O Earthshot Prize, prêmio ambiental lançado pelo Príncipe William em 2020, acaba de anunciar os 15 finalistas da edição 2025. Entre as iniciativas, duas são brasileiras: re.green, uma startup tecnológica que combate o desmatamento, e Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), o modelo de financiamento lançado pelo governo federal criado para recompensar os países que preservam suas florestas.
Ao todo, quatro finalistas são da América do Sul, região que, aliás, sediará, pela primeira vez, a premiação. A experiência no Earthshot Prize pode aproximar ainda mais os olhares do mundo para as boas iniciativas do país. Em 2023, a empresa brasileira Belterra foi finalista: uma conquista que transformou o negócio.
“A exposição que recebemos abriu portas para investidores, mentores e parcerias que ajudaram a acelerar nosso crescimento. Tivemos acesso a novas oportunidades de investimento, uma rede de conexões extremamente valiosa e um suporte estratégico para escalar nossos projetos”, conta Marcelo Pereti, sócio da Belterra.
Felipe Villela, diretor do Earthshot Prize no Brasil, afirma que o país é uma potência ambiental e a ideia é garantir que essas iniciativas tenham o impacto que merecem. “O foco está em criar um legado duradouro no Brasil, investindo em áreas chave como juventude, finanças, inovação e comunicação. Estamos aqui para mobilizar recursos e fortalecer soluções que possam transformar a realidade ambiental do país e do mundo em grande escala”, diz.
Destaques brasileiros
O Brasil se destaca com dois finalistas de grande relevância. A re.green restaura florestas tropicais em larga escala usando drones, inteligência artificial e genética de espécies nativas, transformando a natureza em infraestrutura vital para o futuro. “Ser finalista do Prêmio Earthshot é a chance de mostrar ao mundo que florestas são infraestrutura verde. Nosso trabalho pode servir como modelo para a regeneração em larga escala globalmente, e estamos animados em usar a plataforma do Earthshot para inspirar outros a se engajar nesse mercado”, afirma Thiago Picolo, CEO da re.green.
O segundo projeto brasileiro finalista é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que propõe um mecanismo financeiro inovador para apoiar nações tropicais na conservação e regeneração de florestas. A iniciativa mobiliza recursos públicos e privados de forma estratégica para garantir a valorização econômica da preservação florestal.
Durante a 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 23 de setembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o compromisso do Brasil com um investimento de US$ 1 bilhão no TFFF, tornando o país o primeiro a aderir oficialmente ao financiamento da iniciativa.
A Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, reforça a relevância do momento. “Ser finalista do Prêmio Earthshot na véspera da COP30 é uma honra que ajudará a aumentar a conscientização global sobre esta iniciativa, contribuindo para nossos esforços para garantir investidores públicos e capital privado, bem como divulgar a mensagem para pessoas em todo o mundo sobre a importância vital das florestas tropicais para nossas vidas e economias”, afirma. “É uma oportunidade sem precedentes para finalmente garantir que a preservação das florestas tropicais seja mais valorizada do que sua destruição”, completa.
Earthshot Prize 2025
As soluções selecionadas este ano abrangem diversos países, setores e modelos de negócio voltados para a recuperação e proteção do planeta. Entre os destaques estão:
- Matter (Reino Unido): empresa que desenvolveu filtros para máquinas de lavar, capazes de capturar microplásticos, principal fonte de poluição nos oceanos;
- Quay Quarter Tower (Austrália): o primeiro “arranha-céu reciclado” do mundo, que evita a emissão de carbono associada à demolição e construção, transformando uma estrutura existente em um edifício de padrão internacional;
- Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF): considerada “a iniciativa mais ousada de todos os tempos para apoiar nações florestais a proteger e restaurar suas florestas”;
- Barbados: país caribenho que avança rapidamente para se tornar livre de combustíveis fósseis até 2030, criando impacto global para apoiar outras nações insulares.
“À medida que chegamos à metade da década do Earthshot, sinto-me verdadeiramente inspirado pelos finalistas deste ano, que incorporam o otimismo urgente que está no cerne da nossa missão. Em apenas cinco anos, o Earthshot Prize mostrou que as respostas para os maiores desafios do nosso planeta não só já existem, mas estão, de fato, ao nosso alcance”, afirmou o Príncipe William, presidente e fundador do Prêmio Earthshot.
