o projeto proporcionou uma reconexão com a própria história e a construção de um espaço seguro de expressão. “Dos meus quatro avós, três eram indígenas e um era espanhol, uma típica história brasileira. Meus avós indígenas eram das etnias Manchineri, Pataxó e Tupinambá. Nasci mais próxima da minha história Manchineri, aqui no Acre. Sou uma indígena em contexto urbano, não por opção, mas por conta da trajetória da minha família. Ao participar de projetos como este, ouvindo outras histórias e realidades, fui me sentindo pertencente e segura. Era como estar em um território, ainda que virtual, onde eu podia, de fato, me comunicar”, celebra Júlia.

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Sobre a experiência com inteligência artificial, ela destaca o papel da tecnologia no fortalecimento da comunicação indígena: “A IA ajuda a organizar nossas ideias, na descrição das peças, na forma de contar a história, de compartilhar o que produzimos. Ela nos apoia a estruturar nossas falas e a aprender a nos comunicar do nosso jeito. Porque é dessa forma que conseguimos impactar o futuro, sem abrir mão de quem somos.”

Na Arandu, as participantes acessam ferramentas que, após o processo formativo, tornam-se intuitivas, permitindo criar, editar e distribuir conteúdos em texto, vídeo, áudio e formatos visuais com autonomia. A plataforma digital também funciona como um acervo voltado ao registro e à valorização de saberes tradicionais, sempre respeitando os contextos culturais e os direitos coletivos. Além disso, o ambiente possibilita a comercialização de produtos e criações desenvolvidas nas aldeias, fortalecendo cadeias de geração de renda e ampliando a presença indígena no universo digital sem perder de vista a identidade, a ancestralidade e o compromisso com a preservação cultural.

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