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Nova Norma da SBTi pode potencializar crédito de carbono da reciclagem

Com rastreabilidade, inclusão social e tecnologia, a reciclagem pode se consolidar como uma das soluções climáticas mais aderentes às novas diretrizes

Published 17/06/2026
créditos de carbono reciclagem

Foto: Divulgação

A agenda climática corporativa vive um momento de inflexão. Durante anos, empresas comprometidas com metas de descarbonização foram orientadas, corretamente, a priorizar a redução direta de suas emissões operacionais e de cadeia de valor. No entanto, a complexidade das cadeias globais, a dificuldade de transformar determinados processos produtivos e a urgência de acelerar soluções climáticas de alto impacto têm ampliado o debate sobre como instrumentos de mercado podem complementar, com integridade, os esforços de redução.

Lançada em 11 de Junho, o novo movimento da Science Based Targets initiative (SBTi), especialmente a evolução do Corporate Net-Zero Standard V2, representa uma mudança relevante para o mercado climático. A leitura aponta que a SBTi passa a reconhecer de forma mais clara o papel dos certificados de atributos ambientais, dos modelos book-and-claim e de estruturas independentes capazes de comprovar, rastrear e qualificar benefícios climáticos. Em outras palavras, o mercado deixa de discutir apenas se instrumentos certificados podem ou não ter um papel na transição e passa a discutir quais instrumentos têm integridade suficiente para serem reconhecidos.

Essa mudança é especialmente importante para setores e soluções que geram impacto climático fora dos modelos tradicionais de energia renovável e remoção de carbono. A reciclagem é um desses casos.

Reciclagem como ativo climático

A reciclagem reduz emissões porque substitui matérias-primas virgens por matérias-primas secundárias. Ao reciclar plástico, papel, metal, vidro ou outros materiais, evita-se parte das emissões associadas à extração, produção, transporte e processamento de insumos primários. Além disso, a reciclagem reduz a destinação de resíduos para aterros e lixões, diminui pressão sobre recursos naturais e gera renda para trabalhadores da cadeia de coleta, triagem e valorização de materiais.

Apesar desse impacto evidente, a reciclagem historicamente foi tratada mais como obrigação ambiental, responsabilidade pós-consumo ou política pública de resíduos do que como uma solução climática estruturada. O novo cenário regulatório e metodológico do mercado de carbono pode corrigir essa distorção.

Quando uma operação de reciclagem é rastreada, auditável e quantificada com metodologia reconhecida, deixa de ser apenas uma atividade ambiental positiva e passa a se transformar em um ativo climático verificável. Isso abre espaço para que empresas apoiem diretamente cadeias de reciclagem capazes de gerar reduções reais de emissões, com benefícios sociais e ambientais adicionais.

O que muda com a visão da SBTi

A principal mensagem do novo debate em torno da SBTi é que os instrumentos climáticos precisam ter credibilidade, transparência e infraestrutura robusta. A SBTi não pretende certificar individualmente cada instrumento, mas tende a reconhecer frameworks, padrões, programas e mecanismos de terceira parte que ofereçam qualidade e integridade.

Isso fortalece o papel de registros internacionais, metodologias reconhecidas, MRV digital, auditoria independente e avaliação externa da qualidade dos créditos. Para os compradores corporativos, significa que não bastará adquirir qualquer crédito ou certificado. Será necessário demonstrar que o instrumento utilizado possui lastro, adicionalidade, rastreabilidade, governança, mensuração adequada e contribuição efetiva para a transição climática.

Para os produtores de créditos de carbono, a mensagem é igualmente clara: projetos com baixa transparência, dados frágeis ou impacto pouco comprovável perderão espaço. Por outro lado, projetos com rastreabilidade de ponta a ponta, documentação técnica robusta, verificação independente e benefícios ambientais e sociais mensuráveis tendem a ganhar relevância e valor.

É exatamente nesse ponto que os créditos de carbono da reciclagem podem ser potencializados.

Por que a reciclagem pode ganhar protagonismo

A reciclagem combina três atributos cada vez mais valorizados pelo mercado climático.

O primeiro é a materialidade. A substituição de matéria-prima virgem por reciclada gera reduções mensuráveis de emissões ao longo da cadeia produtiva. Em um mundo no qual as empresas buscam reduzir emissões de Escopo 3, soluções que atuam sobre materiais, embalagens e cadeias de suprimento tornam-se altamente relevantes.

O segundo é a rastreabilidade. Diferentemente de alguns projetos climáticos nos quais a comprovação do benefício depende de premissas complexas e projeções de longo prazo, a reciclagem permite gerar evidências operacionais concretas: peso do material, tipo de resíduo, origem, destino, notas, fotos, georreferenciamento, comprovantes de transação e integração com recicladores. Quando essas informações são digitalizadas e auditáveis, a integridade do crédito aumenta.