Os 15 finalistas do Earthshot Prize 2025 concorrem a prêmios de £1 milhão cada, distribuídos em cinco categorias estratégicas:
- Revitalizar os Nossos Oceanos
- Combater a Crise Climática
- Construir um Mundo Sem Resíduos
- Proteger e Restaurar a Natureza
- Purificar o Ar
Além do prêmio financeiro, cada finalista recebe suporte por meio do Programa de Bolsas do Earthshot, incluindo mentoria, acesso a especialistas, recursos técnicos e integração à rede global de parceiros e investidores ambientais. O apoio inclui a Aliança Global de Parceiros do Prêmio Earthshot, composta por algumas das maiores empresas, doadores, investidores e organizações ambientais do mundo comprometidos com a ação climática.
Confira os 15 finalistas do Earthshot Prize 2025
Earthshot 1 – Proteger e Restaurar a Natureza
- re.green, Brasil: Usando drones, inteligência artificial e genética de espécies nativas, a re.green restaura florestas tropicais em larga escala. O algoritmo que a equipe desenvolveu integra dados de satélite, registros públicos e informações coletadas em campo para avaliar o potencial ecológico de cada área e determinar como restaurá-la – e, de forma crucial, como financiá-la. Esse sistema guiado pela ciência e impulsionado por dados garante que a re.green não apenas plante árvores, mas reconstrua florestas tropicais funcionais e resilientes.
- The Tenure Facility, Global: Povos Indígenas administram uma parte significativa da biodiversidade do planeta, incluindo quase metade das áreas protegidas da Terra e um terço de suas florestas. No entanto, apenas 11% dessas terras têm reconhecimento legal formal. Essa falta de propriedade dificulta a gestão e proteção efetiva, deixando áreas vulneráveis ao desmatamento, ao deslocamento de comunidades e colocando em risco seus meios de subsistência. A Tenure Facility é o primeiro e único mecanismo financeiro internacional multissetorial focado exclusivamente em assegurar direitos territoriais e florestais de Povos Indígenas e comunidades locais, concedendo recursos para implementação de direitos previstos em lei e compartilhando conhecimentos, inovações e ferramentas.
- Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), Global: O Fundo Florestas Tropicais para Sempre é um mecanismo de financiamento misto proposto para incentivar países a prevenir o desmatamento e a degradação das florestas tropicais. Está prestes a fechar o que pode ser chamado de “o negócio do século”, a maior estratégia financeira da história para proteger as florestas do planeta: um fundo global de US$ 125 bilhões que fornecerá renda permanente a países com florestas tropicais – como Brasil, Gana e Indonésia – em troca da proteção permanente dessas florestas. Além de realizar os pagamentos, o fundo investe em títulos e outros ativos que geram retorno para investidores.
Earthshot 2 – Purificar o Ar
- Bogotá Clean Air Action, Colômbia: Como muitas cidades ao redor do mundo, Bogotá enfrenta o problema da poluição há décadas, agravado pelo fato de estar em uma bacia cercada por montanhas, concentrando poluentes gerados pelo trânsito e por seus 8 milhões de habitantes. Graças a políticas públicas eficazes, Bogotá reduziu a poluição do ar em 24% desde 2018, mesmo com crescimento populacional.
- Guangzhou Transport Electrification, China: Localizada no sul da China, Guangzhou tem cerca de 18,8 milhões de habitantes e é referência em eletrificação de transporte. Desde 2017, a Guangzhou Bus Company e a Prefeitura da cidade eletrificaram toda a frota de ônibus e 10.000 táxis, em ritmo sem precedentes. A cidade reutiliza baterias antigas de íon-lítio dos ônibus para armazenamento de energia solar e eólica, aproveitando o ciclo de vida útil das baterias e fortalecendo a rede elétrica.
- Gujarat Cap and Trade, Índia: O estado de Gujarat criou um esquema de comércio de emissões que estabelece limites de poluição para fábricas. Caso emitam menos que sua cota, podem negociar o excedente com outras indústrias. Esse modelo permite crescimento econômico enquanto garante ar mais limpo. Testado com sucesso em Surat, a segunda maior cidade, reduziu cerca de 30% das emissões de material particulado e agora está sendo expandido para outras cidades do estado
Earthshot 3 – Revitalizar os Nossos Oceanos
- Matter, Reino Unido: Microplásticos são poluentes onipresentes. A Matter desenvolveu filtros para capturar microplásticos liberados pelas roupas, impedindo que cheguem aos oceanos e sistemas alimentares. Os filtros são compatíveis com qualquer máquina de lavar e já estão disponíveis em 30 países europeus. A Matter também integra filtros em fábricas e novos aparelhos de grandes marcas, evitando poluição na fonte. Até o final do próximo ano, 50 fábricas, principalmente na Ásia, terão os filtros instalados.
