Guapuruvu, pau-d’alho e angico são apenas algumas das 120 espécies nativas plantadas em um terreno em Itu, no interior de São Paulo. O cultivo integra o projeto de agricultura regenerativa do Grupo Heineken, que está “plantando água” para garantir a principal matéria-prima da produção de cerveja.
À convite da empresa, o CicloVivo esteve presente nesta área de restauração florestal e aporte de carbono. De propriedade da Heineken desde que a marca comprou a Schincariol, o local é importante para a recarga hídrica da própria cervejaria, uma das maiores no país.
A paisagem verdinha destoa dos terrenos ao redor. Vastas áreas da vizinhança estão queimadas. O odor da queima é presente no ar. A iniciativa da Heineken mostra na prática que há solução: em meio ao período seco, o plantio realizado há menos de um ano resiste e impressiona.
Quem vê o vasto terreno hoje não imagina que até meados de 2023 o cenário era outro: a área era arrendada e ocupada por gado. Áreas de pastagem, sobretudo quando mal manejadas, provocam erosão, assoreiam rios e impedem a infiltração da água no solo. Logo, para chegar ao ponto atual, houve todo um trabalho prévio de proteção do solo e de favorecimento à retenção da água, incluindo a correção de fertilidade do solo e a inclusão de plantas de cobertura.
Para esse árduo esforço, a iniciativa é realizada com a empresa Rizoma, que, desde 2008, implementa sistemas agroflorestais, restauro florestal e agricultura regenerativa em larga escala no país. A empresa é responsável pelo planejamento, implementação e operação do projeto, que tem foco em três grandes indicadores de regeneração: sequestro de carbono, produção de água e promoção de biodiversidade. O grande diferencial começa na instalação de uma infraestrutura de conservação de solo e água antes mesmo do plantio das mudas. Essa preocupação com o design do sistema, o preparo do solo e a aplicação de tecnologias de captação e retenção de água são fundamentais para promover serviços ecossistêmicos e para garantir um ambiente mais favorável às espécies que serão plantadas.
A parceria entre Heineken e Rizoma prevê a restauração de uma área de 900 hectares, conectando oito fazendas, sendo 100 hectares de sistema agroflorestal e 800 hectares de restauração florestal com espécies nativas. O projeto integra a meta pública da Heineken de repor ao meio ambiente 1,5 vezes o volume de água utilizado em suas cervejarias situadas em regiões de estresse hídrico, como Itu, em SP, e Pacatuba, no Ceará, até 2030.
Recriando a floresta
Cada muda plantada tem sua especificidade. As espécies nativas da região de Itu foram escolhidas a dedo para aporte de carbono. “Cada espécie tem um porquê de estar aqui. O guapuruvu cresce muito rápido, enquanto o angico, que está do lado, está muito mais baixo. É sua característica. O angico precisa que o guapuruvu cresça e sombreie”, explica Maridélia Rios Gonzaga, coordenadora técnica da Rizoma.
Todo o sistema também é pensado para recriar a floresta, inclusive atraindo espécies da fauna. Os animais têm um papel fundamental nesse processo: como dispersores de sementes, os bichos levam espécies que não foram plantadas pelos humanos e assim ajudam na recomposição da mata.
Durante a visita, que contou com a presença de autoridades públicas, os participantes puderam plantar espécies de diversidade e de recobrimento. Estas últimas, plantas que têm a capacidade de crescer muito rápido, reduzindo plantas invasoras e melhorando sombreamento, umidade e matéria orgânica.
A área ainda tem o potencial de transformar-se em ponto de coleta de sementes. Um exemplo é o algodoeiro, que já está produzindo sementes. Com o aumento da demanda por sementes florestais, a área pode ser um local de coleta e fornecimento de sementes para viveiros.
“Quando se faz um projeto dessa magnitude, não só a gente protege o meio ambiente, nós nos protegemos. Nós estamos protegendo a água que a gente vai beber na torneira. A gente está fortalecendo a biodiversidade”, reforça Osvaldo Stella Martins, chefe de Sustentabilidade da Rizoma.
A companhia também mantém, desde 2007, um projeto de restauro florestal na região de Itu em parceria com a SOS Mata Atlântica, onde já foram plantadas mais de sete milhões de mudas nativas e restaurados 386 hectares de floresta. A adoção de práticas regenerativas fortalece a resiliência da operação, reduz a dependência de soluções complexas de captação e tratamento e garante estabilidade às operações industriais no longo prazo.
