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Projeto transforma a forma de caminhar em bairro de SP

Sistema de sinalização integra plano de bairro no Jardim Lapenna e mobiliza moradores para instalar 42 placas em pontos estratégicos

Published 05/11/2025

Moradores em mutirão realizado no Jardim Lapenna. Foto: Divulgação

A chegada de um sistema de sinalização urbana dedicado aos deslocamentos a pé e de bicicleta transformou a experiência de circulação no bairro Jardim Lapenna, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. A nova sinalização facilita a navegação por ruas e praças e destaca histórias locais por meio de placas informativas, indicativas e de orientação.

Idealizado pelo Instituto Caminhabilidade em parceria com a Fundação Tide Setúbal, o projeto é parte do Plano de Bairro desenvolvido para o território. Ele foi construído coletivamente: moradores participaram de oficinas que mapearam rotas, serviços e espaços relevantes, culminando em um mutirão que instalou as placas. O sistema implementado se baseia no conceito de Legibilidade Cidadã — também conhecido pelo termo em inglês wayfinding, que define o quanto o ambiente urbano é legível e facilmente compreendido, permitindo que as pessoas percorram sua região com mais clareza e pertencimento.

Foram fixadas 42 placas ao todo, 17 com histórias locais, 12 com direções e tempos de percurso a pé, quatro indicativas acompanhadas de informação, três com o mapa completo e outras seis que combinam localização e conteúdos adicionais. Distribuídas em pontos de chegada ao bairro, como a estação de trem São Miguel, além de várias praças, elas auxiliam tanto moradores quanto visitantes a se orientar e identificar a diversidade cultural e social do território.

Leticia Sabino (Instituto Caminhabilidade) ao lado de Zé Maloca, morador instalando placas informativas pelo bairro. Foto: Divulgação

O Jardim Lapenna contabiliza atualmente quatro quadras, dez praças, três creches e uma escola, além de espaços de convivência criados coletivamente, todos devidamente sinalizados. Parte desses equipamentos homenageia moradores considerados importantes, reconhecidos em oficinas voltadas para o levantamento de memórias e personagens. Uma das placas celebra Dona Glória, moradora desde 1963 e nascida no interior da Bahia. Figura ativa em lutas por melhorias no bairro, ela integrou o Fórum de Moradores e dirigiu a Sociedade Amigos do Jardim Lapenna, contribuindo diretamente para conquistas como escolas e um posto de saúde, que ampliaram o acesso da população a direitos básicos.

Para Leticia Sabino, diretora do Instituto Caminhabilidade, intervenções no espaço urbano que combinam arte e informação modificam a maneira como a caminhada é percebida. “O intuito é que o projeto seja um exemplo de como as cidades devem se comunicar com as pessoas, ajudando elas a se localizar e provocando relações de afeto com os espaços, pois isso melhora a sensação de segurança das mulheres e convida as pessoas a caminhar”, afirmou. Ela ressalta que iniciativas desse tipo costumam se restringir aos centros históricos, como se apenas essas áreas reunissem narrativas relevantes para preservação e conexão das pessoas.

Participação coletiva

O percurso até a implementação envolveu oficinas realizadas no Galpão ZL, núcleo de desenvolvimento local. Os primeiros encontros convidaram os participantes a caminhar pelo bairro, observando símbolos, paisagens e particularidades que inspiraram a identidade visual das placas. Na sequência, os moradores se reuniram para compartilhar relatos pessoais e registrar memórias do território. Como resultado, foram identificados 27 pontos de interesse e iniciadas entrevistas e pesquisas com residentes.

Para a fase de instalação, um mutirão comunitário foi mobilizado, acompanhado por intervenções artísticas em quatro muros do bairro. Moradores e artistas locais — Cleber e Bruna — pintaram grafites na Praça Guiraguaçu, na Viela das Flores, na praça da estação de trem e no Largo da Almiro, situado ao final da rua Almiro dos Reis, uma das principais do bairro. Além de embelezar a região, essas obras funcionam como referências territoriais.

Lambe da Dona Glória ao lado de placa informativa sobre o CEI. Foto: Divulgação

Do Plano de Bairro ao cotidiano de quem caminha

Com mais de 12 mil habitantes, o Jardim Lapenna acumula décadas de mobilização social. Em 2017, a comunidade deu início à elaboração do Plano de Bairro, conduzido com a Fundação Tide Setúbal e apoio técnico da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O documento resultante apresenta 38 ações estruturantes, distribuídas em 14 propostas e quatro desafios centrais, dentre eles a caminhabilidade — reconhecida como condição essencial para a qualidade de vida.

Desde então, o território vem passando por transformações, como ruas compartilhadas, novas praças e calçadas acessíveis. A Legibilidade Cidadã surge como um desdobramento da Proposta 4 do Plano de Bairro, que estimula uma rota dedicada ao esporte, à cultura e à educação, conectando equipamentos públicos e comunitários por meio de sinalização voltada para deslocamentos a pé.

Na avaliação de Andrelissa Ruiz, da Fundação Tide Setubal — que há 15 anos atua com desenvolvimento local no bairro —, o processo revela a forma como o espaço é ocupado e atravessado pela comunidade. “Foi um processo muito rico, porque durante o mapeamento surgiram ícones da história do território, moradores antigos (alguns já falecidos) que foram fundamentais para conquistar as primeiras melhorias do bairro e que agora estão homenageados nas placas. Além disso, o processo coletivo com os moradores ajudou a perceber quais espaços têm maior relevância para a comunidade e que precisavam ser sinalizados”, concluiu.

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