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Nosso maior desafio nunca foi reciclar, mas tornar a reciclagem competitiva

Será que o Brasil finalmente começou a caminhar nessa direção?

Published 09/06/2026
latas de aço

Foto: iStock

Desde a promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em 2010, a reciclagem passou a ocupar uma posição central no discurso institucional sobre sustentabilidade e gestão de resíduos no Brasil. Em teoria, o país consolidava uma visão moderna de responsabilidade compartilhada, logística reversa e valorização de materiais pós-consumo.

Na prática, porém, a reciclagem segue até hoje operando de forma marginal, fragmentada e economicamente frágil. Apesar da crescente relevância ambiental do tema, as rotas de valorização de resíduos que estimulam maior circularidade, permaneceram apoiadas em mecanismos sociais compensatórios e com baixa estruturação econômica da cadeia. Enquanto isso, o aterramento consolidou-se como a solução dominante, previsível e estruturalmente mais competitiva.

Esse cenário não ocorreu por acaso. Desde o nascimento da PNRS, o Brasil acabou se desvirtuando do seu próprio arcabouço legal, que previa o aterramento sanitário como etapa final da gestão de resíduos, mas que, na prática, passou a privilegiar essa rota como eixo central do sistema. Com isso, a reciclagem foi relegada, ainda que não formalmente, a uma dinâmica complementar, dependente de oscilações de mercado, baixa previsibilidade econômica e elevada fragilidade regulatória.

Aterro sanitário. Foto: Miroslav Gecovic por Pixabay

Agora, em 2026, começamos a observar sinais mais concretos de uma possível inflexão desse modelo. Os avanços conjuntos do PL 1.800/2021, da PEC 34/2025 (conhecida como PEC da Reciclagem) e do novo Decreto das Embalagens Plásticas (12.688/2025), indicam uma tentativa mais robusta de reorganização regulatória da economia circular no país. Um processo ainda incompleto, mas estruturalmente mais sofisticado do que qualquer outro observado desde a criação da PNRS.

O movimento é relevante porque altera o foco histórico das políticas públicas. Até recentemente, a regulação brasileira atuava predominantemente sobre obrigações ambientais e metas de destinação. Agora, observamos uma tentativa mais ampla de reorganizar os próprios incentivos econômicos da cadeia.

O PL 1.800/2021 busca reduzir a carga tributária sobre materiais recicláveis, evitando que o insumo virgem continue economicamente mais competitivo que o pós-consumo. Já a PEC da Reciclagem, tenta consolidar uma proteção estrutural para a cadeia recicladora, evitando que a reorganização tributária brasileira fragilize economicamente o material reciclado. Em paralelo, o novo Decreto do Plástico amplia metas de logística reversa e reforça a obrigatoriedade do conteúdo reciclado nas embalagens. Em conjunto, essas iniciativas têm o potencial de formar uma nova arquitetura econômica da circularidade.

Essa composição é central porque reconhece que os avanços da reciclagem em escala não dependem apenas da superação dos desafios logísticos e tecnológicos. A reciclagem é, sobretudo, um problema sistêmico de incentivos. Com literatura, aprendemos, por exemplo, o conceito de path dependence, desenvolvido pelo economista Paul David demonstrando que, sistemas econômicos tendem a perpetuar trajetórias históricas mesmo quando alternativas mais eficientes já existem. Posteriormente, autores como W. Brian Arthur e Gregory Unruh aprofundaram a compreensão sobre “lock-ins” tecnológicos e institucionais, mostrando como infraestrutura, contratos, financiamento e comportamento social passam a reforçar mutuamente determinados modelos operacionais.

Foto: Mateus Fernandes

No caso brasileiro, isso ajuda a compreender por que o setor de resíduos permanece estruturalmente dependente dos aterros. Demonstrando que, isso não ocorre apenas por decisões técnicas, mas porque toda a lógica econômica, contratual e operacional foi historicamente constituída a partir desse fluxo e segue presa à perpetuação desse legado. O sistema não apenas utiliza os aterros: ele foi desenhado para continuar aterrando.

