Em um único fim de semana — nos dias 31 de maio e 1º de junho de 2025 — algo extraordinário aconteceu às margens do Córrego do Cordeiro, na Zona Sul de São Paulo, Cidade Ademar. Ao longo de 400 metros de leito aberto, um mutirão reuniu jovens, crianças, artistas, educadores, moradores e ativistas para transformar um trecho negligenciado da cidade em um espaço de cuidado, arte e regeneração. Assim aconteceu a ação “Despertar com o Rio”, uma mobilização coletiva que tem tudo para se tornar referência em restauração urbana comunitária.
O início: escuta, bênção e persistência
A semente dessa transformação foi plantada pela ONG Despertar, que há anos atua com educação e juventude no território. A diretora da organização, Cecília Zanotti, compartilha como tudo começou:
“Quando eu cheguei na Despertar, eu vinha de quatro anos de caminhada nas expedições do Rios e Ruas, que me ajudaram a limpar o olhar para os rios de São Paulo. E quando vi um córrego aberto passando no terreno da ONG, pensei: que sorte! Um curso de água livre! Estava um pouco maltratado e abandonado, mas falei o que aprendi nas expedições: ‘Calma, Cordeiro, em breve vamos chegar com muitos amigos para limpar suas margens e suas águas.’”
Durante dois anos, Ciça pedia a bênção ao córrego e aos mais velhos nas aberturas dos eventos da ONG. Apesar dos olhares desconfiados, seguiu firme na escuta e na intenção. E o chamado foi atendido.
A chegada da rede: quando os sonhos se conectam
Inspirado por uma ação no Jardim Lapenna, o educador e mobilizador Edgard Gouveia Júnior, criador da metodologia Primavera X, visitou a ONG junto com sua equipe. Com um convite simples e potente, convocou a turma 2025 do curso Gaia Education SP, do Ciclo Gaia VivA — estendendo o chamado a participantes de edições anteriores, redes parceiras como o EcoBairro Brasil, que contribuiu com sua expertise em articulação institucional para intervenções urbanas, e outros coletivos, como a Agenda Cultural Arte e os Permacultores Urbanos, que também contam com participantes do curso.
Assim, uma verdadeira aldeia urbana se formou. A partir da pedagogia da Primavera X — que convida jovens e comunidades para uma gincana de transformação — os participantes foram estimulados a observar o território, imaginar possibilidades e construir maquetes, que orientaram a atuação dos “clãs de ação”. Os sonhos começaram a tomar forma.
O que aconteceu: arte, cuidado e regeneração
Nos dois dias de ação, o que se viu foi um verdadeiro festival de cidadania viva:
Grafites coloriram os muros, casas e espaços públicos. Uma rede de artistas respondeu ao chamado de Bettina Ravioli da @agendaculturalarte e do Enivo, da @a7ma ressignificando a paisagem e trazendo beleza para os caminhos.
Criação e instalação de duas ilhas flutuantes no leito do córrego, feitas com materiais reaproveitados, em um trabalho cuidadoso liderado pelos Permacultores Urbanos e AguaV.
Plantio de dezenas de árvores e espécies nativas, com projeto da querida Cynthia Zanotto e execução por centenas de pessoas ao longo das margens e no entorno.
Limpeza comunitária do leito do rio.
Pintura de jogos no chão para as crianças e construção de decks de contemplação, estimulando o uso lúdico e respeitoso do espaço.
Tudo envolto em muita alegria, partilhas e afeto. Foi emocionante ver como a comunidade local se engajou: emprestando ferramentas, oferecendo ajuda e somando forças no mutirão. O envolvimento das pessoas do território deu ainda mais sentido à proposta, mostrando que regenerar também é fortalecer laços entre quem vive ao redor. Afinal, participar e se envolver são chaves para promover pertencimento, afeto e uma rede de cuidado, manutenção e continuidade do que foi realizado.
O rio como símbolo e parceiro
Mais do que uma ação comunitária e ambiental, Despertar com o Rio foi uma experiência de regeneração simbólica e afetiva. Um córrego tantas vezes negligenciado, castigado pelo lixo e pelo esgoto, se tornou protagonista e parceiro. Não apenas foi cuidado, mas foi visto, escutado, respeitado e reintegrado à vida comunitária.
A arte teve papel central nesse processo — não como enfeite, mas como instrumento de educação, pertencimento e transformação.
E agora, para onde correm essas águas?
A questão dos rios urbanos é urgente nas cidades brasileiras. Ela exige uma reflexão coletiva e uma mudança profunda na forma como nos relacionamos com as águas, muitas vezes escondidas sob concreto, misturadas ao esgoto e ao lixo.
Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro optaram, historicamente, por enterrar seus rios. E hoje sofrem com enchentes, ilhas de calor e tragédias climáticas agravadas por um planejamento que desrespeita o movimento natural das águas.
Diante da emergência climática, é hora de redesenhar nossas cidades com base em novos princípios. É hora de abrir espaço para os rios, despoluir, reflorestar as margens, criar parques, tornar as cidades mais permeáveis — verdadeiras cidades-esponja. Esse é o caminho inteligente e regenerativo para os desafios que já estão entre nós.
O desejo é que essa experiência se amplie, inspirando outros coletivos e territórios a ouvir e cuidar dos rios urbanos — e, com eles, das relações, dos sonhos e da vida em comunidade.
Seja na forma de arte, afeto, plantio ou escuta, o que se viveu neste fim de semana foi a potência de um novo paradigma: aquele em que a cidade pode ser viva — e o rio, livre.
Que essa ação seja apenas uma entre muitas outras que estão por vir.
Quer saber mais ou levar essa experiência para sua comunidade?
Siga e entre em contato com os coletivos que tornaram essa ação possível:
- @ciclogaiaviva
- @ecobairrobrasil
- @sou.despertar
- @permacultoresurbanos
- @agendaculturalarte
- @edgardgouveiajunior
- @aguav
- @instituto7ma
- @livelab
- @jornadax
Este conteúdo foi escrito por Marina Dain, do ciclo Gaia viva. Marina Dain, é Mãe, Designer, Facilitadora Visual, Mentora, Educadora e Facilitadora de Processos de Grupos. Pós-graduada em Psicologia e Cofundadora da Associação Terra Una (2005). Sua trajetória integra de forma transdisciplinar a experimentação e a partilha dos conhecimentos apreendidos em forma de cursos e vivências. Desde 2009 coordena o programa ‘Gaia Education Design para Sustentabilidade (EDE)’, em diferentes cidades. É Co-idealizadora do @ciclogaiaviva, Tutora dos programas GEDS do @gaiaeducationbrasil e Colunista da revista digital ‘Travessias’ da Bambual Editora.

