Ícone do site

Maior mobilização indígena do país começa em Brasília

Colorindo o cinza da capital com as cores do jenipapo e o urucum, o ATL acontece entre os dias 7 e 11 de abril

Published 07/04/2025
Acampamento Terra Livre (ATL)

O Acampamento Terra Livre (ATL), a maior Assembleia dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil, acontece em Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom | Agência Brasil

No último domingo (6), milhares de indígenas começaram a chegar em Brasília. Delegações de todos os cantos do Brasil pousaram em Brasília para a montagem das suas tendas, barracas, redes e estruturas. É o 21º Acampamento Terra Livre (ATL), que acontece entre os dias 7 e 11 de abril de 2025 com o tema “APIB Somos Todos Nós: Em Defesa da Constituição e da Vida”.

A maior mobilização indígena do país está estruturada em cinco eixos: “Apib Somos Todos Nós”, “Resistência e Conquista”, “Desconstitucionalização de Direitos”, “Fortalecendo a Democracia” e “Em Defesa do Futuro – A Resposta Somos Nós”.

Neste ano, o ATL destaca o empenho dos povos indígenas na garantia dos seus direitos previstos na Constituição Federal. Entre os temas debatidos na plenária principal estão os conflitos em territórios indígenas, a criação da Comissão Nacional da Verdade Indígena, a Câmara de Conciliação do Supremo Tribunal Federal (STF), a transição energética justa e a resistência LGBTQIA+.

Foto: @owapichana | Apib

COP30: declaração entre povos da Amazônia, Pacífico e Austrália

O ATL iniciou com cerimônias e pronunciamento histórico na tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A declaração uniu Povos Indígenas da Amazônia, Ilhas do Pacífico e Austrália. Entre estes estão os Pacific Climate Warriors (Guerreiros Climáticos do Pacífico, em inglês), historicamente vozes marcantes em conferências climáticas da ONU, bem como alianças que se formaram no ano passado, como o G9, formado por organizações indígenas dos nove países da Bacia Amazônica, e a Troika Indígena, articulação com lideranças do Brasil, Ilhas do Pacífico e Austrália que busca garantir continuidade e protagonismo indígena nas COPs 29, 30 e 31.

Declaração entre povos da Amazônia, Pacífico e Austrália e cerimônia de abertura. Foto: Kathleen Limayo | 350.org

Nesta 21ª edição do ATL, o tema da tenda da Coiab, “Pelo Clima e Pela Amazônia: A Resposta Somos Nós”, traz a forte dimensão internacional do evento este ano em que a maior conferência do clima mundial, a COP30, será sediada em Belém. No texto, os grupos indígenas dos ecossistemas que mais regulam as terras e os mares do planeta, a floresta Amazônia e o Oceano Pacífico, declaram que “a partir de agora, estaremos unidos, declarando ao mundo que, se depender de nós, a COP na Amazônia será o símbolo de uma virada decisiva nas negociações e mobilizações climáticas”:

Unidos pela Força da Terra: A Resposta Somos Nós

Declaração da Aliança entre os Povos Indígenas da Amazônia, do Pacífico e Austrália

Nós, os Povos Indígenas da Amazônia, com o apoio da Representação Indígena do Pacífico e dos Povos originários da Austrália, unidos pela força ancestral da Terra, pela sabedoria que sustenta a vida, e pela luta incansável em defesa de um futuro possível, lançamos esta declaração como um chamado ético urgente: a crise climática não espera, e os governos falham em agir diante da maior ameaça à humanidade. Nós, com nossas culturas e saberes milenares, somos os guardiões das terras e mares que regulam o equilíbrio do planeta. A floresta Amazônica e o Oceano Pacífico se conectam pela urgência de salvar o que há de mais precioso: a vida. No entanto, a ganância e a exploração desenfreada ameaçam destruir o que mantivemos vivo por milênios. A indiferença dos governos, longe de proteger, expõe nossas ilhas e florestas ao risco da extinção, mas não nos silenciarão.

Sempre estivemos aqui.

Enquanto os governos seguem a lógica egoísta de “cada um por si”, nós, em uma união de povos, tecemos uma rede de resistência e esperança entre as terras da Amazônia e os mares do Pacífico. Nossos saberes ancestrais e nossos corações batem juntos, protegendo a terra, o ar e as águas, garantindo que o canto das florestas e oceanos nunca se apague.