- Blue Bonds for Conservation, Global: Países com ecossistemas marinhos ricos e vulneráveis ao clima enfrentam altos níveis de endividamento, dificultando investimentos em conservação. Os Blue Bonds permitem refinanciar dívidas caras em condições melhores, direcionando parte da economia à conservação marinha. Nas Ilhas Galápagos, uma conversão de dívida liberou mais de US$ 450 milhões para proteger a Reserva Marinha Hermandad, de 6 milhões de hectares.
- High Seas Treaty, Global: Os oceanos abertos correspondem a mais de 60% dos mares e estão desprotegidos. O tratado estabelece Áreas Marinhas Protegidas, protegendo os ecossistemas da sobrepesca e permitindo regeneração. A High Seas Alliance liderou a iniciativa, garantindo assinatura do tratado em 2023. Após ratificação, terá força legal e será aplicado globalmente, protegendo espécies marinhas e fortalecendo a economia pesqueira.
Earthshot 4 – Construir Um Mundo Sem Resíduos
- ATRenew, China: A ATRenew redefine o conceito de propriedade em um mundo que não pode desperdiçar recursos. Facilita troca e recondicionamento de celulares, laptops e relógios, prolongando sua vida útil globalmente. Um motor de IA processa até 90 mil dispositivos por dia, totalizando 150 milhões de aparelhos nos últimos quatro anos, equivalente a todos os smartphones do Reino Unido e França juntos.
- Quay Quarter Tower, Austrália: Arranha-céus do século XX enfrentam demolição, gerando grande pegada de carbono. A Quay Quarter Tower foi transformada, mantendo 65% da estrutura original e 98% do núcleo, resultando em torre moderna, com design de ponta e impacto ambiental reduzido, provando que regeneração pode substituir destruição.
- Lagos Fashion Week, Nigéria: Promove moda sustentável, exigindo das marcas práticas responsáveis de produção, tingimento, transporte e cadeias de suprimentos locais. Há 15 anos, a iniciativa realiza programas de capacitação, valorizando artesanato nativo e transformando resíduos em materiais valiosos.
Earthshot 5 – Combater a Crise Climática
- Form Energy, EUA: Baterias de ferro-ar armazenam energia renovável por dias, oferecendo eletricidade confiável, acessível e independente. Ferro abundante torna a tecnologia mais verde e econômica que o lítio. A empresa também gera empregos de alta remuneração em comunidades do Rust Belt americano.
- Barbados: O país responde por apenas 0,01% das emissões globais, mas enfrenta eventos climáticos extremos. Liderado pela Primeira-Ministra Mia Mottley, cria impacto global com a Iniciativa Bridgetown, fundo de US$ 700 milhões para os 70 países mais vulneráveis ao clima, além de compromisso do G20 de canalizar US$ 100 bilhões a países em desenvolvimento. Internamente, trabalha para se tornar livre de combustíveis fósseis até 2030.
- Friendship, Bangladesh: Fundada por Runa Khan, combina restauração de manguezais, hospitais flutuantes e escolas móveis, apoiando comunidades em eventos climáticos extremos, saúde, renda e educação.
Rio de Janeiro será palco do Earthshot Prize 2025
Como adiantado pelo CicloVivo aqui, a cerimônia do Earthshot Prize 2025 acontecerá no dia 5 de novembro, no Rio de Janeiro, marcando a primeira edição do prêmio na América Latina. A cidade sediará a Earthshot Week, que reunirá líderes globais, empresas, investidores e comunidades para impulsionar soluções ambientais de impacto.
“Estamos muito felizes em ver dois projetos do Brasil no Prêmio Earthshot e ansiosos para receber a cerimônia no Rio, em novembro. É uma honra sediar a primeira edição do prêmio na América Latina, e temos orgulho em oferecer nossa cidade como palco desse encontro global”, afirma o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. “Será uma oportunidade única de mostrar ao mundo a força da inovação ambiental brasileira”, completa.