É justamente nesse ponto que os avanços regulatórios recentes ganham relevância. Pela primeira vez, o país começa a atuar não apenas sobre a obrigação de reciclar, mas sobre a competitividade econômica da reciclagem. Ao melhorar o valor relativo do material reciclado, reduzir barreiras tributárias, criar mecanismos financeiros para logística reversa e ampliar a responsabilização de quem produz resíduos descartados no pós-consumo, o sistema regulatório tenta alterar a direção histórica dos incentivos.

Isso pode favorecer uma reorganização progressiva dos fluxos materiais, estimulando investimentos em triagem, valorização e recuperação de resíduos pós-consumo, indo além do simples sentenciamento desses materiais ao aterramento sanitário. Em outras palavras: a reciclagem deixa de ser apenas uma agenda ambiental corretiva e passa a ser tratada como infraestrutura econômica estratégica.

Mas os desafios permanecem significativos e ignorá-los produziria uma leitura superficial do momento atual. Há críticas que precisam ser ouvidas de que incentivos fiscais isoladamente não garantem transformação sistêmica real. Parte dos especialistas alerta para o risco da chamada “circularidade estatística”: crescimento de certificados, créditos e metas formais sem alteração proporcional do fluxo físico de resíduos efetivamente desviados dos aterros.

Outros apontam que o ganho econômico pode acabar concentrado em grandes recicladoras e transformadores, enquanto cooperativas e catadores, sobre os quais temos, como país, dívidas históricas, sigam marginalizados, com baixa captura de valor e limitada capacidade de desenvolvimento tecnológico, operacional e financeiro.

As mulheres são maioria no universo de trabalho da reciclagem no Brasil. Foto: Recicleiros

Também cresce a preocupação com a financeirização da circularidade, em que mecanismos regulatórios passam a gerar mais ativos financeiros e compliance documental do que transformação material efetiva. Ao mesmo tempo, o principal elemento de inércia do sistema continua presente: o lock-in dos aterros. Mesmo com novos incentivos, aterros sanitários seguem operando com elevada previsibilidade financeira, contratos de longo prazo, escala consolidada e forte capacidade de absorção dos fluxos de materiais e financeiros.

Isso significa que avanços na reciclagem não necessariamente se traduzem, automaticamente, em redução proporcional da disposição final. É o fenômeno que parte da literatura identifica como efeito rebote da infraestrutura, já tratado em outro artigo, no qual o sistema se adapta, torna-se refém da própria eficiência e, assim, preserva sua lógica dominante.

Portanto, a questão central deixa de ser apenas aumentar a reciclagem e passa a ser reorganizar estruturalmente os incentivos que sustentam o aterramento como solução prioritária. Ainda assim, seria um erro minimizar o momento atual. O Brasil talvez esteja vivendo a primeira tentativa realmente coordenada de alinhar obrigação regulatória, viabilidade econômica e reorganização sistêmica da cadeia de resíduos.

Economia Circular. Fonte: Fundação Ellen MacArthur

Esse movimento dialoga diretamente com uma lógica de autocompensação sistêmica, elemento central da minha pesquisa de mestrado sobre economia do lixo, na qual o aumento da valorização de materiais recicláveis gera ganhos econômicos, ambientais e operacionais que reforçam a própria expansão da circularidade.

Quando a recuperação da fração seca passa a ser economicamente reconhecida como parte estratégica da gestão de resíduos, toda a dinâmica do sistema começa gradualmente a se reorganizar. Melhora-se a qualidade do resíduo orgânico, aumenta-se a eficiência de rotas complementares como biogás e compostagem, avança o design circular das embalagens, reduz-se a pressão sobre aterros e diminui-se a dependência de recursos naturais virgens. O sistema evolui gradativamente até que, “de repente”, a própria dinâmica econômica da circularidade começa a sustentar sua transformação.

O avanço regulatório é real e merece reconhecimento. Mas sua verdadeira efetividade será medida pela capacidade de alterar não apenas indicadores formais de reciclagem, mas sim a lógica estrutural que historicamente tornou o aterramento mais previsível e economicamente mais atrativo do que a recuperação de valor dos resíduos.

Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.
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