Declaração entre povos da Amazônia, Pacífico e Austrália e cerimônia de abertura. Foto: Kathleen Limayo | 350.org

Nós, do Pacífico, temos levantado nossas vozes nas COPs, mas a inação e a indiferença dos governantes são incompreensíveis. Nossas ilhas estão à beira do desaparecimento, e nossos anciãos têm levado nossas soluções para a comunidade internacional. E, ainda assim, a gravidade do nosso destino não parece tocar os corações dos que sentam à mesa para decidir a nossa existência. Mas não vamos desistir.

Lutamos, não afundamos.

Nós, da Amazônia, temos feito a nossa parte na defesa da floresta e seguimos de perto a luta de nossos irmãos e irmãs do Pacífico, no clamor por uma vida digna nas conferências climáticas. Este ano, a conferência acontecerá em nossa casa, na Amazônia. Uma coisa é certa: o eco do seu chamado ético ressoa em nós como aliados firmes, comprometidos com a defesa da vida.

A partir de agora, estaremos unidos, declarando ao mundo que, se depender de nós, a COP na Amazônia será o símbolo de uma virada decisiva nas negociações e mobilizações climáticas. Nossa mensagem é simples e direta: não podemos mais tolerar a falta de ambição diante da maior crise de todos os tempos. Sentimos uma responsabilidade ética de levar nossa voz aos centro da decisão política.

Declaração entre povos da Amazônia, Pacífico e Austrália e cerimônia de abertura. Foto: Kathleen Limayo | 350.org

A presidência brasileira da COP30 atendeu ao clamor dos Povos Indígenas da Amazônia e do Brasil e propôs a criação do Círculo de Liderança Indígena. Agora, aguardamos que essa instância se torne real e eficaz, e que tenha peso nos mais altos níveis. Não queremos uma instituição meramente simbólica e performática, sem impacto político concreto. Ninguém mais tem o privilégio de esperar que promessas se tornem ação no futuro: nossas vidas estão em risco agora.

Nós, Povos Indígenas da Amazônia, do Pacífico e da Austrália exigimos:

Este é o ponto de partida para qualquer discussão sobre o Balanço Ético Global. A floresta Amazônica e o Oceano Pacífico são essenciais para a preservação da biodiversidade global e atuam como barreiras naturais contra as mudanças climáticas.

A COP30, na Amazônia, não pode ser marcada pela falta de soluções. Este é o momento de fazer história, de agir com coragem e justiça. As mobilizações globais de 2019, impulsionadas pela juventude, clamaram por um futuro onde a vida fosse reverenciada. Agora, cinco anos depois, chegou a nossa vez de liderar essa luta e de exigir limites!

Declaração entre
povos da Amazônia, Pacífico e Austrália e cerimônia de abertura. Foto: Kathleen Limayo | 350.org

Precisamos traçar uma linha clara para um mundo em crise – não podemos mais ignorar as questões urgentes que ameaçam o nosso futuro.

Damos este passo juntos e chamamos a todas as pessoas para se aliarem conosco.

A resposta somos nós. Todos nós!

– O G9 da Amazônia indígena, a Troika indígena e os Pacific Climate Warriors (Guerreiros Climáticos do Pacífico, em inglês)

ATL 2025

Barracas montadas no Acampamento Terra Livre – ATL, no espaço Funarte. Foto: Bruno Peres | Agência Brasil

O acampamento deste ano também celebra a união e a resistência da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que completa 20 anos de luta e conquistas. O Acampamento Terra Livre é organizado pela Apib e suas sete organizações regionais de base: Apoinme, ArpinSudeste, ArpinSul, Aty Guasu, Conselho Terena, Coaib e Comissão Guarani Yvyrupa.

Foto: @owapichana | Apib

Colorindo o cinza da capital com as cores do jenipapo e o urucum, são esperados entre 6 e 8 mil indígenas de mais de 200 povos para a mobilização, segundo a Apib. Quem não estiver presente, pode apoiar a luta dos povos indígenas de longe doando por meio do site.

Foto: @owapichana | Apib

Alguns destaques da programação:

Confira a programação completa: https://apiboficial.org/atl-2025/

Sair da versão mobile