Sistema agroflorestal
Segundo a Heineken, já foram plantadas 200 mil mudas em 142 hectares de agrofloresta combinando citrus e outras espécies nativas da Mata Atlântica. O objetivo é regenerar o solo, aumentar a infiltração da água da chuva e fortalecer a segurança hídrica de uma das maiores cervejarias da companhia no Brasil. Ao longo de 20 anos, o sistema agroflorestal prevê evitar um gasto estimado de R$ 53 milhões com soluções de recursos hídricos e remoção de carbono.
Além de contribuir para o combate à escassez de água em Itu, região vulnerável a episódios de estresse hídrico, a expectativa é de remover 500 mil toneladas de carbono em 25 anos, sendo 9,6 mil toneladas ainda em 2025, das quais 2,5 mil vêm diretamente do plantio de citrus.
A equipe da Rizoma explica que esta é a primeira vez que a tecnologia de plantio agroflorestal está sendo utilizada para fazer um restauro ecológico. Entre as vantagens do sistema, está o rápido desenvolvimento.
Hoje, entre o preparo do subsolo, a distribuição de insumos e o plantio, há um gasto energético muito menor para a planta se desenvolver em comparação aos antigos sistemas de restauração. “Em menos de um ano, já temos quase o desenho de uma floresta”, afirma Martins. “Normalmente é esperado conseguir medir o carbono no quinto ano, porque é quando as árvores na sua média superam os 15 cm de circunferência de altura do peito. Aqui já temos várias árvores que atingiram essa medida em um ano. Em três anos, possivelmente, vamos poder fazer o inventário de cada”, completa.
O investimento inédito em agricultura regenerativa contribui para a ambição global do Grupo HEINEKEN de se tornar net zero nos escopos 1 e 2 até 2030. Segundo Ligia Camargo, Diretora de Sustentabilidade do Grupo Heineken, a meta será batida no Brasil já no próximo ano. Além disso, integra uma estratégia maior da empresa para enfrentar os desafios da emergência climática: o Heineken Spin.
Atrás do impacto positivo
Em 2024, a Heineken lançou uma unidade de negócios voltados à sustentabilidade. O “ecossistema de negócios de impacto”, batizado de Heineken Spin, reúne novos projetos e iniciativas que já estavam em andamento em uma só frente, guiada por quatro pilares: transição energética, circularidade das embalagens, marcas de impacto e agricultura regenerativa.
Com 15 cervejarias e um milhão de pontos de venda, a empresa consegue oferecer aos clientes, parceiros e consumidores o abastecimento de energia renovável, de matriz solar, eólica e biogás, a um custo mais acessível. A companhia também possui um parque eólico com 14 aerogeradores no Ceará para produzir cerveja em suas fábricas com a energia do vento.
Na questão das embalagens, a cerveja em garrafa long neck é o produto mais vendido pela empresa. O vidro, apesar de infinitamente reciclável, tem uma taxa de reciclagem no Brasil ainda muito baixa. Para ser parte da solução e não do problema, a Heineken tem parceria com a Ambipar para coletar as garrafas usadas, reciclá-las e reinseri-las em sua cadeia.
Já sobre as marcas de impacto, o destaque vai para a parceria com o grupo Better Drinks e o projeto Mamba Water Project: para cada lata vendida, um litro de água é doado a comunidades em situação de vulnerabilidade. A Mamba Water já nasceu inovadora, sendo a primeira marca de água brasileira a oferecer 100% de seus produtos em latas de alumínio.
Além da água enlatada, também integram o portfólio a cerveja Praya e o chá Baer-Mate. O trio está garantindo o crescimento e faturamento da Heineken Spin. “A sustentabilidade tem que ser financeiramente sustentável. Não é a sustentabilidade por si só, tem que parar de pé por si só, de forma viva, de forma que as coisas se retroalimentem”, salientou Rafael Rizzi, diretor de Heineken Spin, durante o evento realizado em Itu. No caso da agricultura regenerativa, a previsão é que, até 2030, tal pilar possa gerar até R$ 37 milhões em receita para a companhia.