O terceiro é o impacto socioambiental. A reciclagem, especialmente no Brasil, está profundamente conectada ao trabalho de catadores, cooperativas, pequenos operadores e redes locais de coleta. Ao remunerar melhor essa cadeia, o crédito de carbono pode funcionar como instrumento de inclusão produtiva, formalização, aumento de renda e valorização de quem está na base da economia circular.

Assim, o crédito de carbono da reciclagem não representa apenas uma tonelada de CO₂ evitada. Ele pode representar também a profissionalização da logística reversa, a valorização da matéria-prima secundária, o fortalecimento de cadeias locais e a construção de uma economia circular mais justa.

Oportunidade para compradores corporativos

Para empresas compradoras, especialmente aquelas com metas climáticas, embalagens no mercado e compromissos de circularidade, os créditos de carbono da reciclagem oferecem uma oportunidade estratégica.

Eles permitem conectar clima, resíduos, logística reversa e impacto social em um único instrumento. Em vez de apoiar projetos desconectados de sua cadeia de valor, uma empresa pode direcionar recursos para soluções que reduzem emissões e, ao mesmo tempo, melhoram a gestão pós-consumo de materiais relacionados ao seu próprio setor.

Essa conexão é particularmente relevante para empresas de bens de consumo, alimentos e bebidas, cosméticos, varejo, e-commerce, indústria química, embalagens, moda, eletrônicos e outros segmentos com grande exposição a resíduos pós-consumo.

Com o amadurecimento da SBTi e o endosso na aceitação de certificados ambientais de alta integridade, compradores passarão a buscar ativos que tenham narrativa forte, comprovação técnica e aderência à sua cadeia. A reciclagem atende a esses três critérios quando estruturada com tecnologia, governança e certificação adequada.

O crescimento desse mercado, entretanto, dependerá de integridade. Isto é, da capacidade de comprovar, com metodologia reconhecida, auditoria independente e rastreabilidade robusta, que os materiais foram efetivamente reciclados e que as reduções de emissões são reais e mensuráveis. Nesse aspecto, a tecnologia permite transformar uma cadeia historicamente informal em uma infraestrutura climática confiável.

Brasil como potência em créditos de reciclagem

O Brasil tem condições únicas para liderar esse mercado. O país possui uma das maiores cadeias de reciclagem social do mundo, uma base expressiva de catadores e cooperativas, uma legislação robusta de logística reversa e uma demanda crescente de empresas por comprovação de circularidade.

Ao mesmo tempo, ainda há enormes volumes de resíduos que deixam de ser reciclados por falta de estrutura, remuneração adequada, tecnologia e integração entre os elos da cadeia. O crédito de carbono pode ser o mecanismo financeiro capaz de fechar essa conta.

Essa é uma oportunidade concreta de transformar a reciclagem brasileira em infraestrutura climática reconhecida internacionalmente.

Pioneirismo da Green Mining

É nesse contexto que se destaca o pioneirismo da Green Mining. Em 2025, a empresa submeteu seu projeto de crédito de carbono da reciclagem à Gold Standard, uma das certificadoras internacionais mais reconhecidas do mercado voluntário de carbono.

O projeto da Green Mining foi o primeiro do Brasil listado pela Gold Standard e encontra-se atualmente em fase de auditoria independente (VVB). Esse marco representa um avanço relevante não apenas para a empresa, mas para todo o setor de reciclagem no Brasil.

Ao levar a reciclagem para uma certificação climática internacional de alta integridade, a Green Mining demonstra que a economia circular pode ocupar um lugar central na agenda de net zero. A iniciativa combina rastreabilidade, tecnologia, logística reversa, impacto social e redução de emissões em um modelo capaz de dialogar com as novas exigências globais de qualidade.

Estação Recicle & Ganhe. Foto: Green Mining

Mais do que desenvolver um crédito de carbono, a Green Mining está ajudando a construir uma nova categoria de ativo climático: um crédito baseado na reciclagem, com lastro físico, impacto social e potencial de escala.

Em um momento em que a SBTi reforça a importância de instrumentos confiáveis, verificáveis e reconhecidos por terceiros, o avanço da Green Mining junto à Gold Standard coloca o Brasil na vanguarda de uma agenda estratégica: transformar resíduos em valor climático, circularidade em redução de emissões e reciclagem em instrumento de financiamento da transição para uma economia de baixo carbono.

O futuro do mercado de carbono será cada vez mais exigente. E justamente por isso, soluções com rastreabilidade, auditoria e impacto real tendem a se destacar. A reciclagem, quando feita com integridade, tem tudo para ocupar esse espaço.

Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
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